Frequentar não-lugares, hoje, é ocasião de uma experiência sem verdadeiros precedentes históricos de individualidade solitária e de mediação não humana entre o indivíduo e a força pública.1
De mochila às costas, atravessei três fronteiras em três dias.
Parti de Cambridge no dia 28 de junho de 2026. Olhei para o relógio após fechar a porta: era meio-dia e sete minutos. Cheguei a casa, em Lisboa, no dia 1 de julho. O meu Casio marcava uma hora redonda: 21:21. Ao longo de oitenta e uma horas e catorze minutos, percorri cerca de 1200 quilómetros. Viajei pela ferrovia britânica, por águas internacionais e por autoestradas espanholas e portuguesas. Vislumbrei incontáveis lugares pelas janelas dos comboios, do navio e dos autocarros. Sentei-me em bancos de várias cidades.
A escolha de não embarcar num avião, que me «pouparia» cerca de setenta e oito horas de viagem, foi vagamente simbólica. Serviu para assinalar o fim de um ciclo em Cambridge e o regresso a Lisboa. Quis fazer esta travessia de Inglaterra a Portugal por terra e mar, evitando assim os aviões da Ryanair e o aeroporto de Stansted, onde passei tantas horas ao longo dos últimos anos.
Assim, em fevereiro, dei por mim a explorar portais de ferries, comboios e autocarros. Estudei as opções mais baratas, os caminhos mais diretos, as vias marítimas e terrestres possíveis numa Península Ibérica parca em ferrovias funcionais. Acabei por desenhar um itinerário francamente aleatório – como se tivesse sido desafiado a dizer três cidades em poucos segundos. Portsmouth. Bilbao. Bragança. Uma tríade improvável. Rumaria de comboio até Portsmouth, de navio até Bilbao, e de autocarro até Bragança, até finalmente chegar a Lisboa.
Ao longo de seis meses, romantizei esta viagem na minha cabeça. «Que aventura!», comentava toda a gente quando eu contava estes planos à mesa de jantar. Na verdade, nunca estive convencido de que era uma aventura – não ia propriamente escalar o Everest – mas acenava com solenidade, tal qual Indiana Jones prestes a visitar o templo perdido. Imaginava-me a contemplar, com serenidade, o infinito oceano; a cruzar-me com outros semelhantes, a partilhar histórias sobre a vida em alto-mar; a manter um diário da viagem, como o Eça de Queirós na sua viagem ao Egipto.
Contudo, não houve nada de particularmente romântico nestas oitenta horas. Feliz ou infelizmente, este texto não relata uma aventura aos confins da Terra ou da minha alma. O leitor será poupado a uma tentativa tosca de literatura de viagem. Mas, como antropólogo amador, não deixei de escrever detalhadamente sobre tudo o que vi ao longo do caminho – as pessoas, os espaços, os meios de transporte. O texto que se segue apresenta fragmentos destas notas etnográficas. A partir delas, faço uma reflexão sobre solidão e fronteiras.
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Os não-lugares têm a particularidade de se definirem pelas palavras ou textos que nos propõem: as suas instruções de uso, em suma.2
Comprei os bilhetes de comboio numa plataforma digital. Realizado o pagamento, recebi imediatamente um e-mail com um documento. Com ele, dirigi-me à estação de Cambridge. Pelo caminho, fiz várias escalas – o primeiro comboio levou-me até King’s Cross, em Londres, onde apanhei o metro até à estação de Victoria. Daí, rumei finalmente para Portsmouth. Ao longo desta viagem, o meu bilhete digital permitiu-me entrar e sair das estações de metro e comboio automaticamente. Nas estações, as placas na parede anunciavam-me o caminho correto. Underground →; ↑ Platform 14; ← National Rail. De forma concisa, sem rodeios, as paredes iam falando comigo. Mind the Gap.
Cheguei a Portsmouth quatro horas antes da partida do ferry. Fui dar uma volta na zona do porto, onde encontrei um centro comercial à beira-mar com vários restaurantes. Decidi ir comer um hambúrguer. Dirigi-me a uma conhecida cadeia de restaurantes e deparei-me com um monitor na entrada: Start Order. De forma automática, seguindo as instruções da máquina que eu já conhecia tão bem – são iguais em Cambridge, Londres, Manchester, Newcastle – realizei o pedido do costume. Eat in. Deram-me um número. Order #214. Passados alguns minutos, um trabalhador pousou o saco no balcão e gritou o meu número. Quando o levantei, o homem já estava a chamar o número seguinte. Two one five!
