[U-HAUL LESBIANS]

14.6.2026
Fotografia da autora

Passar um fim-de-semana inteiro juntas ao segundo encontro. Saber todos os traumas familiares ao fim de um copo de vinho. Conhecer todas as «ex» e ficar próxima de uma delas. Adotar um gato. Soa familiar?

A «lésbica U-Haul» é um dos estereótipos queer que circula simultaneamente como insulto e forma de auto-reconhecimento. A piada é conhecida: «o que leva uma lésbica para o segundo encontro? Uma carrinha de mudanças». A punchline depende da velocidade - da velocidade da intimidade, da fusão emocional, da domesticidade. Mulheres que mal se conhecem passam subitamente a dividir uma renda, escovas de dentes, histórias de traumas, grupos de amigos e animais de estimação.

O estereótipo, sob a forma de piada, é frequentemente usado como prova de um excesso emocional inerente às lésbicas, que seriam, de forma característica, demasiado intensas, dependentes e ingénuas no transformar do desejo em permanência. Mas a persistência da piada até hoje sugere que esta toca em qualquer coisa do real, indefinida e não necessariamente patológica. Foi isso que me interessou. Ao contrário de muitos clichés queer que hoje parecem datados ou ofensivos, a «lésbica u-haul» permanece estranhamente viva, em parte porque continua a ser reutilizada pelas próprias como forma de se descreverem.

O arquétipo romântico impulsivo, sob a forma de «u-haul», sempre me causou repulsa. Ridicularizava-o, alertava amigas para a catástrofe anunciada que inevitavelmente carregava consigo. Tive parceiras que me convidaram para um espaço de convivência acelerado em que me perdi durante meses, e em que uma incompreensão profunda do outro se instalou e alicerçou o fim dessas relações. Como é típico dos locais incompreendidos, estes não nos saem da cabeça, alimentando espirais de pensamento que circulam até chegar a uma resposta.

Aqui está ela: o que levo na minha carrinha de mudanças é a precariedade económica, a solidão queer, a intimidade pixelizada e a fantasia de ser vista na totalidade.

Frame de The L Word (Showtime, 2004)

O meme

«U-Haul» é o nome de uma empresa norte-americana de mudanças fundada em 1945. Já a origem da piada é atribuída à humorista Lea DeLaria, que afirma tê-la escrito em 1989. A ideia por trás do termo é simples: os casais lésbicos teriam uma tendência desproporcional para irem viver juntas muito cedo nas relações.

Ao contrário da maioria dos memes da internet, este sobreviveu durante décadas. Continua a circular em dating apps, TikTok, Reddit ou conversas entre amigas, sendo frequentemente mobilizado pelas próprias lésbicas para descrever o seu “estilo” relacional. A piada continua a funcionar porque reconhece um ritmo afetivo familiar dentro de muitas relações queer, enquanto expõe o absurdo desse ritmo quando observado de fora. Ao contrário de estereótipos inteiramente impostos do exterior da comunidade, este sobrevive porque foi continuamente reciclado internamente - não apenas como elemento de troça, mas como maneira de narrar experiências de intimidade partilhadas.

Mas este tropo aproxima-se também de ideias misóginas de longa data, mais antigas e com maior tendência a sobreviverem. A intimidade feminina foi durante muito tempo tratada como excessiva, pouco séria ou inerentemente fusional, e as relações lésbicas continuam a ser frequentemente lidas através dessa lente. O tropo da lésbica «u-haul» não emerge num vazio cultural, inscreve-se numa longa tradição de suspeita perante a proximidade emocional entre mulheres.

A cultura ocidental construiu historicamente a feminilidade como excesso afetivo. Às mulheres foi repetidamente atribuída uma suposta incapacidade de manter distância, racionalidade ou autonomia emocional - como se a proximidade feminina conduzisse inevitavelmente à dissolução do self. Simone de Beauvoir já descrevia a forma como as mulheres eram socializadas para existir sobretudo através da relação1, com múltiplas autoras posteriores a problematizar o medo cultural persistente da fusão feminina.

Mesmo dentro da psicanálise e da sexologia, as relações lésbicas foram descritas como simbióticas, narcísicas ou emocionalmente indiferenciadas. A intimidade entre mulheres aparecia menos como forma legítima de vínculo e mais como falha de separação. A própria ideia de duas mulheres escolherem, de livre e espontânea vontade, centrar emocionalmente a vida uma na outra era muitas vezes vislumbrada com suspeição. Adrienne Rich, ao escrever sobre o «continuum lésbico«, argumentava que as formas de intimidade, cuidado, identificação e solidariedade entre mulheres sempre excederam os limites pelos quais a cultura heterossexual tenta definir o desejo2. O problema, na representação da memeficação cultural da lésbica, talvez não seja a intensidade da intimidade entre mulheres, mas a dificuldade histórica da cultura dominante em reconhecê-la fora das categorias de dependência, excesso ou fusão.

