Os últimos dias estiveram repletos de questões e de temas complicados. Muitos termos interessantes foram usados para descrever a situação em Ceuta: invasão, crise migratória, incursão, arma geopolítica. Ceuta tornou-se, desde a semana passada, um microcosmo de tudo o que está errado na Fortaleza Europa e um espelho da irracionalidade xenófoba que é o novo normal no Norte Global. Nem a crise antecedente de 2021, em que migrantes na fronteira com a colónia de Melilla foram massacrados por Rabat com o beneplácito de Madrid, inspirou tamanho pânico.
Foram dias em que as lágrimas xenófobas de colonos espanhóis, em pânico ao verem o seu cantinho caucasiano no Norte de África inundado de norte-africanos, valeram mais do que as cem vidas ceifadas neste desastre humanitário. As principais e verdadeiras vítimas desta situação foram os jovens marroquinos enganados e instrumentalizados pelo seu governo pró-sionista e trumpista, que ocupa ilegalmente a antiga colónia espanhola do Sara Ocidental, e não os pieds-noirs espanhóis que olham para Ceuta e Melilla como o último exemplo de uma colónia ao estilo da Argélia francesa dos anos 50.
Considero necessário olhar para o caso de Ceuta sob dois prismas. O primeiro é o da circunstância imediata: como isto resulta tanto da vergonha xenófoba e estúpida das políticas migratórias decididas nos templos tecnocráticos europeus como de Marrocos se aproveitar dessas mesmas políticas para pressionar Pedro Sánchez na questão do reconhecimento da ocupação ilegal do Sara Ocidental. O segundo prisma consiste em olhar para o contexto histórico e moral de longo prazo, em particular para os simbolismos de que isto aconteça na mais antiga colónia europeia. Muita da esquerda e do centro-esquerda focou-se apenas no imediato, no interesse dos EUA, de Marrocos e de Israel em criar uma crise no enclave para enfraquecer um governo que se apresenta contrário aos seus principais objetivos imperialistas, sem olhar para a natureza histórica e moral em que se enquadram Ceuta e Melilla.
Comecemos, então, pelo prisma da situação imediata. A União Europeia impõe um modelo económico baseado na precarização, na destruição de empregos de elevado valor acrescentado e na importação e exploração de mão de obra migrante barata, em migrações potenciadas pela política externa neocolonial e de rapinagem do Norte Global. A mesma Europa que cria uma economia assente em trabalhadores estrangeiros, com míseros direitos e condições, aperta cada vez mais as leis migratórias para tornar a vida dessas pessoas um autêntico calvário.
A política da Europa Fortaleza, que incentiva o enquadramento dos países do Sul da Europa e dos regimes da sua periferia como cães de guarda contra a «imigração ilegal», tem assistido a um agravamento que, por sua vez, incentiva ainda mais que estas trágicas situações aconteçam. Ao contrário do que se apregoa, não existe um problema com a imigração ilegal, mas sim um aumento da sua ilegalização. Portugal tem sido um dos melhores exemplos. Outrora um país que exagerava propagandisticamente ser um país que gostava de receber e integrar imigrantes, hoje mostra o seu espírito de bom aluno europeu através da hiperbolização da xenofobia na sua política de imigração, tanto na propaganda como na prática. «Felizmente», ao contrário de Espanha, Itália ou Grécia, Portugal não tem fronteiras terrestres ou marítimas com as rotas de refugiados ou de imigração do Sul Global, porque, caso contrário, ainda veríamos Leitão Amaro a espumar da boca com o seu racismo entusiasticamente repugnante. Seria ainda mais combustível para o racismo político e estrutural num país que conseguiu, apesar de ter uma das menores populações migrantes da Europa Ocidental, entregar a liderança da oposição aos neofascistas devido a pânicos morais e mediáticos provocados por lojas de pechisbeque sul-asiáticas.
Há um elemento de pânico moral na situação em Ceuta, e quem organizou a vaga migratória-relâmpago tinha isso em mente. Marrocos é uma monarquia ditatorial que nunca primou pelo respeito pelos direitos humanos, distinguindo-se antes por possuir um forte lobby económico e político em Bruxelas e por ser próxima do trumpismo e do sionismo. É curioso como o pânico mediático e moral apontou logo as espingardas a Pedro Sánchez, por este ter uma política migratória que deveria ser o mínimo olímpico. Foi de novo invocado o tenebroso «efeito de chamada», porque nada é pior do que um país onde as pessoas querem viver, como bem lembram o PSD e o seu aguadeiro salazarento de dois deputados. Neste caso, o povo foi mais diabolizado do que o governo, tanto na comunicação social como nas instituições europeias. Era uma «invasão», mas por pessoas pobres e racializadas, fomentada por um governo que deveria ser tão racista como os outros, e não por um regime ditatorial que utiliza as mesmas políticas xenófobas europeias para instrumentalizar o seu próprio povo e pressionar Espanha em diferendos geopolíticos.
