1. Uma rúbrica: (Re)Leitura
Gosto de ler livros de ficção (mais do que qualquer outra coisa). Gosto de falar sobre esses livros com as pessoas de quem gosto. Gosto de livros escritos por mulheres e/ou sobre mulheres. Gosto de livros do século XIX. A lista continua: gosto de livros com personagens femininas fora do normal; gosto de personagens que habitam o cinzento das relações sociais do seu tempo; gosto de procurar a disrupção em cada um dos livros que me apaixonam. Posto isto, surgiu-me a ideia de, a partir do Desatempo, começar esta rúbrica a que chamo «(Re)Leitura».
Não sou especialista em literatura. Sou antropóloga. Ainda assim, proponho-me, com toda a humildade de quem o faz apenas nos tempos livres, a trazer um olhar focado nas dinâmicas de género, de classe e de racialização para os grandes romances «clássicos» que marcaram a minha vida. Quero pensar, como leitora antropóloga, sobre as histórias de amor desiguais, sobre os fantasmas que entram sem pedir licença, sobre as mortes trágicas, sobre o lugar dos corpos não-brancos no século XIX, sobre vampiros e a sua sexualidade, sobre mulheres presas em sótãos e, sobretudo, sobre o poder indiscutível e imbatível da imaginação face às estruturas sociais – quase hegemónicas – que nos foram sufocando ao longo dos séculos. Quem lhes resiste? Quem lhes sobrevive? O que é a justiça? O que pode o amor face aos constrangimentos da classe e do género? Por aqui, sigo esta aventura muito entusiasmada. Desse lado, espero que se divirtam a ler estes livros tanto quanto eu.
2. Monte dos Vendavais ou uma Tripla Transgressão: Classe, Raça e Género
Venho falar-vos do livro «Monte dos Vendavais», escrito por Emily Brontë em 1847. Escolhi começar pelo meu livro preferido porque acho que este, contrariamente à opinião de muitos leitores, críticos e pessoas que se dedicaram a adaptá-lo para o grande ecrã, não é apenas uma história de amor ou de vingança. Essas premissas circunscrevem a obra a um campo estreito quando, na realidade, a sua densidade política e disruptiva em muito ultrapassa a complexidade das categorias que primeiro nos saltam à vista para qualificá-la. Diria que o «Monte dos Vendavais» é, fundamentalmente, um livro sobre transgressão. De resto, estamos perante uma tripla transgressão: de raça, de género e de classe. Neste ensaio, a partir das personagens de Heathcliff e Catherine Earnshaw, proponho-me a analisar a forma como a ligação amorosa entre estas duas figuras (transgressoras) impõe uma disrupção de contornos trágicos na paisagem social de uma Inglaterra vitoriana e rural.
Emily Brontë nasceu em 1818, em Yorkshire, e cresceu na aldeia de Haworth, no norte da Inglaterra, num ambiente rural e isolado que marcaria profundamente a sua obra literária. Filha de um pastor anglicano, viveu grande parte da sua vida com as irmãs Charlotte e Anne Brontë, também escritoras, e com o irmão Branwell, artista. A obra literária das irmãs Brontë deve ser percebida no contexto do ambiente coletivo de criação em que, desde crianças, foram criadas e incitadas pelo seu pai a escrever prosa e poesia. No entanto, as suas grandes obras tiveram de ser, inicialmente, publicadas sob um pseudónimo masculino. O destino das irmãs foi trágico: todas morreram prematuramente. Charlotte, a que sobreviveu até mais tarde, acabou por escrever o romance Shirley, em que transforma a sua irmã Emily numa personagem ficcional, conferindo-lhe características feministas mais acentuadas. Esta era a mais reservada das irmãs, tendo sido descrita como uma pessoa com dificuldade de sociabilidade, introvertida e que preferia a reclusão ao contacto com o mundo exterior. Igualmente, foram-lhe imputados atributos como «teimosa» e «obtusa» por aqueles que com ela contactaram. Numa análise feita por Sandra Gilbert no livro Mad Woman in the Attic, é-nos descrito que, nas obras de ficção juvenil escritas por Charlotte e Emily, se notava uma diferença fundamental na ousadia da narrativa e na centralidade do feminino. Enquanto Charlotte tendia a escrever histórias que colocavam o homem no papel de força motriz do amor romântico, Emily invertia essa dinâmica, colocando a mulher no centro do desenvolvimento amoroso. Algo que, aliás, surge como traço definidor de «Monte dos Vendavais». Este foi o único livro que Emily deixou antes da sua prematura morte.

