[TURISTOPOLIS: esta cidade não é para velhos]

21.10.2026
Fotografia do projeto Paradise Inn, de Marinos Tsagkarakis
Fotografia do projeto Paradise Inn, de Marinos Tsagkarakis

Calle de Alcalde Sainz de Baranda, Retiro, Madrid. Era nesta artéria movimentada da capital espanhola que Maricarmen Abascal vivia desde a sua adolescência. E foi do seu apartamento de sempre que a expulsaram, como se de um objeto poeirento e inútil se tratasse. Forçada ao exílio e retirada de maca pela polícia, morreria dias depois, aos 87 anos de idade.

O caso que culminou na morte de Maricarmen, longe de constituir um acontecimento isolado, tem a virtude de expor, de forma particularmente cruel, a natureza de classe do sistema político e económico que hoje administra as nossas cidades. A cidade, reduzida à reprodução grotesca do seu imaginário arquetípico. A cidade-casino, onde a segurança e a intimidade das habitações se jogam no mercado; a cidade-produto, higienizada e docilizada para melhor reluzir nos escaparates das imobiliárias; a cidade-evento, submersa num espetáculo perpétuo de som, luz e cor que destrói o seu ecossistema e degrada o quotidiano de quem nela vive e trabalha. Nesta nova metrópole, tal como nos antigos burgos, coabitam servos e vassalos. Ou, para utilizar a formulação de Cayo Sastre, outdoors e indoors. Aos primeiros, atirados para as franjas da cidade e votados a longas viagens para o centro em transportes públicos atolados e desconfortáveis, cabe-lhes o papel de servir, sempre com um sorriso postiço plantado, e obedecer com deferência e sem questionamento. Aos segundos, investidos de uma auctoritas inabalável, é-lhes passado um salvo conduto para a satisfação de todo e qualquer capricho. «O cliente tem sempre razão», parece ser a insígnia desta nova cidade.

No seu ensaio de 1997, «L’impossible Voyage», Marc Augé propõe um exercício: imaginar a cidade de Paris no ano de 2040. O resultado, cremos, impõe-nos uma transcrição completa dessa reflexão:

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«Ano de 2040: já ninguém vive em Paris, salvo raras exceções. […] Alguns restaurantes e cafés, certos comerciantes e artistas foram autorizados a permanecer nos seus locais. Paralelamente, em todas as estações os turistas visitam os lugares importantes da capital. Notre-Dame e a Torre Eiffel continuam a ser os locais favoritos do público, embora continuem a preferir os bairros cuja revitalização e administração foram confiadas à Disneylândia. 

Le Marais foi o primeiro a ser concessionado: o estado ofereceu gentilmente à empresa toda gestão dos monumentos públicos e a Disney negociou diretamente com todos os proprietários privados a compra dos edifícios necessários para construir a Paris histórica.»

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Quase 25 anos depois, este ensaio parece hoje menos distópico do que em 1997, e as cidades de 2026 aproximam-se vertiginosamente da descrição de Augé.

Mas não foi sempre assim. O pós-Segunda Guerra consolidou nos Estados-Nação o modelo keynesiano de intervenção na economia, criando as bases para os modernos Estados de bem-estar social. Não precisamos de lembrar a Viena Vermelha do período «entre guerras», ou os ambiciosos programas de habitação proletária dos Estados socialistas. Tomemos o exemplo da Suécia, uma democracia burguesa consolidada que logrou erigir um corajoso plano de habitação pública, posterizado como miljonprogrammet (programa de um milhão). Entre 1965 e 1974 os governos de Tag Erlander, primeiro, e Olof Palme, depois, levaram a cabo a construção de cerca de um milhão de habitações para as classes trabalhadoras, entre blocos de apartamentos pré-fabricados de betão, moradias geminadas e cento e cinquenta mil residências para estudantes, em cidades como Estocolmo, Gotemburgo e Malmö. Outro bom exemplo teve lugar na República Federal da Alemanha do Pós-Segunda Guerra, na qual a federação sindical Allgemeinen Deutschen Gewerkschaftsbundes (ADGB) implementou um ingente programa de habitação a custos controlados, dando-lhe o nome de Neue Heimat (nova casa). Num modelo de tipo cooperativo, suportado pela quotização dos trabalhadores sindicalizados, logrou construir-se em poucas décadas mais de quatrocentas mil casas na Alemanha Ocidental, superando largamente a construção operada pelos governos regionais, transformando-se, assim, na mais importante ferramenta de reconstrução urbana do Pós-Guerra.