Se houvesse uma política migratória que refletisse a realidade, que criasse canais seguros e respeitadores da dignidade humana, não teriam morrido cem jovens marroquinos afogados nas imediações de Ceuta por pensarem que, se fossem a nado, iriam poder entrar e trabalhar em Espanha. Se tal acontecesse durante a vaga de refugiados ucranianos de 2022, que ultrapassou em muito a imigração proveniente do Sul Global em vários países, iriam rolar cabeças e haveria uma onda de compaixão e solidariedade. Seguiram Meloni e fizeram a vontade a Trump e a Netanyahu, mostrando que o cinismo e a desumanidade continuam a marcar a reação europeia a este tipo de tragédias. O mais importante era criar um clima de medo para cumprir a agenda xenófoba e enfraquecer um governo espanhol em fim de ciclo político.
Mas, independentemente disso, Pedro Sánchez não está isento de críticas legítimas. O processo de deportação foi expedito e pouco transparente, quase como uma tentativa de despachar o assunto o mais rapidamente possível perante as críticas dos deploráveis e as ameaças de suspensão dos acordos de Schengen. Alguma esquerda mais apologista do governo espanhol, que por vezes abdica de ser crítica de um governo longe de ser perfeito, focou-se nas ligações, já aqui referidas, do regime de Rabat com os genocidas de Washington e Telavive e queixou-se da falta de solidariedade europeia perante «um ataque». Ou seja, não foi contra a maré do pânico moral, mas tentou moldá-lo para desviar as espingardas de Sánchez. Um dos exemplos mais hilariantes será o Livre, que apelou à solidariedade europeia com Espanha, classificou Ceuta como uma extensão da Europa e dos seus valores, necessitados de proteção, e apelou à exclusão de Marrocos da organização do Mundial de 2030. Em suma, um acontecimento que expõe contradições europeias insustentáveis, que deveria inspirar um debate sério e profundo sobre o caminho económico, social e moral que a Europa está a seguir, tornou-se, mais uma vez, um espetáculo de gritos reacionários à direita e, à esquerda, de discursos estéreis e simplistas que não estão à altura dos acontecimentos.
Porque uma extensão da Europa em África é, como foi em tempos idos a Argel sob os franceses, uma colónia de povoamento. E Ceuta e Melilla são clássicas colónias amuralhadas, expressões materiais e palpáveis da desumanidade da Fortaleza Europa.
A urgência, bastante «eficiente» para um governo acusado de promover a imigração ilegal, com que as autoridades espanholas deportaram dezenas de milhares de pessoas, e a forma como estas ficaram encalhadas à fome no enclave, impedidas de continuar a sua suposta «invasão» da Europa, demonstram o caráter perfidamente colonial dos enclaves espanhóis. É nesta dimensão que temos de olhar para o caso de Ceuta num plano histórico mais alargado.
Muitos argumentos foram apresentados para afirmar que Ceuta e Melilla não são colónias, mas sim cidades espanholas de pleno direito. O facto de estarem excluídas do espaço Schengen demonstra que não é bem esse o caso. Outro argumento hilário é o de que são cidades etnicamente espanholas que antecedem a existência do atual Reino de Marrocos, argumento que omite que todo o território marroquino foi repartido entre França e Espanha. Aliás, seguindo esse mesmo raciocínio, Luanda e Maputo poderiam, hoje, continuar a ser enclaves portugueses em África.
É curioso que estas vagas migratórias provoquem uma ansiedade muito semelhante à dos sionistas, em particular pelo facto de quase metade da população de ambas as cidades ser magrebina e muçulmana, sendo previsível que o peso demográfico dessa população aumente nas próximas décadas. Tal facto suscita várias inquietações numa cidade que se pretende um oásis espanhol e católico na costa de um país muçulmano, que atualmente é uma das maiores potências do Norte de África e que reclama soberania sobre as duas cidades desde o fim da ocupação franco-espanhola.
Ceuta não é apenas uma das últimas colónias europeias; é também aquela onde tudo começou. As invasões portuguesas ao Norte de Marrocos, no século XV, sob o pretexto de continuar a Reconquista, constituem o tubo de ensaio de todos os projetos coloniais posteriores. 1415, a data da conquista de Ceuta, é uma data que eu, enquanto professor de História e Geografia de Portugal do 5.º ano, tive de martelar nas cabeças dos meus alunos. Apenas interessa explicar as famosas razões para a invasão e ocupação portuguesas, algumas ainda relevantes para a presença espanhola, como o controlo de rotas estratégicas e a presença numa região onde o Atlântico se encontra com o Mediterrâneo.