Terminado o jantar, dirigi-me ao terminal do Porto Internacional de Portsmouth. Tinham passado cerca de nove horas desde que saíra da minha casa em Cambridge. Durante todo este percurso, não comuniquei com nenhum ser humano. A minha travessia até ao sul de Inglaterra foi guiada exclusivamente por textos em paredes e ecrãs.
No terminal, segui as indicações das placas. Check-In ↑. Entreguei o meu passaporte a uma senhora e ditei o número da minha reserva. Ela indicou-me o número da minha cabine. Four Four One One. Tudo em ordem, posso seguir. Compro uma água numa máquina automática. Passport Control →. Entrego novamente o passaporte. Continuo a seguir as placas. Foot Passengers. Passo pela segurança e sou levado até ao navio. Pelo caminho, continuo a ler. No Entry. Keep Left. Authorised Vehicles Only.
Estou, finalmente, a bordo do navio. Ninguém me recebe à entrada. Temos de seguir os sinais nas paredes para encontrar as nossas cabines. Um pouco desorientado, vou seguindo as placas. Rooms 4000-4200→. Subo para o quarto andar e, entre incontáveis corredores labirínticos, deparo-me finalmente com o quarto após uma busca frenética de quinze minutos. Em frente a uma pequena cama, um ainda mais pequeno monitor indica-me o trajeto do ferry e os seus múltiplos serviços.
Tenho trinta e seis horas de viagem pela frente. Passarei pelo Canal da Mancha e pelo Golfo da Biscaia antes de chegar ao meu destino. Como referi, passei muito tempo a romantizar esta travessia marítima. Imaginei o navio enquanto espaço de troca e encontro entre desconhecidos, uma experiência instigada pela partilha de uma longa viagem em alto-mar.
Mas, neste ferry, encontrei outra coisa.
Ao longo destas trinta e seis horas, a nossa estada no navio foi exclusivamente mediada por colunas de som espalhadas pelos quartos, corredores e convés. A voz do comandante – cuja cara nunca vi – ditava regularmente as regras da casa, dava-nos informações sobre horários das refeições e demais questões organizacionais. Para encontrar o restaurante e outros espaços comuns, devíamos seguir as incontáveis placas e mapas a bordo, com setas a cada esquina. Perdi-me várias vezes naqueles corredores até finalmente interiorizar todas as pequenas instruções espalhadas pelas paredes.
Assim se passaram trinta e seis horas. Escrevi muito, li bastante, enjoei um pouco, passei muitas horas no convés a olhar para o mar. Segui as instruções como um bom aluno – para almoçar, jantar, dormir, sair do quarto, encontrar os espaços comuns, cumprir horários. Ao longo destas horas, não tive uma única interação direta com trabalhadores do navio, excetuando quando pedia algo no bar. Interações transacionais e concisas, um ato contratual. Era como se estes, com as suas fardas cinzentas, recebessem ordens para serem invisíveis a bordo, para eliminarem a sua presença dos olhos dos consumidores como eu. A integridade da viagem foi exclusivamente mediada por placas, anúncios vocais e ecrãs.
We have arrived in Bilbao, anunciou a voz omnipresente quando aportámos no País Basco. Eram oito da manhã do dia 30 de junho. Exit→.
Não tinha muito tempo até ao meu autocarro para Bragança, por isso dei uma breve volta ao pé do rio antes de apanhar um elétrico até ao terminal de autocarros. Após comprar o bilhete para o elétrico numa máquina – Comprar billete, Billete sencillo, pago com tarjeta – um casal interpelou-me. Eram ingleses, deviam ter os seus setenta anos. A senhora disse-me que tinha reparado que eu também tinha estado no navio. Fizemos conversa de circunstância. Eles falaram de Oxford, onde vivem, e eu de Cambridge. Comentámos que o mar podia estar pior. It was as gentle as we could’ve hoped for, disse o senhor. Fomos à conversa até ao terminal de autocarros e ali nos separámos.
Fiquei a pensar nesta interação muito tempo depois de ela acontecer, apesar de não ter sido dito nada de extraordinário. Afinal de contas, entre as placas, as máquinas e os altifalantes, esta tinha sido a minha primeira interação humana, se excluirmos as conversas com pessoas que me estavam a prestar um serviço comercial. Já lá iam quarenta e cinco horas desde que saíra de Cambridge.