A figura da lésbica «u-haul» oscila assim entre a auto-ironia afetuosa e a desvalorização subtil. Funciona, concomitantemente, como reconhecimento interno e como suspeita externa. Talvez seja por isso que esta figura provoca simultaneamente fascínio e desconforto; torna visível uma intimidade feminina que a cultura, essencialmente patriarcal, insiste em representar como excessiva.

Não obstante, a infraestrutura do meme esconde uma questão mais séria: porque é que algumas pessoas se direcionam para a intimidade relacional a esta velocidade e o que esperam encontrar lá?

Publicado no Reddit por u/OneByOnePlease, r/funny (2022)

Temporalidade e economia queer

A figura da lésbica «u-haul» é também uma figura temporal. A piada não fala apenas de intimidade, discorre também sobre velocidade. A perceção de aceleração nasce precisamente da sensação de que certas relações lésbicas parecem saltar etapas consideradas obrigatórias, como se ignorassem ativamente uma disciplina através da qual a relação romântica é organizada.

A temporalidade dominante do romance continua intimamente ligada a modelos heteronormativos de progressão: 1) conhecer alguém; 2) exclusividade; 3) namorar; 4) conhecer a família; 5) viver juntos; 6) casar; e 7) ter filhos. Estas etapas são culturalmente apresentadas enquanto sinais de maturidade emocional e estabilidade. Avançar «demasiado depressa» surge como sintoma de impulsividade, carência ou desregulação afetiva. Mas os relacionamentos queer têm existido fora destas linhas de tempo. Sem terem acesso pleno aos mesmos guiões institucionais, muitas pessoas queer aprenderam a improvisar o que seria a intimidade, mais do que seguir uma sequência socialmente aprovada.

Esta vivência relacional pode criar um sentimento de aceleração que não é necessariamente irracional. A transparência e difusão emocional ocorre de forma incomumente precoce em relações queer, visto que a própria queerness exige essa divulgação pessoal. Conversas sobre identidade, rejeição familiar, saúde mental, trauma, género, segurança ou relacionamentos passados ​​surgem rapidamente porque são difíceis de separar emocional ou conceptualmente da vida quotidiana. Duas pessoas podem saber coisas profundamente íntimas uma da outra poucos dias depois de se conhecerem, não porque sejam imprudentes ou impulsivas, mas porque a intimidade queer muitas vezes começa a partir de um ponto de reconhecimento mútuo. Há menos espaço e, acima de tudo, menos perceção de existência de um tempo para performar uma distância emocional que o namoro convencional recompensa como socialmente preferível.

Historicamente, a intimidade queer desenvolveu-se em condições de clandestinidade, precariedade e instabilidade social. A domesticidade carregou um peso emocional diferente da domesticidade heterossexual. Especialmente, antes de maior reconhecimento legal e social, coabitar não era apenas o «próximo passo» romântico: era, frequentemente, o único lugar onde a relação poderia existir plenamente. Com efeito, partilhar uma casa tornava-se, em si, basilar para a relação. Adicionalmente, partilhar uma casa era a única forma de sobreviver economicamente, construindo as bases mínimas para a estabilidade material. Para muitas pessoas queer - expulsas de casa, afastadas da família biológica ou excluídas de formas tradicionais de suporte social, por não serem reconhecidas estatalmente como válidas - ter um teto corresponderia obrigatoriamente a mergulhar na construção de relações e intimidade em temporalidades paralelas.

É impossível separar completamente a velocidade da intimidade queer da sua história material. Apesar de ter existido uma progressão marcada na forma como algumas pessoas queer são aceites socialmente, a história continua a moldar as suas relações. A temporalidade, nomeadamente a conceção de futuro, sempre foi vivido como algo frágil, contingente ou interrompível, o que produz uma relação diferente com o tempo - uma tendência para intensificar o presente, acelerar a proximidade e construir rapidamente formas e locais de pertença.

Jack Halberstam, ao escrever sobre tempo queer, descreve formas de existência que escapam às temporalidades normativas da vivência heterossexual, organizadas em torno da reprodução, da família nuclear e da estabilidade institucional3. O tempo queer surge precisamente onde estas sequências falham ou deixam de estruturar a vida afetiva. Não está em causa apenas a sexualidade, mas ritmos diferentes de relação, pertença, desejo e construção do futuro.

Heather Love escreve sobre como a experiência queer permanece marcada por sentimentos de perda, atraso e vulnerabilidade histórica4. Por outro lado, José Esteban Muñoz descreve o queer como uma orientação para futuros ainda não realizados – o desejo por mundos alternativos no interior do presente5. Entre estas duas perspetivas emerge uma tensão importante: a intimidade queer oscila frequentemente entre precariedade e utopia.

