Na semana passada, tal como muitos outros, fui ao cinema para ver NAZA, filme de Yuval Abraham e Rachel Szor, de 2026, que estreou recentemente nos cinemas portugueses. O filme estreou no Festival de Cinema de Veneza em setembro e aí recebeu o Prémio Especial do Júri e uma ovação de pé de nada menos que 25 minutos. Em Lisboa, na sala onde o vi, à medida que os créditos finais deslizavam pelo ecrã, seguiu-se um longo e pesado silêncio. Algumas pessoas levavam a mão à cara, como se desejassem esconder-se, cegar-se, apagar a sua própria memória e, assim, não saber o que tinham acabado de ver.
O documentário, esmagador na sua simplicidade, revela entrevistas com 24 oficiais das IDF ou do governo israelita ligados ao genocídio em Gaza. Os realizadores afirmam ter gravado mais de 100 entrevistas do mesmo teor. Comecemos por explicar o título do filme: «NAZA» refere-se a um acrónimo utilizado pelo exército israelita para designar as vítimas «colaterais» de um ataque ou assassinato de um suposto membro do Hamas ou de uma célula dita terrorista.
Ao longo do filme, estes militares, políticos e oficiais dos serviços secretos contam as estratégias por meio das quais são definidos os alvos militares em Gaza e como são subsequentemente planeados os seus assassinatos. Todo este processo é realizado por meio de uma cadeia de ações altamente digitalizadas e segmentadas, em que a cada um cabe um papel aparentemente distante da matança em si. A utilização da IA, nomeadamente do sistema Lavender, decide igualmente, em grande parte, quem é um «terrorista» e, portanto, quem é um alvo a abater. O programador que desenvolveu este mecanismo – e que, durante o filme, se escusa de qualquer forma de responsabilidade direta pelo genocídio explicando algo como «se não fosse eu, seria outro qualquer» – admite que, 15% das vezes, o Lavender aponta alvos errados. Até mesmo quando um «alvo» cumpre os «critérios», estes são altamente questionáveis. Como é explicado no filme, houve pessoas que foram assassinadas devido a esses parâmetros, mesmo não tendo tido nenhuma atividade ou ligação com uma organização dita terrorista há muitos anos.
Todas as redes de comunicação e os telemóveis das pessoas em Gaza são vigiados, pirateados e escutados para perseguir e punir qualquer forma de resistência palestiniana. O que, já agora, torna bastante pouco plausível a ideia de que o governo israelita desconhecesse as ações do dia 7 de outubro de 2023. No documentário é expressa uma preferência clara pelo assassinato dos supostos membros do Hamas à noite, quando estão em casa com as suas famílias. Os sistemas e as regras pelos quais estes se orientaram dão aval positivo ao assassinato de um só homem, mesmo que acarrete dezenas ou centenas de NAZAs. No filme, é-nos contada a história de um bombardeamento que resultou na morte de dezenas de membros de uma família de um suposto terrorista – incluindo muitas crianças pequenas – e, no fim das contas, o «alvo» nem sequer estava em casa. Somos projetados, no documentário, para o mundo alucinado de quem perscruta telemóveis ilegalmente em busca de imagens de uma casa que permitam bombardeá-la de forma mais eficaz. Ouvimos descrições esmagadoras de quem, conscientemente, ordena e permite o assassinato de crianças como mais uma tarefa do seu emprego e, depois, sai à noite com os amigos ou se ausenta para um café e um cigarro casual.
Com NAZA, ficamos a saber, sem margem para dúvidas, que o governo israelita e as IDF lançaram ataques com centenas de «danos colaterais», dos quais estavam perfeitamente conscientes, para tentar matar apenas uma pessoa sobre a qual, frequentemente, não havia sequer certezas quanto à sua ligação ao Hamas. Ao mesmo tempo, o documentário é implacável e irrefutável ao provar que o governo israelita escolheu deliberadamente assassinar, a sangue frio, pessoas que esperavam, esfomeadas e desesperadas, em filas por comida, apenas porque se afastavam de uma determinada linha de demarcação. Os snipers disparavam contra palestinianos e, pelo que ouvimos no filme, nenhum deles se arrepende. Ao mesmo tempo, NAZA revela a intenção premeditada de limpar etnicamente uma parte do território, forçando o deslocamento de milhares de pessoas pela fome, pela desidratação e pela destruição das suas casas e pertences. À medida que as entrevistas iam passando pelo grande ecrã, fervilhavam dentro de mim a raiva e a impotência. Imaginei aquelas entrevistas a serem projetadas em Haia, levando à única conclusão possível: a de que Netanyahu e todos os seus comparsas não passam de miseráveis criminosos de guerra, perpetradores de crimes contra a humanidade que deixarão uma mancha indelével na consciência e moral coletiva da nossa geração.