Contando que muitos dos que leem agora estas linhas já conheçam a obra, mas talvez outros não, farei um breve resumo da mesma, deixando uma árvore genealógica como referência.

Wuthering Heights narra a história de Heathcliff, um rapaz órfão e não-branco, trazido para aquela localidade por Mr. Earnshaw, após uma visita a Liverpool. Criado ao lado de Catherine e de Hindley Earnshaw, Heathcliff desenvolve uma ligação amorosa intensa e obsessiva com Catherine ao crescerem juntos (que, aliás, retribui o sentimento), mas, quando ela decide casar com Edgar Linton, um homem de estatuto social mais elevado, Heathcliff abandona a propriedade e regressa depois, misteriosamente enriquecido e determinado a vingar-se de todos os que o humilharam e o obrigaram a abdicar da relação amorosa mais estruturante da sua vida. Hindley, entretanto, degradado pelo álcool e pelo jogo, perde Wuthering Heights para Heathcliff, enquanto Isabella Linton, irmã de Edgar, apaixona-se ingenuamente por Heathcliff e foge com ele, acabando presa num casamento abusivo. Catherine tem uma filha com Edgar Linton: Catherine Linton. Catherine, a mãe, morrerá pouco depois. Mas já lá iremos.
O filho de Isabella e Heathcliff, Linton Heathcliff, cresce frágil e manipulável. Heathcliff continua obcecado pela memória da sua Cathy e usa a geração seguinte para prolongar a sua vingança: mantém Hareton Earnshaw, filho de Hindley, numa condição de ignorância e degradação semelhante àquela que ele próprio sofreu em criança (em grande parte devido ao ciúme de Hindely devido à relação que Heathcliff tinha com o seu pai) e força Catherine Linton a casar-se com o doente e frágil Linton Heathcliff para conseguir controlar The Grange após a morte de Edgar Linton. Contudo, ao longo do romance, Catherine e Hareton aproximam-se gradualmente e desenvolvem uma relação semelhante à de Catherine e Heathcliff, que, desta vez, não é impedida por nada nem por ninguém. No fim da obra, Heathcliff, relativamente apaziguado ao ver esta nova união surgir, acaba por morrer de forma ambígua e quase sobrenatural. Depois de anos consumido pela obsessão por Catherine Earnshaw e pela vingança, começa a afastar-se progressivamente do mundo e passa longos períodos sozinho, aparentando estar perturbado e fascinado pela ideia de reencontrá-la após a morte. Nelly encontra-o morto no quarto de Catherine em Wuthering Heights, com a janela aberta e uma expressão que evidenciava antonimicamente tanto êxtase quanto paz.
Quando Lockwood, o viajante que chega a Wuthering Heights no início, se depara com esta casa, descreve um cenário «assombrado» e os seus habitantes como uma espécie de estranhas criaturas fantasmagóricas ou diabólicas. A tempestade que se abate na noite da sua chegada contribui para criar um cenário gótico de horror sobrenatural.
De facto, «Monte dos Vendavais» surge-nos como um dos grandes romances góticos ingleses do século XIX. As presenças sobrenaturais sobejam: Heathcliff constantemente comparado a um demónio («that devil Heathcliff» / «Is Mr Heathcliff a man? »/ «As dark almost as if it came from the devil»); Catherine Earnshaw transforma-se numa entidade fantasmagórica que paira eternamente sobre a vida de Heathcliff; as referências à dicotomia entre céu e inferno estão presentes por todo o romance; as mortes trágicas sucedem-se; um cadáver é desenterrado; as tempestades acentuam o sentido do horrível e da catástrofe.
