Há quase um ano, escrevi aqui um texto sobre a linha ténue entre o noticiário e a propaganda.1 Era um texto, de certo modo, mais optimista e panfletário: vamos desligar a televisão, conversar e discutir com quem está ao nosso lado. Na altura, parecia-me que essa acção individual e colectiva podia ser um antídoto um tanto eficaz contra a manipulação da informação. Hoje – cansada das notícias dos últimos meses e da risada vitoriosa dos poderosos – ao relê-lo à luz das eleições que se aproximam na Hungria, sinto mais pessimismo e um certo sentido de derrota.
Depois de ler uma reportagem do Público2 que, de forma muito sucinta, retrata o estado pré-eleitoral da Hungria, destaco uma curta citação: «Ganhe Orbán ou ganhe Magyar, só quero que isto acabe». Não é apenas resignação perante um resultado eleitoral, é o reflexo do desgaste de quem já não consegue contestar o enquadramento dominante.
É neste contexto que o modelo construído por Orbán se torna eficaz e funciona de forma contínua, moldando a percepção do que é relevante. A televisão pública apresenta uma linha favorável ao governo, muitos meios privados pertencem a empresários próximos do poder, rádios e jornais locais seguem padrões semelhantes. Para muitos cidadãos, a informação chega já filtrada e organizada segundo uma lógica que limita o contraditório.
A propaganda húngara não é episódica. A máquina está em constante funcionamento, focada na repetição de temas como imigração, segurança e soberania, enquanto outros assuntos, como falhas de governação, problemas internos ou as condições quotidianas do povo húngaro, recebem pouca ou nenhuma atenção.
O esforço de contrariar esta lógica exige tempo, atenção e energia – precisamente aquilo que muitas pessoas já não têm. Nas redes sociais, onde há mais diversidade, o debate permanece muitas vezes fechado, limitado a grupos que concordam entre si. A oposição conseguiu criar algum espaço, é certo, mas ainda compete num terreno condicionado pelo modelo vigente.
Estas eleições não são apenas uma escolha política. São também a demonstração de como um modelo consolidado consegue moldar o ambiente em que a democracia funciona, tornando a alternativa real praticamente ineficaz e mais difícil. «Ganhe Orbán ou ganhe Magyar», o que permanece é o efeito estrutural deste sistema e o cansaço que ele produz.
A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1945.
1 «Noticiário ou propaganda?», https://www.desatempo.pt/blog/noticiario-ou-propaganda.
2 «Eleições na Hungria: “Se não fosse connosco, isto seria uma óptima série de TV”», https://www.publico.pt/2026/04/06/mundo/reportagem/eleicoes-hungria-nao-connosco-optima-serie-tv-2170324

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