Uma das clarificações conceptuais fundamentais da Ética prende-se com a distinção entre valor instrumental e valor intrínseco. Ao contrário do valor instrumental, que se resume ao valor que algo tem como meio para chegar a um fim determinado, algo possui valor intrínseco se valer por si, como fim em si mesmo. Há dias, à conversa com uma pessoa amiga sobre a novela dos exames, colocávamo-nos essa questão: será que a digitalização dos processos de avaliação e de correcção deve ser vista como tendo valor por si mesma?
Para nos ajudar a esta questão, talvez seja importante recordar a diferença entre pontos de vista sobre o próprio conceito de inovação. Na cultura empresarial japonesa, inovação (Kaizen) prende-se sobretudo com a inovação dos processos de produção, não do produto final. Procura uma melhor eficiência para a produção do mesmo produto, baixando os custos marginais e aumentando a margem de lucro. Uma evolução incremental, um melhoramento contínuo dos processos de produção que podem gerar produtos novos como efeito secundário dessa melhoria processual. Já a inovação vista à luz do Ocidente, foca-se sobretudo na inovação de produtos, na disrupção, com a originalidade e a criação da novidade como matriz condutora. Esta diferença resulta, por exemplo, numa abordagem diferente aos videojogos: enquanto as séries japonesas tendem a «repetir» a mesma história, contada de uma forma ligeiramente diferente, com novos elementos, mas mantendo a estrutura original, as séries europeias e norte-americanas tendem a introduzir novos enredos, novas personagens, procurando expandir o seu próprio universo.
Seria escusado entrar numa competição sobre qual das perspectivas é «melhor»: qualquer comparação só poderia ser feita a partir de um terceiro plano, um ponto de vista de «nenhures», alicerçado no vazio. A escolha ou reflexão por diferentes abordagens não pode senão estar intimamente ligada com a prática em que emerge a própria pergunta, sendo a priori impossível estabelecer uma valoração metafísica. Contudo, pode ser frutífero olhar para esta dicotomia como uma pintura ilustrativa da questão latente em todo este processo de digitalização dos exames: porquê e para quem estamos a fazer esta reforma?
Em primeiro lugar, os estudantes. Será que as suas vidas melhoram com as reformas de digitalização? À partida, uma vez que este novo processo de classificação auspicia uma maior transparência, rigor e objectividade, os alunos e alunas podem sentir-se mais confiantes e seguros na correcção feita. Além disso, mantém-se a resposta em papel e caneta. A alteração reside apenas no caderno de respostas, cujas páginas passam a estar previamente atribuídas a cada item específico, com folhas de continuação para os casos em que sejam necessárias. Porém, quando nas respostas de escolha múltipla se introduzem critérios rígidos de preenchimento e correcção por causa do sistema de correcção automático, começamos a ter de colocar a questão inicial novamente. Estamos a reformar para melhorar a vida dos humanos (estudantes) ou para afinar a eficiência da máquina? A uniformização do modelo de preenchimento pode parecer inócua à primeira vista, mas corresponde a uma robotização do seguimento da regra. O humano age em prol do funcionamento binário, altera o seu comportamento para ir ao encontro do sistema formal da máquina, retirando a capacidade humana para a compreensão da regra, do seu sentido. Em fases de desenvolvimento e aprendizagem, seria importante trabalhar o pensamento crítico dos alunos e não a sua capacidade para corresponder às necessidades computacionais do programa de correcção. Estará aqui em causa uma distorção do desejo e da autoridade epistémica com possíveis consequências a longo prazo? Não me parece sensato descartar essa possibilidade. Além disso, as sucessivas emendas do Governo criaram situações de desigualdade insuportáveis. Os exames têm um peso desmedido na vida dos alunos, tanto ao nível do esforço que lhes é exigido durante os três anos do ensino secundário, como simbólico, carregando um rótulo sobre o seu desempenho naquele momento das suas vidas. A importância que os exames têm para a vida dos estudantes exige um cuidado ainda mais rigoroso e uma atenção redobrada quanto à efectividade da igualdade de oportunidades.
