[SOUBEMOS CRESCER, SABEREMOS PROSPERAR?]

29.7.2026
Fotografia do autor.

Todos os anos, ainda que passe despercebido, é anunciado um dos dias mais preocupantes do  nosso calendário – o dia da sobrecarga do planeta Terra. Esta data representa o dia a partir da qual se passa a consumir mais recursos naturais do que aqueles que o planeta consegue regenerar num só ano. Ou seja, a partir do dia em que começamos a viver a crédito com os recursos destinados ao ano seguinte.

Segundo a Global Footprint Network1, o dia de sobrecarga a nível mundial para o ano de 2026 celebra-se(salvo seja) a 30 de Julho, correspondendo ao uso de recursos equivalente a 1.7 planetas até ao fim do ano. Em Portugal, esse dia acontece bem mais cedo, a 7 de Maio de 2026. Se todos os países do mundo tivessem os mesmos padrões de produção e consumo que em Portugal, seriam precisos quase 3 planetas Terra – leram bem, 3 planetas! Estes dados, por si só, demonstram o impacto profundo que infligimos no mundo  em que habitamos. Ainda assim, eles  refletem ainda algo mais – o cada vez maior afastamento das comunidades humanas com a infraestrutura natural que sustenta tudo quanto existe no planeta.

A evolução temporal do dia global da sobrecarga da Terra ao longo das últimas décadas.2

Ainda que coletivamente sejamos responsáveis por aproximar os ecossistemas do colapso ecológico, a responsabilidade não é partilhada por todos de igual forma. Apesar da grande maioria dos países consumirem mais do que o desejável, nem todos fazem uso da mesma quantidade de recursos nem poluem com a mesma intensidade, agora e no passado. Por exemplo, países pertencentes ao Norte global são responsáveis por 92% das emissões globais de CO2, enquanto os países que menos emitem gases com efeito de estufa são os que mais sofrem com os efeitos das alterações climáticas3. Estes padrões desiguais encontram-se também noutras escalas organizacionais, já que entre 2016 e 2022, 80% das emissões globais foram atribuídas a apenas 57 empresas.4

Tamanho dos países de acordo com as emissões de CO₂ associadas ao uso de energia desde 1850 a 2011. Mapa interativo: The carbon map

Já na esfera individual, os padrões desproporcionais são também bem vincados - a população 1% mais rica esgotou o seu orçamento anual de carbono para 2026 em apenas dez dias após o início do ano, enquanto os 0,1% mais ricos fizeram-no no dia 3 de Janeiro.5 Ou ainda, noutra escala, para que alguém produza tanto carbono num só ano como os 1% mais ricos, teria de viver cerca de 1500 anos.6 Por mais que se promovam incentivos e responsabilidades individuais generalizadas, estas estatísticas denunciam o carácter sistémico e desproporcional da exploração desmedida do mundo natural.

Estas desigualdades são tão profundas que as aceitamos como uma inevitabilidade, como se  fossem leis naturais inquebráveis. Na verdade, nada mais são do que o resultado de um modelo de sociedade pensado e implementado por vontades humanas e, portanto, suscetíveis  à mudança. Este modelo convence-nos de que o crescimento económico perpétuo a custo de ecossistemas e clima estáveis é estritamente necessário. Norteamos o progresso coletivo por uma só métrica - a economia cresce ou não cresce? - sem questionarmos em que direção isso acontece, como esse crescimento se traduz no bem-estar e na qualidade de vida e, espasme-se, se é preciso sequer que isso seja uma inevitabilidade. Esta é uma imposição que gera desequilíbrios sociais, ambientais e económicos à escala planetária, criando sociedades de vencedores e vencidos  em que cidadania e poder de compra se confundem. Todo este paradigma convida-nos a algo diferente.