Por outro lado, a estrutura da vida social queer também intensifica a intimidade. Em muitos meios, especialmente em localidades mais pequenas, as comunidades queer existem de forma densa e sobreposta. Círculos sociais, amigos, bares, espaços políticos, grupos no WhatsApp e até terapeutas são, raramente, independentes entre pessoas. Uma pessoa que se conhece pela primeira vez provavelmente já conhece um parceiro anterior, um amigo próximo ou alguém que se conheceu recentemente e com quem já não se relaciona. Esta realidade cria uma compressão estranha da distância social. Os relacionamentos podem parecer imediatamente incorporados numa rede emocional mais ampla, ocupando uma proeminência na dinâmica a dois que se cria nesse encontro.  

Desde que li McKenzie Wark que não penso noutra coisa. A autora aproxima-se desta ideia ao descrever formas de intimidade queer marcadas por permeabilidade constante, sobreposição afetiva e dissolução de fronteiras entre amizade, sexo, cuidado e sobrevivência. Nas suas obras, as relações queer aparecem frequentemente como tentativas utópicas e exaustivas de escapar à distância emocional imposta pela vida contemporânea6. A aceleração afetiva da lésbica «u-haul» pode então ser entendida não apenas como impulsividade romântica, mas como desejo de transformar reconhecimento imediato em permanência - de converter legibilidade emocional em abrigo. A domesticidade queer nunca foi apenas privada: é económica, política e infraestrutural.

McKenzie Wark, Raving, Duke University Press.

 

A dimensão material do fenómeno «u-haul» é frequentemente ignorada e secundarizada por explicações do domínio psicológico puro. A vida contemporânea é economicamente precária, sobretudo nos grandes centros urbanos onde as comunidades queer tendem a concentrar-se. As rendas são incomportáveis, o trabalho estável configura-se como uma raridade e viver sozinho passou a ser percecionado como luxo. A intimidade existe agora entrelaçada com a infraestrutura. Sob o capitalismo contemporâneo, a relação amorosa tornou-se uma das poucas instituições ainda capazes de oferecer alguma sensação de continuidade material.

Lauren Berlant descreve esta condição através da ideia de slow death e da erosão progressiva das formas de estabilidade necessárias para sustentar a vida quotidiana. O capitalismo tardio produz sujeitos permanentemente exaustos, precarizados e sobrecarregados, enquanto desloca para a esfera íntima responsabilidades anteriormente distribuídas de forma mais coletiva7,8. Enseja-se, agora, que as relações forneçam simultaneamente habitação, cuidado, segurança emocional, reconhecimento identitário e proteção contra o isolamento.

Capitalismo afetivo e a fantasia de ser visto

A intimidade contemporânea é cada vez mais moldada pela linguagem da psicologia popular. Conceitos como «estilos de vinculação», «disponibilidade emocional», trauma, limites ou «love bombing» circulam muito para lá dos consultórios, organizando a forma como interpretamos «desejo» e «relações». As comunidades queer, mormente online, absorveram este vocabulário de forma intensa. A auto-revelação emocional tornou-se não apenas aceitável, mas uma base expectável. Conhecer alguém rapidamente é hoje interpretado, em círculos queer, como sinal de autenticidade e disponibilidade emocional, mais do que como excesso ou aceleração. Eva Illouz descreve precisamente este fenómeno como uma progressiva psicologização da vida íntima, em que o sujeito contemporâneo é levado a interpretar relações através de categorias terapêuticas, emocionais e autorreflexivas9.

Ainda nesta esteira, a cultura digital cria uma contradição particular. As dating apps expõem conjuntamente a visibilidade e a substituibilidade infinitas. A intimidade acelera, mas torna-se instável: a troca de detalhes profundamente pessoais antes de ver o outro realmente, o falar constantemente através de mensagens, o desenvolvimento de rotinas emocionais em poucos dias e, ainda assim, saber que qualquer relação pode desaparecer a qualquer momento. Cria-se um meio propício para a exaustão afetiva em que o desejo imediato desvanece progressivamente a capacidade de confiar na possibilidade real de permanência.

Este processo é predominante em comunidades queer, uma vez que as redes de suporte social são pequenas e sobrepostas. As ruturas tornam-se socialmente devastadoras, quando implicam que amizades se fraturem, que os espaços de conforto se tornem desconfortáveis e ex-parceiras continuem inevitavelmente a circular nos mesmos ambientes. Neste contexto, a lésbica «u-haul» pode ser compreendida não apenas como alguém que «anda demasiado depressa», mas como alguém que tenta escapar por completo à instabilidade da intimidade contemporânea através desta estratégia de relacionamento. A proximidade súbita, aparentemente inevitável, promete aliviar a ambiguidade. A fantasia deixa de ser meramente romântica, adquirindo tangibilidade existencial. Ir viver juntas, fundir-se, é imaginar, independentemente do quão curto seja esse período, que a incerteza teve um fim.

