[Não sejam tão maçadores]

27.10.2026
A praça arrumadinha e a preto e branco, (1855-1890), Francisco Rocchini, Public Domain
A praça arrumadinha e a preto e branco, (1855-1890), Francisco Rocchini, Public Domain

Um texto nada a ver com algo que não se passa.

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21 de outubro de 2026, Lisboa

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Pronto, da próxima não sejam tão maçadores. Da próxima escolham assim uma hora que dê mais jeito, umas palavras mais amigáveis, umas roupas mais arranjadinhas.

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É assim, da próxima, peçam autorização mais atempadamente. Vejam se não estorvam o trânsito, que depois aquilo fica tudo entupido. Não gritem assim muito alto porque há gente na esplanada a tentar conversar e acabaram agora mesmo de chegar.

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Pronto, tenham mais paciência, não queiram tudo já e agora. Circulem se for para circular, acatem se for para acatar.

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Isto afinal as regras são para todos, não é verdade?

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Isto afinal é preciso ordem para as coisas funcionarem, não é assim?

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As coisas vão-se fazendo, pronto. As coisas vão-se mudando. Às vezes dá para uns, às vezes dá para outros. É como no futebol. Estamos todos a jogar de igual para igual.

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As coisas adaptam-se. A gente adapta-se. Uns adaptam-se melhor que outros, mas isso sempre foi assim, não há nada a fazer.

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Não vale a pena agora estarem aos berros quando a garganta aperta. Não vale a pena reclamar quando o quarto é pequeno. Quando o espaço encolhe e a renda aumenta, quando o supermercado leva metade da metade e a outra metade já está enterrada nos tectos húmidos, nas escadas podres, no elevador estragado.

Isto quando não sobra pro tabaco, deixa-se de fumar. Quando não sobra pra cerveja, deixa-se de beber. Quando não sobra pro supermercado, deixa-se de comer. Quando não sobra pro teto, deixa-se de dormir.

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Assim se faz um país em que não se fuma, não se bebe, não se come, não se fode, não se sai, não se fala, não se anda, não se nada. Com jeitinho ainda dá para um país que não se cala.

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Mas há que ser serenos.

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E a gente vai ter de ir para mais longe, não é? Eles que se mudem. Eles que se adaptem. Eles que se metam onde é mais barato à espera do autocarro atrasado, que chega entupido até estarmos com os narizes enfiados nos sovacos uns dos outros. Que fica parado no trânsito e até serve de forninho no verão mais frio de sempre a contar a partir de agora.

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A gente remedeia-se, pronto. Só não vale a pena é gritar muito, isso já chateia.

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António Castro é poeta e escritor por teimosia. Apesar da formação académica em Ciência Política e Economia, preferiu ir escrevendo nas margens. Publicou pela primeira vez em 2020 na revista Lote e há um ano regressou à atividade constante, escrevendo no seu Substack pessoal. Tem 25 anos e vive em Lisboa.