Perante a obsolescência cada vez mais nítida deste modelo de desenvolvimento humano, maior é a urgência em apontar as suas falhas, riscos e consequências. Contudo, não se espera um ato de contrição por quem mais consome e polui enquanto o modelo económico premiar o crescimento inesgotável. Por conseguinte, é com essa urgência que o dever moral de imaginar e construir alternativas se impõe. Ainda que a informação que nos chega diariamente possa toldar a imaginação de novas realidades, são vastíssimos os exemplos de pessoas, comunidades e organizações que diariamente trabalham nas mais variadas alternativas a viver a crédito. Os próximos parágrafos descrevem dois exemplos inspiradores.

Robin Wall Kimmerer, professora universitária, botânica, autora e membro do povo indígena norte-americano Potawatomi, apresenta-nos vários princípios éticos que nos ajudam a reescrever o nosso relacionamento com o mundo natural. Um desses princípios é o da colheita honrosa, do inglês honorable harvesting, que incentiva ao uso responsável dos recursos naturais. Reconhecendo as necessidades humanas, nomeadamente biológicas, em consumir recursos, Kimmerer apela à ideia de que colher ou usar algo não deve ser encarado como uma mera extração mas como uma relação. Esta ideia desarma-nos pela simplicidade e contrasta com os ideais de acumulação das sociedades modernas onde se consome tudo o que se pode em vez de tudo o que se precisa. É através deste princípio que modos de vida de povos indígenas e comunidades rurais por todo o mundo desenvolveram identidades culturais únicas. Um exemplo bem ilustrativo é o de alguns povos indígenas que olham para a paisagem de que dependem como parte integrante da sua comunidade, de tal forma que não desenvolveram palavras específicas para descrever o conceito de «natureza». Não reconhecem o mundo natural como uma entidade externa e a ideia do uso responsável e sustentável não se materializa em conceitos, mas na sua identidade. Com efeito, descrevem crises ambientais resultantes de ações humanas como crises de valores, ou seja, estas não ocorrem  por falta de conhecimento ou tecnologia, mas por uma relação desequilibrada com mundo que as rodeia. Sem cair na romantização das condições de pobreza a que muitas destas comunidades estiveram e continuam sujeitas, o reconhecimento dos estreitos equilíbrios entre o consumo humano e os limites dos ecossistemas - sem que outra escolha fosse possível - foi uma necessidade desenvolvida e apreendida ao longo de séculos, ou até milénios. Muitas das tradições, festividades, gastronomias, músicas e paisagens que hoje são motivo de afirmação cultural por todo o mundo, derivam dessa mesma relação íntima com os ecossistemas e os seus limites. Hoje, subjugamos esses traços identitários às lógicas do mercado e vivemos bem com o esquecimento coletivo dessas relações com o mundo natural. Através dos seus ensinamentos e reflexões literárias, R. W. Kimmerer coloca-nos a mão no ombro e relembra-nos a importância de restaurar mecanismos interdependentes característicos de modos de vida conscientes.

Mas a autora vai ainda mais longe, defendendo que o uso responsável dos recursos naturais deve ser acompanhado por uma lógica de reciprocidade. Por outras palavras, ainda que se faça um uso responsável e sustentável dos recursos, existe uma obrigação ética de retribuição, que pode ser concretizada de formas diversas. O verdadeiro impacto deste princípio ganha expressão quando é aplicado tanto à esfera individual como a organizações de múltiplas escalas. É aqui que a criatividade humana e o dinamismo de movimentos cooperantes se apresentam como uma ferramenta poderosa para fazer avançar progressos éticos e práticos. Segundo Kimmerer, essa retribuição ajuda a reposicionar a nossa ligação com o mundo que nos envolve, substituindo comportamentos de extração e acumulação por uma relação de consciência, responsabilidade e regeneração. Na verdade, a reciprocidade confronta-nos com relações desiguais e incómodas - seja com o mundo natural, ou entre comunidades humanas -, mas também oferece novas oportunidades de coexistência. Desafia a lógica simplista, divisiva e linear por uma narrativa circular que reconhece a complexidade, a interconetividade e os limites sócio-ecológicos. 

