Nota: Este texto foi publicado como Newsletter no dia 16/12/2025
Eles caminham pelos mesmos corredores que tu, lê-se, hoje, na escadaria da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL).
O cartaz surge na sequência das mais recentes notícias sobre esta instituição: um professor assistente da FDUL foi colocado em prisão preventiva por abuso de menores. Ao ler esta notícia, lembramo-nos imediatamente de uma outra, esquecida no rápido ciclo mediático. Foi no ano de 2022 quando, após a instituição abrir um canal para denúncias de alunos, cerca de 10% dos docentes da Faculdade de Direito foram denunciados por assédio e discriminação. Também nos vêm à memória as incontáveis «histórias de corredor» que, entre nós, conhecemos, sussurramos, escondemos: os inúmeros casos de assédio, de violência de professores contra estudantes que ainda não vieram a público. A seu tempo, quem sabe, algumas virão.
Muito mais que um mero antro de criminosos, a FDUL é um excelente caso-estudo para pensar o nosso país. Fábrica de elites, de lá saiu uma boa parte daqueles que nos governaram ao longo dos últimos anos. Na política, lembramo-nos de Mário Soares, Marcelo Rebelo de Sousa, Jorge Sampaio, António Costa. Na Justiça, Carlos Alexandre, Guilherme D’Oliveira Martins ou Joana Marques Vidal. Na comunicação social, Pinto Balsemão ou José Manuel Fernandes. A lista é interminável, mas exemplifica perfeitamente a relação entre o poder que rege as nossas vidas e aquela velha instituição. De cada turma da FDUL, saem ministros, magistrados, deputados, grandes empresários.
De lá saem as nossas elites, e de lá recebemos consecutivas notícias de abuso de poder. Leva-nos à pergunta: o que se passa dentro da FDUL?
Um longo estudo podia – e devia – ser feito sobre os corredores daquela instituição. Por aqui, no Desatempo, dois membros da direção passaram por lá. Uma, mais inteligente, fugiu a tempo para o outro lado da rua. Outro, que vos escreve estas palavras, passou vários anos por lá, tempo suficiente para receber um canudo, uns traumas, e para conduzir uma etnografia da Faculdade a partir de dentro. Dessa experiência, partilhamos meia dúzia de conclusões convosco que – talvez – ajudem a perceber que o abuso de poder e a discriminação não são uma mera «anomalia» na FDUL, mas a sua raison d’être. Compreendendo isso, podemos perceber um pouco melhor as elites que governam o nosso país. Afinal de contas, apenas podemos derrubar o poder, encarnado nas elites nacionais, se o estudarmos.
Começamos pelo próprio dia-a-dia da instituição. São diários os casos de estudantes que saem de aulas humilhados, em cacos, pela mão de um qualquer docente armado em déspota. Sendo esta uma experiência comum ao ensino «bancário», no sentido dado por Paulo Freire na Pedagogia do Oprimido, um ensino vertical que acentua o autoritarismo do professor sobre o aluno, esta verticalidade acentua-se na FDUL. Acentua-se com as bocas dos professores a ofender os alunos, a sua forma de falar, a sua roupa. Justificam o seu comportamento com base na profissão – «se quer ser advogada, não se pode vestir assim» – e naturalizam a brutalidade na sala de aula, especialmente contra mulheres. Os exames orais são o exemplo perfeito desta verticalidade e autoritarismo. Quantos alunos não foram humilhados, à porta dos exames, por não estarem vestidos da maneira certa, por não trazerem gravatas, por usarem os sapatos errados. Por não falarem da maneira certa. Por não saberem estar. O elitismo, na FDUL, é regra quotidiana.
Poderá argumentar-se que o acesso à faculdade se democratizou, o que é verdade. Mas o elitismo de antigamente – os alunos têm de se levantar quando o catedrático entra no anfiteatro, os alunos têm de tratar o docente por senhor professor, os alunos têm de recitar a doutrina do seu professor para ter boa nota – são reciclados a cada geração. Alguns apelidos são de antigamente, outros são mais recentes, mas todos representam a mesma filosofia.
Mas este elitismo não fica contido dentro das paredes da FDUL. Muito pelo contrário. Cria-se um canal direto dos bancos de madeira do Anfiteatro 1 para os grandes escritórios de advogados, para os governos, bancos, tribunais e consultoras. Os melhores alunos são aqueles que melhor reproduzem o habitus fduliano, a forma de estar elitista, o ensino vertical, o autoritarismo nos costumes. E são estes melhores alunos que vão para as melhores empresas, as mais lucrativas, de salários mais chorudos, onde se representam os mais poderosos interesses do nosso país.
Em vez de estudarmos na FDUL, devíamos estudar a FDUL. Estudar as suas redes de influência, os colegas de turma que se tornam colegas de corrupção, as ligações entre assédio sexual e o ensino autoritário. Compreender como é que o classismo e elitismo funciona como uma estrutura-base da instituição, que se reproduz continuamente através dos seus docentes, meros peões no jogo da discriminação e abuso de poder.
Até lá, continuemos a denunciar todos estes homens. Porque, dentro ou fora da FDUL, eles caminham pelos mesmos corredores que nós.

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