O que observamos, então, é: se o processo tivesse corrido de acordo com o previsto, tanto em termos de calendário como de software e logística – e se deixássemos cair a correcção automática das escolhas múltiplas –, esta reforma poderia trazer uma maior confiança aos alunos nas suas classificações dos exames nacionais, sem causar uma alteração notória no processo de realização da própria prova, e uma maior transparência por ser mais clara a classificação em cada item de resposta. Todavia, o dano já está feito: os estudantes já perderam a confiança necessária para considerar a correcção «bem feita». É a queda do Mestre como garante da objectividade. Recuperar esta autoridade é tanto difícil quanto essencial, se quisermos repor o papel de sujeito-suposto-saber do professor classificador e, dessa forma, restabelecer a ordem simbólica que confere Verdade às notas dos exames nacionais.
Em segundo lugar, os professores. Esta reforma apresentou-se como um grande salto em frente na qualidade de vida dos professores. E a verdade é que, para muitos, assim foi. A dispensa de levantar os exames em papel, a facilidade na correcção através da plataforma, a mobilidade que a digitalização traz consigo; tudo isto eram promessas de um incremento significativo no trabalho dos professores classificadores que muitos puderam, felizmente, usufruir. Porém, as falhas que resultaram em provas de disciplinas trocadas, as sucessivas «fornadas» de correcções, a falta de formação inicial sobre o uso da plataforma e, nalguns casos, a falta de resposta e comunicação por parte dos órgãos do Ministério, resultaram numa ansiedade e esforço adicionais completamente evitáveis. Os exames nacionais ocorrem no final do ano lectivo, num período de grande exaustão e, muitas vezes, de incerteza e precariedade relativo ao ano seguinte; é exigido, assim, mais cuidado quanto a reformas que podem implicar um aumento da carga de trabalho dos professores para se adaptarem e cumprirem com os padrões de exigência necessários. Transformar o cansaço em «resistência» ou a crítica em «bloqueios» não só é um erro político glaciar como é um gesto irresponsável e desonesto. Os professores até podem vir a ganhar com esta reforma (uma vez resolvidos os problemas técnicos e de preparação que ocorreram este ano), mas foi um terrível primeiro passo para um modelo que veio ao mundo sob o pressuposto de facilitar a vida a todos os envolvidos.
O que podemos concluir de todo este enredo?
É preciso pensar e decidir qual o foco de reformas inovadoras como a digitalização da correcção dos exames. Queremos melhorar um processo já existente ou introduzir novas formas de avaliação? Queremos manter o rigor e peso dos exames na vida dos alunos ou transformar o seu papel estrutural? Queremos continuar a avaliar as mesmas competências ou reconfigurar a função sumativa e formativa dos exames na entrada para o ensino superior? Não podemos ter a meta e o caminho trocados. Pedia-se uma mudança gradual, faseada, que não colocasse as escolas e os directores sob uma pressão tal que pudesse vir a minar a confiança das famílias no serviço de exames. A função das reformas deve ter as pessoas em primeiro plano: a melhoria da qualidade de vida dos estudantes e professores classificadores, um aumento da confiança na autoridade epistémica e uma maior capacidade de avaliação dos conhecimentos e competências. Não nos devemos guiar – especialmente em matérias tão sensíveis como o ensino – por uma aproximação a um zeitgeist distópico, alimentado pelas grandes empresas de tecnologia e balbuciado pelos seus acólitos locais. A digitalização não pode ser vista como o produto final, como o fim em si mesmo, uma vez que, se assim for, estaremos a pôr em causa alicerces do nosso sistema educativo com uma inconsequência inadmissível.
Em jeito de conclusão, termino com uma citação da Encíclica Magnifica Humanitas do Papa Leão XIV que muito vale como lema orientador para o futuro que nos bate à porta:
«A tecnologia pode curar, conectar, educar, cuidar da Casa comum; mas também pode dividir, descartar, gerar novas injustiças. Em teoria, em si mesma, ela não é uma solução para os problemas da Humanidade, assim como não é, em si mesma, um mal; todavia, na prática, não é neutra, porque tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam.»
O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1945.
Ricardo N. Henriques é professor de Filosofia no ensino secundário, doutorado no ramo de História da Filosofia, pela Universidade Nova de Lisboa. Gosta de cinema, futebol e política.



