[When the UK Met Sally]

16.10.2026
When the UK Met Sally

Gostaria de poder afirmar que vos trago um texto pleno de uma extensa e nova reflexão sobre um tema amplamente abordado, dissertando (afagando o ego), mas não só o repto que o lançou é de tal pequenez, como até seria ofensivo fazê-lo. Achava que já não se baniam livros no Reino Unido desde 1987, mas parece que estava enganada. Não vos trago nada de novo, lamentavelmente.

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À data em que escrevo, 14 de outubro de 2026, a editora Faber & Faber anunciou que deixará de distribuir os livros de Sally Rooney no Reino Unido. A decisão surge na sequência da classificação, pelo governo britânico, do grupo de ação direta Palestine Action como organização terrorista, e da declaração pública da escritora irlandesa de que continuaria a apoiá-lo, nomeadamente através dos rendimentos provenientes da sua obra. Ora, ao abrigo do artigo 15.º do Terrorism Act 2000, disponibilizar dinheiro sabendo que poderá ser utilizado para fins de terrorismo constitui um crime punível com até 14 anos de prisão. Perante este cenário, a editora, com o acordo da autora, decidiu suspender a distribuição dos seus títulos no Reino Unido.

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Sally Rooney by Jonny L Davies

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O movimento Palestine Action, fundado em 2020, constitui-se com o principal objetivo de interromper a participação de empresas sediadas no Reino Unido no fornecimento de armamento a Israel, apontando o dedo ao genocídio cometido contra a Palestina. Numa fase inicial, encaravam como principal alvo a Elbit Systems, uma empresa israelita fabricante de armamento. Privilegiando a ação direta e recorrendo a formas de protesto deliberadamente disruptivas, o grupo participa no movimento de oposição, pretendendo romper as estruturas que descrevem como «corporate enablers of the Israeli military-industrial complex». Nas suas campanhas, as ações têm incluído manifestações, ocupações de instalações industriais e a destruição deliberada de propriedade e de equipamento militar, resultando frequentemente na detenção dos envolvidos. Um dos episódios mais mediáticos ocorreu em agosto de 2024, quando vários ativistas invadiram uma instalação da Elbit Systems em Filton, nos arredores de Bristol, causando danos avaliados em cerca de 1,2 milhões de libras. Esta ação foi ainda marcada por confrontos com as autoridades, dos quais resultou o ferimento grave de uma agente de polícia. Seguiu-se um longo processo judicial, durante o qual vários dos arguidos permaneceram em prisão preventiva por períodos superiores a 18 meses, levando alguns dos detidos a iniciar greves de fome em protesto contra as condições e motivações da sua detenção.

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Já em julho de 2025, depois de ativistas deste grupo terem invadido uma base da Força Aérea britânica e danificado dois aviões militares, o governo trabalhista de Keir Starmer decidiu classificar o grupo Palestine Action como organização terrorista, tornando-o o primeiro movimento britânico de protesto de ação direta a ser proscrito ao abrigo da legislação antiterrorista. Uma decisão que, longe de se limitar apenas à criminalização de atos de vandalismo ou sabotagem, passou a permitir a detenção de cidadãos pela simples manifestação de apoio à organização. Desde então, milhares de pessoas foram detidas, muitas delas meramente por empunharem cartazes onde se lia uma variação de: «I oppose genocide. I support Palestine Action».

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Kristian Buus/In Pictures via Getty Images

Em maio de 2026, após um segundo julgamento, quatro ativistas foram condenados por dano criminal, sendo que um daqueles fora também considerado culpado de ofensa à integridade física grave. No mês seguinte, receberam penas de prisão que, somadas, ultrapassam 22 anos. Apesar de nenhum dos quatro ter sido acusado ou condenado por crimes de terrorismo, o tribunal considerou existir uma «conexão terrorista» com os atos praticados, aplicando o correspondente agravamento penal. Esta interpretação não surgiu, contudo, apenas no momento da sentença. Ainda em 2024, muito antes da proscrição da Palestine Action, o Ministério Público britânico anunciou a intenção de defender a existência dessa conexão no processo de Filton, recorrendo a disposições da legislação antiterrorista que nunca tinham sido utilizadas dessa forma contra ativistas. O caso constituiria, assim, um precedente na aplicação deste enquadramento jurídico a movimentos de protesto, antecedendo a decisão governamental de classificar a própria Palestine Action como organização terrorista, o que só ocorreu em 2025.

Não se trata, evidentemente, de considerar que a destruição de propriedade ou a agressão a uma agente policial devam ficar isentas de consequências legais. Mas entre a responsabilização criminal por atos concretos e o seu enquadramento ou associação com terrorismo existe uma distinção que não deveria ser despicienda. Sobretudo quando este último permite que a criminalização ultrapasse os autores dos atos e alcance quem se limita a manifestar apoio à organização à qual pertencem. Ademais, se a destruição de equipamento militar pode ser enquadrada como terrorismo, o que dizer da sua produção, comercialização e utilização? E que lugar ocupa o Estado britânico nessa cadeia alimentar?