Além de compreendermos melhor os mecanismos desumanizantes e as justificações criadas pelo governo israelita para assassinar milhares de inocentes, deparamo-nos também, ao longo do filme, com as justificações pessoais e as histórias do que sentiram aqueles que levaram a cabo o genocídio. Ouvimos, num espanto horrível, um homem até descrever o quão «divertido» era bombardear prédios em equipa e sentir a missão cumprida. Não obstante a monstruosidade deste comentário, o que me interessou e perturbou mais profundamente foram aqueles que, não sendo – aparentemente – psicopatas desprovidos de consciência moral e étnica, se justificaram alegando que faziam apenas uma pequena parte do processo, que qualquer outra pessoa poderia cumprir aquela função específica e que, no fim das contas, não eram exatamente eles que puxavam o gatilho e que terminavam com a vida de inocentes.
Recentemente, li um livro chamado Nós, os filhos de Eichmann, escrito por Günther Anders, filósofo alemão de origem judaica, em 1988. O livro, publicado em Portugal pela Antígona, reúne duas longas cartas. Uma delas é escrita no rescaldo do julgamento de Adolf Eichmann e a outra é escrita mais tarde, já nos anos 1980, temendo a possibilidade e plausibilidade da repetição de um genocídio em grande escala. Tudo no filme se entrelaçou imediatamente com o que li neste livro. Cheguei a casa, depois de ver NAZA, e corri para a estante para reler algumas passagens.
Anders explica que a alienação e a divisão do trabalho – fazemos parte apenas de uma ínfima parcela da produção de um dado objeto – provocaram um fosso entre a nossa faculdade de produzir e de representar. Somos empregados para levar a cabo uma das inúmeras tarefas isoladas que compõem os processos produtivos e, de tal forma, não só perdemos o interesse pelo mecanismo, como também somos privados da faculdade de formar uma imagem do todo. Citando diretamente o filósofo: «O agravamento da atual divisão do trabalho não significa mais do que, como entes que trabalham e agem, estarmos condenados a concentrar-nos em partes insignificantes do processo total, a estarmos enclausurados nas fases de trabalho que nos foram designadas, como os prisioneiros nas celas do seu cárcere».
Se esta é a realidade cada vez mais gritante e aberrante do mundo do trabalho, já descrita por Marx há muito, aliás, é igualmente uma afirmação verdadeira no que toca à cadeia de produção do monstruoso. Com base nesta regra de que participamos apenas numa ínfima parte de um processo crescentemente atomizado e pretensamente remoto de criação do monstruoso, escusamo-nos da responsabilidade pelo produto final: o genocídio e o extermínio. Anders aplica esta lógica às datilógrafas ou aos funcionários de gabinete que, participando na pequena parte do Holocausto que consistia em organizar alguma informação ou torná-la legível, se foram absolvendo da responsabilidade pela concretização final do massacre. Neste sentido, somos incentivados a focar-nos apenas na pequena atividade a que nos dedicamos e, por isso, impedidos de perceber e de montar resistência ao enorme monstruoso. Vivemos sob a tirania das máquinas – tanto literal quanto ideologicamente – que procuram acumulação, proveito e eficiência máxima. Se isso já era verdade em 1964, quando Günther Anders escreveu sobre o Holocausto, torna-se ainda mais evidente agora com o recurso a um mecanismo assassino de IA como o Lavender. O autor expressa, inclusive, o medo de um mundo transformado em máquina, regido pela tirania do rendimento máximo e pela fome de acumulação.
A «obstrução do interesse», como lhe chama Anders, pela nossa parte do processo de produção gera uma «cadeia de obstruções» que impede ou dificulta a resistência ao monstruoso. Tudo isto se evidencia gritantemente em NAZA. «Se não fosse eu, seria outro qualquer»; «São as nossas ordens»; «Eu só fiz uma parte» – frases justificativas que continuam a assombrar a humanidade, precisamente porque não se findaram em Nuremberga. Neste sentido, o autor traça um paralelismo premente entre as peças de uma máquina e as justificações dos funcionários que desempenharam funções que culminaram num genocídio: viam-se a si próprios apenas como peças de uma máquina e confundiam o bom funcionamento daquela com uma justificação para os seus atos.
