[A ILHA DO MARTINHAL]

26.8.2026
Ilha do Martinhal

I.

Toda a gente em Sagres sabia que a Ilha do Martinhal pertencia ao senhor Baleeira.

Quando um visitante chegava à vila, avisavam-no imediatamente: aquela é a ilha do senhor Baleeira. E ele ficava a saber.

O senhor Baleeira era o homem mais rico de Sagres. As crianças, que ignoram as terras que não conseguem ver, diziam que ele era o homem mais rico do planeta. Guiava um carro topo de gama e fumava charutos na varanda de sua casa.

A ilha era do senhor Baleeira, mas o senhor Baleeira nunca a visitava. Era tudo o que se sabia sobre ele, pois era um homem muito misterioso. Pouco dado a amigos, só falava com uma pessoa: o senhor Farol. 

Mas o senhor Farol, também ele um homem de segredos que passava as noites a caminhar pela praia, não contava nada a ninguém.

As crianças, que observam o óbvio e dizem o fundamental, perguntavam: mas porque é que o senhor Baleeira não visita a sua ilha? E os pais respondiam: porque é muito perigoso navegar até lá.

Todos em Sagres sabiam que a Ilha do Martinhal pertencia ao senhor Baleeira. E toda a gente naquela vila piscatória, onde se aprendia a navegar antes de se saber nadar, sabia que não podia visitar a ilha. Porque era perigoso mas, principalmente, porque pertencia apenas e só ao senhor Baleeira.

Ninguém a visitava, mas toda a gente a via: ali, diante da praia do Martinhal, aquela larga ilha rochosa e coberta de vegetação. Sozinha, no meio do oceano, como se deus tivesse construído ali aquele pedaço de rocha e se tivesse esquecido de a ligar à terra.

Constava, na vila, que ali vivia um monstro enorme, que se alimentava das gaivotas que pousavam na rocha. Dizia-se, também, que o senhor Baleeira enviava para ali os seus maiores inimigos. E que os americanos tinham ali uma base secreta para combater os russos. Ou que os russos tinham ali uma base secreta para combater os americanos.

Durante as férias de verão, do nascer ao pôr do sol, os mais velhos sentavam-se com os mais novos na praia do Martinhal e passavam horas a fio a contar-lhes estas histórias. No final, avisavam sempre: ninguém pode visitar a ilha do senhor Baleeira. E toda a gente ficava a saber, não se fossem esquecer.

Um dia, chegou a Sagres um grupo de adolescentes. Sentaram-se na praia e perguntaram a um homem: de quem é aquela ilha? E ele respondeu: é a ilha do senhor Baleeira. E acrescentou: ninguém pode visitá-la. E depois contou as histórias da ilha, desde o monstro que a habitava até à prisão de onde nunca ninguém saíra.

Eram quatro, os adolescentes: o Castelejo, a Salema, a Cordoama e o Amado. Ouviram as histórias todas em silêncio, trocando uns olhares matreiros. Quando os outros regressaram a casa, exclamaram em uníssono: vamos visitar a ilha.

E começaram a planear.

O Amado roubou uma canoa da praia, o Castelejo arranjou mantimentos, a Salema ficou de vigia e a Cordoama estudou o itinerário: era sempre em frente. Partiram quando a lua estava no meio do céu e as crianças e os seus pais dormiam nas suas casas.

Poucos minutos depois de zarparem, Salema avistou um vulto a caminhar na praia. Mas não disse nada.

 

II.

Na manhã seguinte, Sagres acordou em alvoroço: um corpo tinha dado à costa.

A escola fechou nesse dia porque a professora não quis perder o acontecimento. E atrás delas foram todos os alunos da escola. Comentava-se na vila que nunca tanta gente tinha ido até à praia do Martinhal. Toda a gente observava com atenção: os adultos de perto e as crianças de longe. Era um jovem, devia ter os seus dezasseis anos. Porém, ali, ninguém o conhecia: de onde tinha vindo?

O padre tinha sido chamado para abençoar o corpo antes do seu transporte até ao cemitério. Só que, de repente, o rapaz abriu os olhos. O padre foi desconvocado e chamou-se o chefe da polícia, que perguntou: quem é você? E o rapaz não respondeu.

Até que um homem exclamou: eu sei quem ele é. Estava aqui na praia com três amigos. O seu nome é Amado, penso eu.

O polícia escreveu tudo no seu pequeno bloco de notas. Perguntou a Amado: como vieste aqui parar? Mas ele não falava. Ele é mudo?, perguntou ao homem, e ele respondeu: ontem falava com os seus amigos.

