Calle de Alcalde Sainz de Baranda, Retiro, Madrid. Era nesta artéria movimentada da capital espanhola que Maricarmen Abascal vivia desde a sua adolescência. E foi do seu apartamento de sempre que a expulsaram, como se de um objeto poeirento e inútil se tratasse. Forçada ao exílio e retirada de maca pela polícia, morreria dias depois, aos 87 anos de idade.
O caso que culminou na morte de Maricarmen, longe de constituir um acontecimento isolado, tem a virtude de expor, de forma particularmente cruel, a natureza de classe do sistema político e económico que hoje administra as nossas cidades. A cidade, reduzida à reprodução grotesca do seu imaginário arquetípico. A cidade-casino, onde a segurança e a intimidade das habitações se jogam no mercado; a cidade-produto, higienizada e docilizada para melhor reluzir nos escaparates das imobiliárias; a cidade-evento, submersa num espetáculo perpétuo de som, luz e cor que destrói o seu ecossistema e degrada o quotidiano de quem nela vive e trabalha. Nesta nova metrópole, tal como nos antigos burgos, coabitam servos e vassalos. Ou, para utilizar a formulação de Cayo Sastre, outdoors e indoors. Aos primeiros, atirados para as franjas da cidade e votados a longas viagens para o centro em transportes públicos atolados e desconfortáveis, cabe-lhes o papel de servir, sempre com um sorriso postiço plantado, e obedecer com deferência e sem questionamento. Aos segundos, investidos de uma auctoritas inabalável, é-lhes passado um salvo conduto para a satisfação de todo e qualquer capricho. «O cliente tem sempre razão», parece ser a insígnia desta nova cidade.
No seu ensaio de 1997, «L’impossible Voyage», Marc Augé propõe um exercício: imaginar a cidade de Paris no ano de 2040. O resultado, cremos, impõe-nos uma transcrição completa dessa reflexão:
«Ano de 2040: já ninguém vive em Paris, salvo raras exceções. […] Alguns restaurantes e cafés, certos comerciantes e artistas foram autorizados a permanecer nos seus locais. Paralelamente, em todas as estações os turistas visitam os lugares importantes da capital. Notre-Dame e a Torre Eiffel continuam a ser os locais favoritos do público, embora continuem a preferir os bairros cuja revitalização e administração foram confiadas à Disneylândia.
Le Marais foi o primeiro a ser concessionado: o estado ofereceu gentilmente à empresa toda gestão dos monumentos públicos e a Disney negociou diretamente com todos os proprietários privados a compra dos edifícios necessários para construir a Paris histórica.»
Quase 25 anos depois, este ensaio parece hoje menos distópico do que em 1997, e as cidades de 2026 aproximam-se vertiginosamente da descrição de Augé.
Mas não foi sempre assim. O pós-Segunda Guerra consolidou nos Estados-Nação o modelo keynesiano de intervenção na economia, criando as bases para os modernos Estados de bem-estar social. Não precisamos de lembrar a Viena Vermelha do período «entre guerras», ou os ambiciosos programas de habitação proletária dos Estados socialistas. Tomemos o exemplo da Suécia, uma democracia burguesa consolidada que logrou erigir um corajoso plano de habitação pública, posterizado como miljonprogrammet (programa de um milhão). Entre 1965 e 1974 os governos de Tag Erlander, primeiro, e Olof Palme, depois, levaram a cabo a construção de cerca de um milhão de habitações para as classes trabalhadoras, entre blocos de apartamentos pré-fabricados de betão, moradias geminadas e cento e cinquenta mil residências para estudantes, em cidades como Estocolmo, Gotemburgo e Malmö. Outro bom exemplo teve lugar na República Federal da Alemanha do Pós-Segunda Guerra, na qual a federação sindical Allgemeinen Deutschen Gewerkschaftsbundes (ADGB) implementou um ingente programa de habitação a custos controlados, dando-lhe o nome de Neue Heimat (nova casa). Num modelo de tipo cooperativo, suportado pela quotização dos trabalhadores sindicalizados, logrou construir-se em poucas décadas mais de quatrocentas mil casas na Alemanha Ocidental, superando largamente a construção operada pelos governos regionais, transformando-se, assim, na mais importante ferramenta de reconstrução urbana do Pós-Guerra.

Os aficionados do extremo-centro colocam-se em bicos dos pés e tecem loas aos pergaminhos dos sociais-democratas e dos democratas-cristãos, chamando para si os louros da benfeitoria. Obliteram, porém, a ação preponderante das classes trabalhadoras na conquista desses direitos, esquecendo-se que todas as concessões no plano social se deveram ao apertado cerco que as esquerdas revolucionárias montaram aos governos liberais durante esse período, forçando-os à adoção dessas políticas.
Ora, o que mudou, entretanto, como lembra Pedro Levi Bismarck, é a natureza do próprio sistema capitalista, que hoje não encontra nos tradicionais meios de acumulação de capital robustez bastante que satisfaça a sua ganância desmedida. Surge, então, uma nova classe de exploradores que olha para a cidade como um ativo financeiro prêt-à-manger, neutralizando o cidadão e substituindo-o pelo investidor, pelo cliente e pelo turista. Esta classe não é, porém, assim tão nova. Já Adam Smith, sumo pontífice do liberalismo clássico, sinalizava no século XVIII que «[os rentistas] gostam de colher onde nunca semearam e exigem uma renda até mesmo pelos seus produtos naturais». Para esta classe, importa alimentar o velho sonho do pequeno assalariado, acenando-lhe com a vã promessa da propriedade. Tolhida pelo compreensível desejo de possuir uma casa e instigada pela codicia do setor financeiro, às classes trabalhadoras não restou outra alternativa senão a de contrair dívida e alocar uma fatia considerável dos seus rendimentos à sua amortização. Longe vão os anos «do berço ao túmulo», divisa outrora utilizada para caracterizar a generosidade do Estado-providência.

A morte de Maricarmen pode, em todo o caso, ser o início de qualquer coisa. Qualquer coisa de esquerda, como exclamava Nanni Moretti. É assim necessário que os protestos não cessem, para que este «Ato», utilizando a definição de Zizek, se reflita numa transformação de carácter estrutural e perene. Mas esse enraizamento do Ato, isto é, a forma como ele consegue romper as estruturas sociais e operar uma revolução, não surge no vácuo, mas sim no seio daquilo a que Alain Badiou chama de «site événementiel» (local do acontecimento) e das condições para que ele ocorra. Na formulação de Badiou, são quatro, essas condições: a confiança na própria capacidade de agir; a disposição para o recurso à violência; a vontade de instituir uma justiça igualitária; e, por fim, a confiança no povo. Se este caso produzirá esse tal Ato, só o tempo o dirá.
Referências bibliográficas
Augé, Marc. L’impossible voyage: Le tourisme et ses images. Paris: Payot & Rivages, 1997.
Badiou, Alain. Being and Event. Translated by Oliver Feltham. Londres: Continuum, 2005.
Bismarck, Pedro Levi. «The Architecture of the City (in the Age of itsFinantial Reproducibility», em Burning Farm, n.º 9, junho de 2024. Disponível em https://burning.farm/essays/the-architecture-of-the-city.
Hardt, Michael. The Subversive Seventies. Nova Iorque: Oxford University Press, 2023.
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Lefebvre, Henri. O direito à cidade. Lisboa: Letra Livre, 2012.
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Östberg, Kjell. The Rise and Fall of Swedish Social Democracy. Londres: Verso, 2024.
Sastre, Cayo. Turistopía: El mundo como «souvenir». Barcelona: Los Libros del Lince, 2026.
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