Sentei-me no terminal de autocarros de Bilbao enquanto esperava pelo autocarro. À minha frente, um monitor com os horários. Salidas ↑. Ali aguardei. Até que começo a receber e-mails. Significant delay on your trip to Bragança. O autocarro está atrasado – muito atrasado. Ninguém mo diz: leio-o no ecrã do telemóvel. Posso seguir o percurso do veículo através de uma aplicação, observando-o a mexer-se, lentamente, na minha direção. Passo duas horas à sua espera, intercalando o meu olhar entre o telemóvel, o monitor da estação e o meu livro, que folheio distraidamente. Até que a plataforma finalmente aparece no monitor. Andén 12. Passo o bilhete no scanner e as portas abrem-se automaticamente para mim. Entro no autocarro. O condutor pede desculpas pelo atraso através de um microfone e seguimos viagem. Tenho sete horas pela frente.
Pela janela, vou observando a paisagem. ↑VITORIA-GASTEIZ. ↑BURGOS. ↑LÉON. ↑VIGO. → AEROPUERTO. ↗ ÁREA DE DESCANSO. ← DESVÍO. Anoto as mensagens das placas no meu caderno até ficar enjoado. Continuo a olhar pela janela. O caminho fala-me sobre os sítios por onde vou passando sem nunca os poder ver. É-me dada a oportunidade de saber onde estou, o que poderia visitar, mas nunca de o fazer. «O viajante de passagem está condenado a tirar prazer da simples notícia da sua proximidade», escreve Marc Augé, mas nunca experiencia o local em si. Vou-me aproximando de muitos sítios sem nunca os visitar. Estou quase a chegar ao meu destino deste dia. ↑BEM-VINDO A PORTUGAL.
Cheguei a Bragança às oito da noite de dia 30 de junho. Fiz o check-in automático no alojamento e fui procurar um sítio para jantar.
Continuava a pensar naquele casal de Oxford. Na disrupção que eles provocaram neste contínuo de ordens e instruções anónimas que fui recebendo ao longo de três dias. A conversa com eles foi a exceção à norma, à mediação feita por entidades não humanas, por ecrãs e placas. Foi um raro momento que me permitiu falar de volta, estabelecer uma relação com um outro. Escrevia Augé: «o espaço do não-lugar não cria nem identidade singular nem relação, mas solidão e semelhança.» Não voltei a falar com ninguém até ao final da minha viagem.
Partiria para Lisboa no dia seguinte.
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Talvez exista uma outra versão desta história. Até agora, estivemos a cobrir a superfície desta viagem. A ausência de mediação humana, a condição solitária do viajante, as instruções nas estações, os sinais na estrada, os monitores interativos nos restaurantes. O meu trajeto revela a brutal ação individualizadora operada pelos encontros com entidades não-humanas, desde a caixa registadora até à placa que me sinaliza o caminho. Mas, se olharmos melhor, há uma outra violência que se esconde no subterrâneo. Uma violência de dimensões incomparáveis à primeira – mas intimamente ligada a esta.
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Há muitas fronteiras impostas entre as coisas neste lugar. Temos de lhes prestar atenção e saber navegá-las, o que protege toda a gente de consequências perigosas.3
Em novembro de 2021, um pequeno barco insuflável que transportava migrantes de França para o Reino Unido naufragou no Canal da Mancha, levando à morte de vinte e sete das pessoas que seguiam a bordo.
Apesar dos numerosos pedidos de socorro, as autoridades francesas disseram-lhes – erradamente – que se encontravam em águas britânicas e que teriam de contactar as autoridades do Reino Unido para obter ajuda. Quando as embarcações de salvamento finalmente chegaram ao local, apenas duas pessoas tinham sobrevivido. O episódio marcou os noticiários de todo o mundo, gerando indignação em massa mas pouca ação por parte dos governos.
Desde 2018 a 2025, cerca de 193 mil pessoas chegaram ao Reino Unido após atravessarem o Canal da Mancha em pequenos barcos. A maioria delas era do Irão, Afeganistão, Iraque, Eritreia, Albânia e Síria. Durante estes anos, pelo menos 162 pessoas morreram no Canal da Mancha. O número sobe para 257 se incluirmos outras mortes relacionadas à migração na região.
No momento da partida do ferry, subi da minha cabine para o convés e, a partir do ponto mais alto do navio, observei a linha da costa de Inglaterra. À medida que o navio se afastava do porto, a fronteira marítima do Reino Unido desaparecia, lentamente, na linha do horizonte. Do lado oposto, à frente do navio, revelava-se o Canal da Mancha, por onde o ferry foi navegando sem sobressaltos nem inconvenientes. It was as gentle as we could’ve hoped for, como dizia o homem inglês.