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Imagem da contrução de um bloco habitacional ao abrigo do programa Miljonprogrammet

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Os aficionados do extremo-centro colocam-se em bicos dos pés e tecem loas aos pergaminhos dos sociais-democratas e dos democratas-cristãos, chamando para si os louros da benfeitoria. Obliteram, porém, a ação preponderante das classes trabalhadoras na conquista desses direitos, esquecendo-se que todas as concessões no plano social se deveram ao apertado cerco que as esquerdas revolucionárias montaram aos governos liberais durante esse período, forçando-os à adoção dessas políticas.

Ora, o que mudou, entretanto, como lembra Pedro Levi Bismarck, é a natureza do próprio sistema capitalista, que hoje não encontra nos tradicionais meios de acumulação de capital robustez bastante que satisfaça a sua ganância desmedida. Surge, então, uma nova classe de exploradores que olha para a cidade como um ativo financeiro prêt-à-manger, neutralizando o cidadão e substituindo-o pelo investidor, pelo cliente e pelo turista. Esta classe não é, porém, assim tão nova. Já Adam Smith, sumo pontífice do liberalismo clássico, sinalizava no século XVIII que «[os rentistas] gostam de colher onde nunca semearam e exigem uma renda até mesmo pelos seus produtos naturais». Para esta classe, importa alimentar o velho sonho do pequeno assalariado, acenando-lhe com a vã promessa da propriedade. Tolhida pelo compreensível desejo de possuir uma casa e instigada pela codicia do setor financeiro, às classes trabalhadoras não restou outra alternativa senão a de contrair dívida e alocar uma fatia considerável dos seus rendimentos à sua amortização. Longe vão os anos «do berço ao túmulo», divisa outrora utilizada para caracterizar a generosidade do Estado-providência. 

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Cartaz promocional do Departamento de Turismo e Publicidade de Ontario. Circa 1950

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A morte de Maricarmen pode, em todo o caso, ser o início de qualquer coisa. Qualquer coisa de esquerda, como exclamava Nanni Moretti. É assim necessário que os protestos não cessem, para que este «Ato», utilizando a definição de Zizek, se reflita numa transformação de carácter estrutural e perene. Mas esse enraizamento do Ato, isto é, a forma como ele consegue romper as estruturas sociais e operar uma revolução, não surge no vácuo, mas sim no seio daquilo a que Alain Badiou chama de «site événementiel» (local do acontecimento) e das condições para que ele ocorra. Na formulação de Badiou, são quatro, essas condições:  a confiança na própria capacidade de agir; a disposição para o recurso à violência; a vontade de instituir uma justiça igualitária; e, por fim, a confiança no povo. Se este caso produzirá esse tal Ato, só o tempo o dirá.

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Referências bibliográficas

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Augé, Marc. L’impossible voyage: Le tourisme et ses images. Paris: Payot & Rivages, 1997.

Badiou, Alain. Being and Event. Translated by Oliver Feltham. Londres: Continuum, 2005.

Bismarck, Pedro Levi. «The Architecture of the City (in the Age of itsFinantial Reproducibility», em Burning Farm, n.º 9, junho de 2024. Disponível em https://burning.farm/essays/the-architecture-of-the-city.

Hardt, Michael. The Subversive Seventies. Nova Iorque: Oxford University Press, 2023.

Jacobs, Jane. The Death and Life of Great American Cities. Nova Iorque: Random House, 1961.

Koolhaas, Rem. Delirious New York: A Retroactive Manifesto for Manhattan. New York: Oxford University Press, 1978.

Lefebvre, Henri. O direito à cidade. Lisboa: Letra Livre, 2012.

McDonough, Tom, ed. The Situationists and the City: A Reader. Londres: Verso Books, 2010.

O’Connell, David. «When German Unions Built Housing for the People», em Jacobin, a 15 de outubro de 2019. Disponível em https://jacobin.com/2019/10/germany-trade-union-dgb-housing-crisis.

Östberg, Kjell. The Rise and Fall of Swedish Social Democracy. Londres: Verso, 2024.

Sastre, Cayo. Turistopía: El mundo como «souvenir». Barcelona: Los Libros del Lince, 2026. 

Williams, Raymond. The Country and the City. Londres: Chatto & Windus, 1973.

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