Enquanto piscamos os olhos e dormimos comodamente a achar que é só no país dos outros, enquanto o apoio a uma organização que procura interromper a produção de armamento pode constituir um crime, a indústria militar continua, naturalmente, a operar. Nunca gostei de ler sobre o funcionamento da indústria militar, mas cá estamos.

Em setembro de 2024, perante uma crescente discussão pública e a ênfase ocidental da dimensão da destruição e da crise humanitária na Faixa de Gaza, o próprio governo britânico reconheceu a existência de um risco claro de o equipamento militar exportado para Israel ser utilizado em violações graves do direito internacional humanitário. Neste sentido, suspendeu parte das licenças de exportação de armamento para Israel, considerando-as armas de violações graves do quadro jurídico em questão. Suspenderam cerca de 30 licenças - das 350 ativas. Em fevereiro de 2026 permaneciam em vigor 203 licenças de exportação classificadas como militares, destinadas a diferentes finalidades, incluindo reexportações, investigação e equipamentos que o governo considerou não serem «utilizáveis» nas operações em Gaza.

Na realidade, a excepção concedida aos caças F-35 é uma das mais reveladoras. Apesar de as exportações diretas de componentes britânicos para os F-35 israelitas terem sido suspensas, o fornecimento à cadeia internacional de produção manteve-se autorizado, mesmo sabendo-se que Israel é um dos seus destinatários potenciais (e prováveis). Numa operação ativista conhecida como F-35 carve-out, esta exceção foi contestada e levada ao Tribunal Superior britânico, que entendeu que não lhe competia substituir-se ao governo na avaliação das consequências estratégicas e diplomáticas de uma eventual suspensão. O mesmo governo que reconheceu a existência de um risco claro de o equipamento militar britânico ser utilizado em violações graves do direito internacional humanitário decidiu que interromper o seu fornecimento poderia comprometer interesses estratégicos superiores, nomeadamente a segurança nacional e as relações com os aliados da NATO. O risco era, portanto, suficientemente grave para justificar a suspensão de algumas exportações, mas não o suficiente.

Funestamente, as contradições não se esgotam no armamento convencional. Em janeiro de 2024, a Palantir, empresa norte-americana especializada em análise de dados e inteligência artificial, popularizada por Peter Thiel, anunciou uma parceria com o Ministério da Defesa israelita para fornecer tecnologia de apoio a operações militares. Em setembro de 2025, o governo britânico anunciou, por sua vez, uma parceria estratégica com a mesma empresa para desenvolver capacidades de inteligência artificial aplicadas à defesa, incluindo o planeamento operacional e a identificação de alvos. Em dezembro, o Ministério da Defesa britânico adjudicou-lhe diretamente um contrato de aproximadamente 240 milhões de libras. Uma bela prenda de Natal.

Naturalmente, estes contratos não constituem, por si só, prova de cumplicidade em crimes de guerra, nem são juridicamente equiparáveis aos atos pelos quais os ativistas da Palestine Action foram condenados. Mas a comparação expõe uma questão que merece ser colocada: como se estabelecem os limites do que constitui uma ameaça à segurança pública quando o próprio Estado mantém relações comerciais com empresas que participam na infraestrutura tecnológica e militar de uma ocupação cuja condução suscitou acusações de graves violações do direito internacional? É neste enquadramento que importa regressar à Palestine Action. Enquanto os riscos associados ao fornecimento de equipamento militar foram considerados compatíveis com os interesses estratégicos do Estado, os atos de quem procurava interromper essa cadeia de fornecimento passaram a ser enquadrados pela legislação antiterrorista.

Não me esqueci de que isto era suposto ser sobre a Sally Rooney (mentira, é sobre a Palestina, mas vamos deixar passar esta). Esta escritora não foi acusada de destruir equipamento militar, invadir instalações industriais ou participar em qualquer uma das ações descritas como terrorismo ou “conexão” com o mesmo. Declarou apenas que continuaria a apoiar financeiramente uma organização que, no país onde nasceu e reside, a República da Irlanda, não é proibida. Não foi necessário ao Estado proibir formalmente nenhum dos seus romances, ordenar a sua retirada das livrarias ou sequer contestar o conteúdo de uma única página. Sejamos sinceros, o conteúdo da sua obra não é exatamente inflamatório; é provavelmente mais compatível com choro copioso por baixo de uma manta no outono. Não é a primeira vez que a própria autora recorda que, no início da sua carreira, pairava a suspeição que se tivesse algo verdadeiramente radical a dizer, não lhe seria permitido dizê-lo. O sucesso literário parecia-lhe, então, uma confirmação de que as suas posições políticas eram suficientemente inofensivas para serem absorvidas pela indústria cultural.

Normal People (2020); Enda Bowe / BBC / Element Pictures / Hulu

Existe, fundamentalmente, uma deslocação do problema, do conteúdo de uma obra para o destino dos seus rendimentos. Não estamos perante uma disputa entre uma escritora e um governo zeloso na aplicação da sua legislação antiterrorista. Durante décadas, a discussão sobre a censura literária concentrou-se no que os escritores podiam ou não escrever, nas palavras que deveriam ser eliminadas, nas ideias que não podiam ser veiculadas nem circular. Aqui, porém, ninguém parece especialmente preocupado com o que acontece entre a primeira e a última página de Normal People. Os seus romances são habitados por personagens que, mesmo quando parecem preocupadas exclusivamente com os seus dramas sentimentais, não conseguem escapar às estruturas económicas e sociais que condicionam as suas relações. Concretizou-se em si o que tantas vezes escreveu para os outros.