Se R. W. Kimmerer  apresenta um caminho de progresso ético e relacional, Kate Raworth concretiza esses mesmos princípios na forma como operamos e nos organizamos, abrindo-nos horizontes práticos para além do modelo capitalista. Economista e investigadora na Universidade de Oxford, K. Raworth propõe um modelo económico circular, regenerativo e distributivo no seu livro - Doughnut Economics7. Neste modelo, a autora define dois limites que devem orientar a dimensão  económica - uma fundação social em que todas as necessidades básicas humanas (alimentação, habitação, educação, etc.)são atendidas , bem como um teto ecológico que mantém o planeta dentro de equilíbrios habitáveis.

Modelo doughnut economics.7

Aquele modelo centra a economia segundo a perspetiva das necessidades ecológicas e humanas, desmultiplicando-se em métricas concretas que monitorizam balanços sócio-ecológicos fundamentais. Através da mimetização do funcionamento dos sistemas naturais – cíclicos, dinâmicos e interdependentes - orienta o desenvolvimento económico não para o crescimento, mas para a prosperidade. Os nossos próprios corpos ilustram bem esse princípio – o que seria se não parássemos de crescer chegados à idade adulta? O crescimento durante a infância e adolescência é indispensável, mas chegados a adultos amadurecemos e percebemos que o crescimento descontrolado ganha outras conotações. Primeiro crescemos e depois… prosperamos. Observamos estes padrões nos sistemas naturais de que fazemos parte e eles relembram-nos que existe um balanço onde a prosperidade acontece dentro de limites naturais. Desta forma, Raworth, denuncia a economia atual que cresce independentemente se as populações humanas e o planeta prosperam ou não e propõe um novo modelo em que as populações humanas e o planeta prosperam sem considerar inelutavelmente o crescimento da economia. Não obstante, este não é um conceito económico inconsequente, circulando apenas em bolhas intelectuais minoritárias ou circunscritas à esfera académica. Cerca de 50 governos locais e regionais por todo o mundo estão a implementar este modelo nos seus processos e políticas locais – Barcelona, Copenhaga, Glasgow, Amesterdão, São Paulo, Toronto, Cidade do México, entre outros exemplos. Por mais que os ignoremos, os sinais diários que nos vão chegando de um planeta em crescente desequilíbrio são notórios,  mas os exemplos suprarreferidos representam o reconhecimento cada vez maior de que são precisas alternativas regenerativas.

É inequívoco que o afastamento das comunidades humanas em relação aos processos e ciclos naturais tem levado os nossos destinos coletivos (humanos e além) por um caminho cada vez mais sinuoso. A dimensão das consequências que vamos sentindo à medida que nos aproximamos dos limites biofísicos do planeta são um alerta para a relação distante e desigual com o mundo natural. Muitas dessas consequências não são inevitáveis, existe ainda uma janela de oportunidade para mitigar, adaptar e regenerar. Como vimos, existem ilhas de possibilidades que nos ajudam a refletir, criar e agregar esforços para trilhar novos rumos. O atual caminho vertiginoso turva-nos a vista para o mosaico de ilhas de possibilidades que nos rodeia, mas ainda vamos a tempo de questionar em que direção queremos ir. Soubemos crescer negligenciando o que nos sustenta: saberemos prosperar?

1. www.overshoot.footprintnetwork.org
2. www.stockholmresilience.org/news--events/general-news/2025-09-24-seven-of-nine-planetary-boundaries-now-breached.html
3. www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2542519620301960
4. https://carbonmajors.org/briefing/The-Carbon-Majors-Database-26913
5. www.oxfam.org/en/press-releases/richest-1-have-blown-through-their-fair-share-carbon-emissions-2026-just-10-days
6. www.oxfam.org/en/press-releases/richest-1-emit-much-planet-heating-pollution-two-thirds-humanity
7.  www.doughnuteconomics.org