A fenomenologia gótica, como argumentam alguns autores, representa precisamente a necessidade de explicar a sensação horrível de ser sujeito a um regime de opressão. A linguagem gótica, amplamente presente, aliás, em textos de Marx – com a metáfora vampírica do capital ou o espetro comunista que assombra a Europa – é mais do que um mero exercício artístico ou estético, mas uma expressão das monstruosidades e da escuridão que «assombram» a modernidade capitalista. As personagens monstruosas da literatura gótica tendem a representar frequentemente aquele ou aquela que transgride as normas de classe, género e sexualidade do sistema que habita, ou no qual vive aprisionado. Esta personagem surge, presumivelmente, das ruínas sinistras de um tempo passado ou de um mundo oculto para assombrar a moral moderna. A mulher louca, o perigoso não-branco, o trânsfuga de classe, o corpo disforme - a transgressão da moral vitoriana consubstancia-se em horror. A personagem gótica emerge das franjas e das fronteiras da vida moderna, da escuridão onde a suposta luz da razão não penetra, da marginalização do corpo desadaptado e divergente. A literatura gótica é uma expressão da história que teima em reaparecer e tornar-se visível no presente. Aliás, o ímpeto inicial deste género literário vem da marginalização das histórias e das formas medievais face às novas relações político-sociais burguesas.
De entre estes monstros, surgem os corpos que põem em causa a hegemonia da modernidade capitalista-patriarcal-colonial. A criatura de Frankenstein, frequentemente comparada ao corpo zombificado do trabalho industrial ou ao outro colonial que reivindica a sua posição à mesa do Iluminismo; a mulher de Mr. Rochester que, sendo originária da Jamaica, é trancada num sótão devido à sua doença mental; o vampiro que corrompe a moral sexual puritana da época vitoriana e introduz um elemento libidinoso nas personagens femininas. Com efeito, o gótico e o monstruoso surgem não só como uma expressão da vida sob vários sistemas de opressão – sendo, aliás, contíguos a um tempo qualificado pelo próprio Hobsbawm como «grande salto em frente do capitalismo» –, mas também como uma oportunidade para recuperar as histórias transgressoras e os mundos diferentes habitados por corpos e vontades plurais. O gótico pergunta-nos: quem fica de fora da luz da razão, pretensamente universal?
Heathcliff é uma personagem não-branca. Esse é um dado sem o qual não é possível compreendê-lo, ou à sua trajetória narrativa. Mr. Earnshaw, numa viagem a Liverpool – na zona portuária por onde passavam sujeitos colonizados pelo Império Britânico – encontra Heathcliff, órfão e abandonado, e decide trazê-lo para casa. A sua pertença étnico-racial não nos é plenamente revelada ao longo do romance. Heathcliff é descrito como «cigano», «escuro», com um aspeto «espanhol» ou «americano», e a sua cor de pele suscita repulsa por parte de várias personagens. Ora, podemos imaginá-lo como um homem negro de origem africana, como um «traveller» (termo utilizado para designar a maior parte da comunidade cigana do Reino Unido) ou até mesmo como um homem originário das Antilhas Britânicas. Acima de tudo, compreender a sua posição como personagem racializada é fundamental para entender a repulsa profunda e violenta que suscita em muitos dos que o rodeiam. Devido à sua racialização e ao facto de não possuir bens ou propriedades, é relegado a uma condição servil na sua própria casa e, mais tarde, trancado como um animal. É também por esta sua dupla condição de pobreza-racialização que lhe é negada a possibilidade de manter uma relação amorosa com Catherine Earnshaw, para quem o irmão tinha outras expectativas. Tendo-lhe sido roubada a possibilidade de amor, Heathcliff procura vingar-se do sistema que o oprime, tornando-se numa espécie de assombração demoníaca (fazem-se até referências que ligam a cor da sua pele ao mal) que ressurge, ungido de riquezas misteriosas, para destruir a vida das duas famílias.
Heathcliff não é o vilão desta história. Ele é a face mais brutal da escolha do oprimido pela violência. Ele é a representação perfeita do corpo alterizado e desumanizado pelo colonialismo, pelo capitalismo e pelo imperialismo, que regressa das franjas escondidas da sociedade para exigir reparação pela sua vida. Quando o corpo categorizado como monstruoso sai das sombras e escolhe a violência contra quem o oprimiu, transformar-se-á mesmo em vilão? Que outra justiça poderia este encontrar?