Há duas histórias paralelas a ocorrer no Canal da Mancha. Por um lado, a história dos naufrágios e das viagens arriscadas em condições desumanas. Por outro lado, a história dos viajantes de passaporte da mão, de pessoas que, de forma automática e mecânica, navegam de sinal em sinal enquanto cruzam fronteiras. Passport Control →. Para uns, a passagem da fronteira comporta um risco de morte. Para outros, é um automatismo, um ato mediado por uma máquina, um apito seguido de uma mensagem no ecrã: You may proceed.
Poucos dias antes de eu embarcar, no dia 12 de junho, entrou em vigor o novo Pacto sobre Migração e Asilo da União Europeia. A Comissão Europeia anunciou que o Pacto garantirá uma «forte proteção das fronteiras externas» através de uma «diplomacia migratória assertiva». Implementado de forma transitiva desde 2024, o Pacto prevê «retornos mais rápidos» de migrantes, estabelecendo também centros de detenção em países terceiros. Em suma, trata-se de uma viragem assertiva para uma nova política anti-migratória. Desde 2024, outras medidas têm sido tomadas neste sentido – por exemplo, o novo Regulamento de Retorno para Migrantes. Este processo tem levado a inúmeras comparações com a política violenta da ICE, a agência federal de segurança interna dos EUA.
Portugal não é exceção à regra. Além da adoção do novo Pacto Migratório da UE, o Governo vai anunciando outras medidas anti-migratórias – a construção de «presídios para estrangeiros irregulares«, leis para «acelerar deportações» e, claro, a aprovação de uma nova Lei da Nacionalidade que torna mais difícil a obtenção da cidadania portuguesa. Torna-se cada vez mais difícil passar as fronteiras de Portugal.
↑BEM-VINDO A PORTUGAL. O autocarro seguia em alta velocidade em direção a Bragança – mal consegui ver a placa na autoestrada. Basta uma distração, uma mensagem, um piscar de olhos, e não damos por ela. Sou informado pelo meu operador móvel inglês de que passei a fronteira. Hey Joao, welcome to Portugal.
As fronteiras só são invisíveis – uma mera placa na estrada ou uma mensagem no telemóvel – para alguns.
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No autocarro, a caminho de Lisboa, leio uma notícia no telemóvel: no dia anterior, mais de um milhão de migrantes em Espanha tinham-se candidatado ao novo programa para a regularização do seu estatuto legal. Bloqueio o ecrã e volto a olhar pela janela. ↑ A1. Estou quase a chegar a casa. Escrevo umas últimas notas, apressadamente, no meu caderno.
Passei estes três dias a saltar entre não-lugares – como explica Marc Augé, espaços como quartos de hotel, aeroportos, estações de comboio ou supermercados nos quais as interações são quase exclusivamente mediadas por sinais, placas informativas, ecrãs; em suma, por entidades não-humanas. Espaços onde se produz a solidão humana e a alienação. Viajar entre não-lugares é carregar essa solidão e alienação entre fronteiras. De placa em placa, senti isso na pele.
Na superfície, está esta alienação. Nas profundezas, para lá do meu olhar, encontra-se a violência. Parece-me evidente que a produção da solidão nos não-lugares é inseparável da violência que o subjaz. Ou, pelo menos, deveria sê-lo. Não haverá algo de particularmente pernicioso na convivência destas duas histórias nos mesmos mares, nas mesmas cidades, nas mesmas fronteiras? Da simultânea invisibilidade e brutalidade da fronteira?
Ao longo de três dias, fui passando fronteiras como se estas fossem invisíveis – meras máquinas no aeroporto, placas na autoestrada, avisos no telemóvel. A produção desta invisibilidade não é um acaso, mas sim uma operação deliberada por parte dos governos dos países por onde fui passando. Os governos do Reino Unido, Espanha e Portugal têm, nas suas mãos, a possibilidade de invisibilizar fronteiras, de as fazer dissipar nos automatismos.
Invisíveis para uns, intransponíveis para outros. Passar fronteiras nunca é um ato neutro. É nesta dualidade que está o centro da disputa política do nosso presente.
1. Marc Augé, Não-Lugares: Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade (Letra Livre, 2022), p. 100.
2. Marc Augé, Não-Lugares: Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade (Letra Livre, 2022), p. 83.
3. Adania Shibli, Minor Detail (Fitzcarraldo Editions, 2020).