Este filme e, de forma mais abrangente, o genocídio em Gaza têm posto a olho nu a mais brutal hipocrisia do mundo ocidental, daqueles que repetiam com vozes comovidas, depois de 1945, «nunca mais». Não nos faltam imagens e vídeos a provar o genocídio: temo-las nos nossos telefones, televisões e jornais. Não há nenhuma forma de dizer que não se viu, que não se ouviu ou que não se sabia. Ninguém pode alegar, como em 1945, que desconhecia o que realmente se passava por detrás do arame farpado. Todos nós vimos crianças mortas, pessoas a arder, cidades arrasadas, inocentes mortos quando corriam atrás de comida. Vimos até os assassinos israelitas a celebrar. Já morreram mais de 70 mil pessoas na Palestina, muitas delas crianças. É-nos difícil imaginar esta quantidade de mortos. Como podemos imaginar 70 mil cadáveres? Como podemos imaginar 22 mil cadáveres de crianças? O nosso sentir falha, como explica Günther Anders, a propósito dos seis milhões do Holocausto. Tornamo-nos «analfabetos emocionais» para quem as mortes permanecem como números, impossibilitando que nos possamos compadecer de cada uma das pessoas assassinadas. A tragédia da Palestina é tão gigantesca e imparável que não conseguimos mais arranjar as ferramentas emocionais para lidar com ela. Somos empurrados para ciclos noticiosos acelerados e vertiginosos que rapidamente esquecem uma tragédia para a substituírem com um escândalo e, de seguida, com um jogo de futebol. Não temos tempo nem capacidade para lidar emocionalmente com a convivência diária do mostruoso.
Falei de imagens. Das visões infernais da Faixa de Gaza às quais temos acesso diário. Imediatamente, penso em Images Malgré Tout de Georges Didi-Huberman. Neste livro de 2003, o filósofo francês, a partir de um estudo das quatro fotografias tiradas clandestinamente pelos Sonderkommando judeus em Auschwitz, no ano de 1944, rejeita a ideia do «inimaginável» (ou «indizível»). Huberman mostra que a afirmação que uma dada tragédia é «inimaginável» a uma forma de preguiça intelectual e, acrescentaria eu, de apatia emocional. Aqueles homens, em 1944, levaram a cabo um elaborado plano para conseguirem tirar as únicas fotografias de que dispomos do inferno das câmaras de gás e da cremação subsequente dos cadáveres dos assassinados. Estas fotografias, «arrancadas do inferno», obrigam o mundo a confrontar-se com o genocídio, impedindo que se possam simplesmente desembaraçar do problema alegando que tudo está para lá da sua imaginação.
Ora, na Palestina, milhares morreram e morrem para conseguirem fazer chegar imagens do horror a todo o mundo. Israel visou especificamente jornalistas e jornais nos seus bombardeamentos assassinos. Procurou destruir todas as formas de acesso à internet e à comunicação com o exterior para que as provas visuais cabais do genocídio desaparecessem. Mas, de facto, elas não desapareceram: nós vimo-las. E, graças a NAZA, ouvimos as vozes dos responsáveis a, orgulhosamente, incriminar-se.
O impacto do filme mede-se também pela reação de Netanyahu e do seu séquito. O primeiro-ministro israelita pediu à procuradora-geral, ao chefe do Estado-Maior e ao diretor do seu serviço de segurança interna que identifiquem os militares entrevistados e promovam processos por alegadas violações de segurança da informação, difamação criminal e danos aos interesses diplomáticos e de segurança de Israel. Concomitantemente, as autoridades israelitas têm promovido online «NAZA: The Real Story», uma produção israelita que contesta as informações do filme original e que foi apresentado num site de forma a levar quem pesquise o filme online a encontrar a versão israelita falsa. Em fúria, o criminoso de guerra que lidera Israel quer até tirar a cidadania aos realizadores do filme.
Os SS repetiam para os presos dos campos de concentração que, mesmo que sobrevivessem, ninguém ia acreditar nas histórias deles. Por isso mesmo, foram tão importantes as quatro fotografias dos Sonderkommando. Tiradas de dentro de uma câmara de gás por alguém que cumpria o mais horrível trabalho de exterminar o seu próprio povo, estas imagens são mais do que coisas, como sugere Jean-Paul Sartre, mas atos. De resistência, de testemunha, de esperança num futuro em que elas fossem vistas e servissem de prova. Todos os genocidas têm medo da imagem e do testemunho. Todos têm medo das câmaras que documentam os seus crimes. Todos querem eliminar quem cria provas irrefutáveis dos infernos que criam. Por isso, vejam NAZA. Vejam-no, nem que seja, como forma de enfurecer um genocida por condenar.
Bibliografia:
Abraham, Yuval, e Rachel Szor, dirs. NAZA. 2026. Documentário.
Anders, Günther. Nós, filhos de Eichmann: carta aberta a Klaus Eichmann. Tradução e prefácio de Tiago Mesquita Carvalho. Lisboa: Antígona, 2025.
Didi-Huberman, Georges. Images malgré tout. Paris: Les Éditions de Minuit, 2003.
Sartre, Jean-Paul. L’Imaginaire: Psychologie phénoménologique de l’imagination. Paris: Gallimard, 1940.