Passaram-se três dias e Amado continuava sem falar.

Passaram-se três semanas.

E três anos.

E o Amado continuava em silêncio.

Amado foi enterrado no cemitério de Sagres quinze anos depois, aos trinta e um anos, sem nunca mais ter aberto a boca. O padre da vila pôde, finalmente, dar-lhe a extrema-unção. Morreu em silêncio, como toda a gente.

 

III.

Quando Amado morreu, nada tinha na sua pequena casa à beira-mar, pertencente a um pescador desaparecido no mar. Nada tinha exceto uma pequena caixa de sapatos.

Dentro da caixa, o chefe da polícia descobriu vários desenhos. Mostrou-os ao seu assistente e ele disse: parece ser a ilha do senhor Baleeira. E o chefe anuiu. Mas algo está diferente aqui, acrescentou o assistente. E o chefe anuiu outra vez.

Após um momento de silêncio, chegaram à mesma conclusão. Apesar das horas, já era uma hora da manhã, chamaram imediatamente o senhor Farol. Ele saberia o que fazer.

Quando o senhor Farol chegou, mostraram-lhe os desenhos, sem nada dizer. Ao que ele respondeu, após uma breve análise: era um louco. Levou a caixa consigo e foi passear para a praia do Martinhal, onde deitou todos os desenhos ao mar.

No dia seguinte, começaram a correr rumores na vila. Algo inédito acontecera: o senhor Baleeira tinha visitado a sua ilha de manhã, antes de todos acordarem. Dizia-o um pescador que jurava a pés juntos ter visto o sucedido.

Sentado na sua varanda, o senhor Baleeira fumava mais charutos que o habitual, um a seguir ao outro, caminhando de uma ponta à outra do retângulo ao longo da tarde. Os vizinhos comentavam: algo o deixava inquieto.

O que ninguém sabia era que, entretanto, o chefe da polícia tinha passado a noite acordado. Tinha assistido, escondido no meio dos arbustos, ao delito do senhor Farol. E sabia o que tinha de fazer. Mas não disse nada a ninguém. 

Deitou os filhos, ceou com a mulher, e disse-lhe: tenho de ir trabalhar.

E foi até à ilha.

 

IV.

O chefe da polícia remou durante horas a fio.

Quando ali chegou, o sol começava a nascer no horizonte. Com a luz, pôde ver, finalmente. 

Ao princípio, não acreditou nos seus próprios olhos. 

Os desenhos estavam certos, sussurrou, como se tivesse medo de que o mar o ouvisse. Atirou água para a cara, para ter a certeza que não estava a sonhar. E não estava mesmo. E continuou a sussurrar. Isto não é uma ilha: são três.

Não é nada comum: uma ilha desdobrar-se em várias. A distância engana o olho e, naquela vila, todos cresceram enganados pelo olhar. A grande ilha do Martinhal era, afinal, composta por várias.

Se esta não era uma ilha mas sim três, isso significava que o senhor Baleeira não era dono de uma ilha, mas de várias. Ou, pelo contrário: que não era dono de nenhuma.

É um caso difícil de resolver: o que se faz quando uma ilha se transforma em três? O que diz a lei sobre uma coisa que se transforma em várias?

Enquanto chefe da polícia, tinha de resolver este dilema. Retirando o seu bloco de notas, que já estava molhado da viagem, decidiu ir visitar e revistar cada uma das ilhas. Abriria um processo assim que regressasse a casa, pensou.

E pôs-se a remar, novamente.

Quando aportou na primeira ilha, deparou-se com uma mulher rodeada por gaivotas. E perguntou-lhe: quem é você, e o que faz na ilha do senhor Baleeira? E ela respondeu: chamo-me Salema, e esta é a minha ilha. E o chefe inquiriu: mas é sua como? E Salema disse: não pertencia a ninguém.

Surpreendido com as respostas da mulher, o homem seguiu para a segunda ilha. Quando ali atracou, encontrou um homem sentado no alto de um rochedo. E gritou: quem é você e o que faz aqui? E ele respondeu: sou o Castelejo e esta é a minha ilha. E o chefe da polícia, sem palavras, zarpou para a terceira ilha.

E quando desembarcou na terceira ilha, o homem encontrou uma mulher sentada no areal, a contemplar o mar. Resignado, limitou-se a perguntar: vai-me dizer que esta é a sua ilha? E ela respondeu, sem olhar para ele: não – é minha e do Amado, que deve estar a chegar a qualquer momento.