O que me faz sentido realçar é que o Estado não precisa de interferir diretamente na escrita para condicionar as condições materiais que permitem que ela circule. A liberdade de expressão não existe num vácuo, desligada das estruturas económicas e institucionais que permitem exercê-la, nem é independente de fronteiras, muito menos de geopolítica.  Esta não é, aliás, a primeira vez que as convicções políticas de Sally Rooney interferem na circulação da sua obra. Em 2021, a escritora recusou vender os direitos de tradução de Beautiful World, Where Are You à editora israelita Modan, que havia publicado os seus dois primeiros romances em hebraico, justificando a decisão com o seu apoio ao movimento Boycott, Divestment and Sanctions (BDS). Há uma ironia particular nesta inversão de papéis. A escritora que, em 2021, reivindicava o direito de escolher as instituições com as quais pretendia colaborar, vê agora a circulação dos seus próprios livros condicionada pelas consequências jurídicas decorrentes dessas mesmas convicções. Publicar um livro nunca é apenas publicar um livro. É estabelecer contratos, distribuir rendimentos e decidir que instituições beneficiam, material e simbolicamente, da circulação de uma obra. Rooney parece ter compreendido isto muito antes de a legislação britânica o tornar impossível de ignorar.

Não desejo veicular a imagem de Sally Rooney como uma mártir a quem taparam a boca. Poucas escritoras da sua geração beneficiaram de semelhante reconhecimento crítico, comercial e institucional. Os seus romances foram traduzidos para dezenas de línguas, adaptados para a televisão e celebrados precisamente pela forma como retratam as relações entre intimidade, classe social, dinheiro e poder. A sua notoriedade e independência financeira colocam-na numa torre de marfim, inacessível à esmagadora maioria dos escritores. Pode a autora perder o mercado editorial britânico sem desaparecer da literatura. Acima de tudo, o que este caso revela assenta nos custos de manifestar convicções políticas se não se dispõe de um abundante capital económico, cultural e/ou simbólico.

Há ainda uma distinção que me parece essencial. Rooney não pediu que os seus livros fossem retirados do mercado britânico como forma de protesto, nem a Faber anunciou que deixaria de a publicar por discordar das suas posições. A decisão resulta de um constrangimento jurídico criado pela proscrição da Palestine Action. Não há uma lista de livros proibidos, uma comissão encarregada de avaliar a moralidade dos romances ou uma ordem ministerial exigindo o desaparecimento de Sally Rooney das estantes. Há uma lei, uma avaliação de risco jurídico e uma decisão editorial. O resultado pode ser semelhante, mesmo que o mecanismo seja profundamente diferente. Tão simples quanto isto. Tão fácil de esquecer.

Uma obra literária pode ser politicamente radical sem que isso implique necessariamente uma intervenção concreta do autor. Rooney introduz essa dimensão material ao comprometer os rendimentos provenientes da sua escrita a uma causa política. O seu caso torna visível a relação, muitas vezes esquecida, entre a produção cultural e a distribuição de recursos.

É por tudo isto que me parece insuficiente discutir este caso exclusivamente nos termos tradicionais da censura literária. Aquilo com que nos deparamos é uma legislação antiterrorista cujas consequências se estendem à distribuição de uma obra que nada tem de ilícito. A liberdade de expressão nunca desaparece formalmente nestes atos do governo inglês. Camufla-se que o exercício de determinadas convicções políticas possa comprometer os mecanismos económicos que permitem a circulação dessa expressão. O efeito é tanto mais inquietante quanto menos se parece com aquilo que aprendemos a reconhecer.

Talvez tenha começado este texto com a pergunta retórica e ácida errada. A que, intencionalmente, parece apontar para o clássico tema da censura literária: o fogo posto em livros. O que procurava era expor o que se permite circular, em nome de quê e em benefício de quem. Os componentes militares britânicos continuam a integrar cadeias de fornecimento que abastecem Israel, apesar dos riscos reconhecidos pelo próprio governo; uma frase escrita num cartaz pode justificar uma detenção; e os rendimentos de uma romancista podem tornar-se um obstáculo à distribuição dos seus livros. São realidades juridicamente distintas, mas a sua justaposição revela uma particular hierarquia de prioridades – determinados riscos, mesmo que impliquem conluio com um genocídio, são administrados em nome da segurança nacional, enquanto determinadas formas de oposição a essa mesma política são tratadas como ameaças à segurança.

O Reino Unido não se incompatibilizou com o que foi escrito. Incompatibilizou-se com aquilo que o seu povo decide fazer com o que tem sido escrito por e sobre quem está de fora. Um caça militar consegue, aparentemente, ser mais discreto que um romance. Está na altura de virar a direção do tiro.

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