O monstro, como teorizam vários pensadores (entre eles Paul Preciado), traz uma crise nas categorias, perturbando o que se considerava imutável. Heathcliff, como corpo racializado e pobre, rejeita a predestinação da sua condição social e vinga-se da classe que lhe fechou a porta ao que mais queria. O monstro traz sempre crise, aponta para o que está fora da norma e propõe possibilidades de vida diferentes. Heathcliff, homem racializado, causa disrupção ao regressar inexplicavelmente rico e ao colocar o seu corpo ao nível dos corpos brancos que estão à sua volta. O monstro é o «reconhecimento da vida que luta para existir».
Por seu turno, Catherine Earnshaw é uma personagem feminina disruptiva e insubmissa, frequentemente associada ao mundo místico e sobrenatural ao longo da obra. Ela é a força motriz do amor de Heathcliff e, igualmente, do de Edgar Linton. Com a sua personalidade irascível e pouco dócil, semeia o amor e atormenta os homens pelo seu caminho. Descrita como «half savage», desafia os padrões de comportamento e de discurso da moral feminina da época. O seu comportamento, enquanto jovem, não é «lady-like», ela não respeita as figuras de autoridade e recusa-se a submeter o seu corpo (anda sempre descalça e a correr) às regras do saber-estar da feminilidade repressiva. Aliás, desde o início, Cathy surge como uma personagem na fronteira entre o bem e o mal (tal como Heathcliff, o seu duplo, isto é, a sua metade), afirmando preferir o inferno e o seu caos e desordem à rigidez e hierarquia da ideia cristã de céu. A relação entre céu e inferno é, assim, constantemente invertida por Cathy. O seu paraíso – correndo pelos montes, respondendo da forma que lhe apetece e sem prestar explicações a nenhum homem – consubstancia-se numa ideia de inferno do século XIX. A sua relação com a morte é de um namoro incessante, quer através da forma como pensa a vida depois da morte, quer através do espectro da morte que paira sobre todas as mulheres da sua família, ou ainda através da forma mística como aborda o mundo. Ora, o misticismo nas personagens femininas surge, inúmeras vezes, como ferramenta que as liga a um mundo que transcende as condições materiais e sociais em que habitam, abrindo-lhes a única alternativa que, à época, parecia plausível.
Quando, numa brincadeira, Cathy e Heathcliff dão por si no Grange – morada da família Linton – e esta é atacada por um cão, a história da liberdade de Cathy muda drasticamente. Fica ferida e é adotada pela família Linton por algum tempo, que lhe ensina como se vestir, comer, falar e comportar-se como uma senhora de classe alta. Assim, Cathy acaba por se trair a si própria, como, mais tarde, lhe imputa Heathcliff, enclausurando-se na condição de «lady» e escolhendo abdicar da sua própria radicalidade e, concomitantemente, do seu amor por Heathcliff, casando-se com Linton. A educação que recebeu no período na Grange fá-la ficar convencida de que casar com o Heathcliff seria «degradante» para si. No entanto, com o regresso do mesmo, inicia-se uma cadeia de eventos através da qual Cathy reconhece a sua própria infelicidade, a inadequação ao papel de senhoria e a claustrofobia na prisão do matrimónio. O regresso de Heathcliff lembra-lhe de quem ela realmente é e, por conseguinte, torna ainda mais insustentável a prisão à qual a própria cede.
É essa impossibilidade de reconciliar a sua insubmissão e espírito tempestuoso com o espartilho do casamento que a leva a uma morte que é quase suicida. Perto do momento da sua morte, pede a Nelly que abra as janelas, pois quer sentir o vento que sopra dos montes, onde sente que realmente pertence.