Parte da intensidade associada às relações lésbicas pode nascer precisamente deste desejo de abolição da incerteza, que assenta na fantasia do reconhecimento absoluto. A intimidade existe como tensão permanente entre reconhecimento e dissolução - o desejo simultâneo de ser plenamente visto pelo outro sem perder a própria autonomia10. Neste sentido, a intimidade queer carrega a promessa de legibilidade, ou seja, a fantasia de que alguém que partilha o nosso universo social, vulnerabilidades e experiências de marginalidade finalmente nos compreenderá por completo, sem necessidade de explicação ou tradução. A fusão emocional é sentida menos como dependência e mais como um regresso ao self. Ao escrever sobre holding e segurança emocional, Winnicott descrevia a necessidade humana de existir num espaço relacional suficientemente estável para permitir continuidade psíquica11.

Consequentemente, a fantasia torna-se periclitante. As mesmas condições que produzem proximidade intensa podem também produzir instabilidade, fusão e desorientação. Nenhuma relação consegue sustentar permanentemente o desejo de um reconhecimento completo. Este coloca uma pressão impossível sobre a própria intimidade, transformando-a numa tentativa de resolver solidão, alienação ou fragmentação identitária. Sob esta pressão, intensidade e verdade emocional começam facilmente a confundir-se e fundir-se.

Um dos riscos da intimidade acelerada é precisamente o colapso das fronteiras entre reconhecimento emocional e identidade individual. As relações tornam-se tão absorventes que a individualidade começa a dissolver-se. A relação transforma-se rapidamente num ecossistema fechado, em que a regulação emocional se torna partilhada, sendo interpretado como compatibilidade.

Deste modo, a compreensão imediata obscurece os processos mais lentos através dos quais compatibilidade, confiança e diferenciação realmente se constroem. A própria velocidade gera convicção emocional. O que parece profundo pode ser, em parte, intoxicação pela aceleração. Em suma, a intimidade que não seja só legível, mas verdadeira, nunca é atingida na aceleração.

O lado sombrio da piada da lésbica «u-haul» não se escora somente no «ir demasiado rápido», mas também na dificuldade contemporânea de construir e de aceitar a lentidão. Numa cultura marcada pela precariedade, hipercomunicação e exaustão afetiva, a gradualidade que a intimidade e permanência exigem começa a parecer impossível. Oscilamos entre proximidade extrema e afastamento súbito, procurando permanência enquanto tememos a dependência.

Talvez seja por isto que a figura da lésbica «u-haul» permanece culturalmente legível há décadas, ainda que tantos estereótipos queer foram-se desvanecendo. Ela persiste porque capta qualquer coisa maior do que as relações lésbicas em si mesmas. Fala de um desejo contemporâneo mais amplo. Quando a estabilidade parece progressivamente inacessível, a fantasia de construir imediatamente uma vida com outra pessoa começa a parecer não infantil, não absurda, mas necessária.

Posto isto, por favor parem de me chamar avoidant só porque não vos quero ver ou falar com vocês todos os dias depois de me terem falado de todos os vossos traumas de infância num primeiro date.

1. Beauvoir, Simone de. O Segundo Sexo – vol. 1. Lisboa: Quetzal Editores, coleção Serpente Emplumada, 2015.
2. Rich, Adrienne. «Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence.» Signs 5, n.º 4 (1980): 631-660.
3. Halberstam, Jack. In a Queer Time and Place: Transgender Bodies, Subcultural Lives. New York University Press, 2005.
4. Love, Heather. Feeling Backward: Loss and the Politics of Queer History. Harvard University Press, 2007.
5. Muñoz, José Esteban. Cruising Utopia: The Then and There of Queer Futurity. New York University Press, 2009.
6. Wark, McKenzie. Raving. Durham: Duke University Press, 2023.
7. Berlant, Lauren. Cruel Optimism. Duke University Press, 2011.
8. Berlant, Lauren. «Intimacy: A Special Issue.» Critical Inquiry 24, n.º 2 (1998): 281-288.
9. Illouz, Eva. Cold Intimacies: The Making of Emotional Capitalism. Polity Press, 2007.
10. Benjamin, Jessica. The Bonds of Love: Psychoanalysis, Feminism, and the Problem of Domination. Pantheon Books, 1988.
11. Winnicott, Donald W. Playing and Reality. Routledge, 1971.