Os manuais pouco explicam sobre a forma como Ceuta passou para Espanha, quase nada referem sobre as guerras com os marroquinos ou sobre as restantes cidades ocupadas. Ceuta surge apenas como o lugar onde começaram os «Descobrimentos», a «Expansão» e onde morreu o Infante Santo. Apesar de Marrocos ter marcado tanto a ascensão como a queda da dinastia que lançou o colonialismo português, esse percurso é praticamente ignorado. Ceuta foi conquistada por ordem de D. João I, e o célebre D. Sebastião encerrou essa dinastia com a derrota frente aos marroquinos em Alcácer-Quibir em 1578. Ou seja, da história do colonialismo português em Marrocos, que durou de 1415 a 1769, com o abandono de Mazagão (atual El Jadida), apenas são recordadas duas datas-chave, apesar de demonstrarem como Marrocos desempenhou um papel central na política interna portuguesa durante os primeiros séculos da expansão colonial. Do ponto de vista simbólico, a tomada de Ceuta é importante na forma como nos apresentam os «Mouros», o «Outro» muçulmano, os clássicos inimigos, os antagonistas dos «heroicos» reis, cavaleiros e navegadores. Essa caracterização praticamente não mudou.
A maneira como os vídeos de jovens marroquinos a nadar e a correr pelas ruas de Ceuta causaram pânico entre os europeus, de Lisboa a Varsóvia, reflete o pânico que, em 2025, quase quarenta marroquinos desidratados, chegados de barco ao Algarve, provocaram na sociedade portuguesa. Isto demonstra que não estamos essencialmente perante uma questão quantitativa; trata-se, acima de tudo, de uma questão de racismo. Esse mesmo sentimento agravou o caos em Ceuta, potenciado pelo facto de a cidade ter voluntariamente entrado em lockdown e pelo vigilantismo legitimado nas redes sociais, que se dirigiu não só aos migrantes recém-chegados, como também a membros da histórica comunidade magrebina. Estas atitudes fizeram o maior favor possível ao irredentismo de Rabat, ao demonstrarem aquilo que a cidade é desde os tempos do Infante D. Henrique: uma colónia europeia, aliás, a colónia original onde todas essas características continuam à vista.
Concluindo, Ceuta, tal como Argel nos anos 50, é uma cidade do Magrebe em que os magrebinos continuam a ser olhados como intrusos, mesmo constituindo uma parte significativa da população. É uma cidade ocupada sob o espírito de combater o Islão, expandir o imperialismo ibérico e explorar a sua importância estratégica e comercial. Foi o ponto de partida para uma violenta ocupação portuguesa, espanhola e francesa, com guerras que se estenderam desde as campanhas de expansão do século XV até à Guerra do Rif, na década de 1920, na qual, na repressão dos berberes, se destacaram muitos dos futuros falangistas que, poucos anos depois, lançariam uma guerra civil para destruir a República Espanhola.
Hoje acontece algo semelhante. Os resquícios do colonialismo espanhol em terras marroquinas estão a ser utilizados para enfraquecer o governo mais progressista da Europa. Muitos dos piores momentos da era Sánchez em Espanha ocorreram precisamente nos enclaves. Os massacres às portas de Melilla, em 2022, o enfraquecimento da posição espanhola na questão do Sara Ocidental para garantir a continuação de uma gestão fronteiriça conjunta com Rabat e a deportação-relâmpago de milhares de pessoas, incluindo menores não acompanhados mostram como, no plano histórico, a presença espanhola no Norte de Marrocos sempre foi um espinho na garganta da esquerda espanhola. Não é por acaso que a última estátua de Franco em espaço público se encontrava em Melilla.
É uma contradição que a esquerda internacionalista não possa simplesmente varrer para debaixo do tapete por receio de uma direita deplorável em ascensão. Não basta fazer apelos inúteis para excluir um dos responsáveis do Mundial. Tal apenas branqueia o papel histórico de Espanha, Portugal e da Europa em mais uma tragédia magrebina.
Daniel Macedo tem 27 anos e é antropólogo e Mestre em Jornalismo. Atualmente, é professor de História e Geografia de Portugal do 5.º ano. Gosta de temáticas do leste europeu e de canecas de cerveja. Já estagiou num jornal mas só lhe pagaram em cartão de compras do Continente.