Neste sentido, Emily Brontë , contrariamente a várias outras mulheres escritoras do mesmo período, revela uma coragem particular ao matar Catherine Earnshaw. Frequentemente, olhamos para personagens femininas fortes e determinadas da literatura anglófona do século XIX – como Elizabeth Bennet ou Jo March – e questionamo-nos sobre os seus matrimónios finais, apresentados como um «happy ever after». As autoras que criaram heroínas femininas insubordinadas não puderam nem conseguiram escrever histórias em que a mulher rejeitasse prontamente o matrimónio e reconhecesse nele uma violência insuportável. Até Jo March, de Mulherzinhas, irreverente, incumpridora das normas de género e sonhadora para lá das expectativas femininas, acaba, de forma inusitada, casada com um personagem pouco explorado. A vida de casadas destas mulheres é relegada ao que vem depois do livro, sugerindo ao leitor que elas terão aprendido a submissão após uma juventude irreverente. Ora, Emily Brontë não seguiu esse rumo. A morte de Cathy, quase suicida, é um ato de coragem literária em que se aponta o dedo ao casamento no século XIX como prisão repressiva, da qual a única saída é, literalmente, a morte. A submissão a um homem e aos padrões de feminilidade da época matou o espírito e o corpo de Cathy, assim como os de milhares de outras mulheres. Posto isto, no meu entender, Catherine surge como o arquétipo perfeito da raiva feminina, da loucura como única resposta a um mundo horrível e do abraçar do terror e da morte como única escapatória aos constrangimentos do seu mundo. Quando aparece como fantasma, surge precisamente na figura do próprio fantasma, como testemunho da violência política e social não resolvida e insepulta.
Finalmente, gostaria de concluir falando um pouco sobre o potencial criativo e imaginativo que a literatura gótica encerra, bem como sobre a relevância política da ideia de «solidariedade com os monstros», expressão cunhada por China Mieville.
O gótico e o horrível têm um potencial transformador. No livro Capitalism: A Horror Story, o autor apresenta as expressões artísticas ligadas ao gótico como uma possibilidade de reavaliação do passado e do que foi tornado obsoleto pela marcha do capitalismo e da modernidade e, ao mesmo tempo, de recuperação de ideias de futuro que vivem nas fronteiras da nossa sociedade. Apesar do medo, este tipo de história mostra que o mundo é capaz de mudar de formas radicais e até mesmo aterrorizantes. Que do meio do sangue, da morte, do medo, pode dar-se o doloroso parto de um mundo diferente. Dentro do horror estão os restos do passado e as expressões culturais do que é sobrenatural e anormal, que podem ser reativadas no processo de construção do futuro. No fundo, como argumenta Jon Greenaway, o marxismo gótico é a busca por aquilo que assombra a sociedade capitalista. Deste modo, através das histórias góticas, encontramos o potencial transformador e fantástico dos corpos transgressivos e das questões que eles impõem à sociedade que habitam. Pode o monstro falar? Pergunta Paul Preciado. Eu diria que Emily Brontë lhe responderia que sim. Ademais, como explica China Mieville, a solidariedade com aqueles que foram transformados em monstros pela sociedade que habitam pode representar uma oposição às forças que comodificam e estandardizam todas as ações do dia a dia capitalista.
Por isso, numa história escrita há 179 anos, continuo, como leitora e cientista social, a encontrar a originalidade da literatura escrita por mulheres, a força da diferença e da insubmissão de Catherine e Heathcliff e a transgressão gótica como repositório inesgotável de um imaginário disruptivo. E, claro, a emocionar-me com a maior história de amor de todos os tempos.
Brontë, Emily. O Monte dos Vendavais. Tradução de Ana Maria Chaves. 5.ª ed. revista. Alfragide: Dom Quixote, 2015.
Gilbert, Sandra M., and Susan Gubar. The Madwoman in the Attic: The Woman Writer and the Nineteenth-Century Literary Imagination. New Haven, CT: Yale University Press, 1979.
Greenaway, Jon. Capitalism: A Horror Story: Gothic Marxism and the Dark Side of the Radical Imagination. Londres: Repeater Books, 2024.
Paul B. Preciado, Can the Monster Speak? Report to an Academy of Psychoanalysts, trans. Frank Wynne (London: Fitzcarraldo Editions, 2021)
Turl, Adam. «A Thousand Lost Worlds: Notes on Gothic Marxism.» Red Wedge Magazine, June 4, 2018. Accessed June 26, 2026. Red Wedge Magazine



