Sendo uma aficionada por vestuário histórico, podem encontrar-me, frequentemente, a analisar o vestuário de longas-metragens e a assistir a entrevistas para perceber qual a inspiração para os designs ou quais os detalhes das peças escondidas, como os saiotes ou corpetes. No entanto, o sentimento que carrego comigo depois desta pesquisa, inicialmente entusiasmada e esperançosa, é, quase sempre, de frustração, quando ouço as repetidas queixas normalizadas de atrizes que sofreram desconforto físico durante as gravações, uma vez que os corpetes restringiam a sua capacidade de executar funções corporais normais, como sentar ou respirar. Também são frequentes aquelas que reportam uma alteração temporária da sua fisionomia corporal, devido ao uso prolongado desta peça de vestuário, como é o caso de Natalie Dormer, que encarnou Ana Bolena, na aclamada série de televisão Os Tudors.
Não me interpretem mal. Não pretendo, com as considerações que se seguem, apagar uma realidade de opressão feminina, em grande parte através do seu vestuário. O corpo da mulher sempre foi sujeito a escrutínio e padrões de beleza muitas vezes inatingíveis. E o traje foi, durante muito tempo, um meio determinado por homens para criar uma ilusão visual de perfeição (segundo o pensamento da época, pelo menos). E o espartilho vitoriano (cujas características diferem, em parte, do corpete), mais do que em épocas anteriores e aliado a ideias de fraqueza corporal feminina propagadas por médicos, foi, de facto, um instrumento de repressão insalubre.
Mas aquilo que agita, verdadeiramente, esta aficionada em trajes e tecidos, que a vocês se dirige, é o facto de que, num momento de escrutínio maximus do corpo da mulher, continuamos a olhar para o século XIX como exemplo a expiar. Contemplamos apenas o passado quando o presente é estimulado por marcas de roupa que nascem com o intuito de incentivar o constrangimento do corpo feminino em formas pouco naturais, ou cirurgias plásticas cada vez mais acessíveis e nunca suficientes, que prometem um «bom» envelhecimento (o que quer que isso signifique).
De formas pouco diferentes de outras jovens, foi durante a minha adolescência – momento formativo e necessário para aprendermos o que um homem procura no corpo de uma mulher1 – que me deparei com o conceito de thigh-gap.2 Se estiveres a ler isto, e te identificares com o género masculino, e não conheceres a definição do termo não te assustes: poucos conhecem. Se te identificares com o género feminino e o teu distúrbio alimentar tiver sido exacerbado por conceitos como este, não te alarmes: muitas foram. Recentemente, e a acrescentar aos anglicismos linguísticos que pelo Ocidente se propagam, o buccal fat removal tornou-se «moda» em Hollywood, muito recomendada pelos influencers peritos em estética e, novamente, em «bom» envelhecimento.
Tal como no passado (infelizmente podemos recuar sem data definida), a imagem da mulher continua a ser definida por parâmetros irreais para o curso natural da sua biologia. E se noutros tempos eram regidos por uma sociedade patriarcal que adornava as mulheres como artigos de exposição reveladores do estatuto do seu marido, hoje vivemos sob a alçada do capital. Este espectro que assombra a consciência e explora as inseguranças mais escondidas do nosso subconsciente. Não as tens? Não te preocupes. Ele mostra-te que sim, existem.
A normalização da dor e da máxima «a beleza dói» não é uma vivência nostálgica dos nossos avós e está bem presente na sociedade que nos rodeia e absorve, começando na infância quando os nossos cabelos são repuxados e moldados em complexos penteados trançados que sugam os elogios dos familiares presentes.
«E como funciona, verdadeiramente, a capitalização da beleza?», pergunta o leitor. Prometi-te uma abordagem histórica e é isso que me proponho fazer. Modernista que sou, versada na análise de legislação sumptuária3, conto-te que não muito distantes estão os tempos em que o luxo e o vestuário de qualidade eram limitados aos estratos nobres e abastados, que ainda assim ditavam a imagem que a restante população devia desejar replicar.
«Mas como pode tal ser, se era legalmente proibida de o fazer?»,é uma observação pertinente que deve estimular a nossa consciência de classe. A resposta é simples. A lembrança da sua inferioridade era tatuada nas mentes do Terceiro Estado.
Hoje lerás estas normas e darás graças por poderes viver livre. Estou aqui para apontar as ilusões. Porque tal como a lembrança constante de uma mulher seiscentista do vestuário que nunca poderia trajar, também nós, nos dias de hoje, somos relembradas do corpo que nunca teremos, porque não vem da genética mas sim da conta bancária.
E se cada um deve ser livre de com o seu corpo fazer o que entender, cada um deve ser livre para com ele se sentir bem. Sentir-se normal. Sentir-se suficiente. Falo da realidade feminina porque é a vivência que conheço, mas falo também sabendo que são diversas as identidades que vivem sob a constante nuvem negra da perfeição. Essa chuva que traz vendavais que nos tentam atirar para patamares que sabemos que nunca alcançaremos, porque a escada é interminável e o céu não é o limite.
E a todas as celebridades e figuras públicas cuja plataforma e influência atravessam mares e oceanos, relembro a responsabilidade que carregam e o impacto das mentiras sobre cirurgias e procedimentos que prometem nunca terem feito. O impacto da falsidade de que comprimidos e maquilhagem levarão qualquer um a assemelhar-se a essa aparência escultural. Ninguém é obrigado a justificar ou declarar as escolhas que toma sobre o seu corpo. É seu e de mais ninguém. Mas ninguém é obrigado a sentir que o seu corpo se desenvolveu de forma errada.
Friedrich Nietzsche definiu a beleza como algo não estático mas interpretativo, ou seja, na forma como nos afirmamos e nos movimentamos no meio onde nos integramos. Em O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, o protagonista hedonista perde-se porque transforma a sua beleza no centro absoluto da sua vida. Fica, então, a questão sobre a qual esta jovem mulher – também ela com inseguranças causadas pelos media e celebridades que admira – espera que o leitor reflita e ganhe confiança no seu valor. Se os nossos meios, as nossas mentes, os nossos gostos, são diferentes, como podemos desejar que as nossas aparências sejam iguais às outras?
O título fala em corpetes. Isto não é sobre corpetes.
1. Uma vez que as palavras no papel ainda não têm a capacidade de emitir sons de ironia, dado que os peritos em inteligência artificial estão ocupados com importantes e necessárias tarefas como a construção de robôs de guerrilheiros, deixo aqui a nota de que o comentário é feito com recurso ao recurso estilístico apontado.
2. Thigh-gap é um termo popularizado, entre 2012 e 2013, pelas redes sociais, que se refere ao espaço entre a zona superior das pernas, principalmente de uma mulher. É uma característica maioritariamente definida pela anatomia de um indivíduo, não pelo seu peso, mas tornou-se um elemento considerado desejável e importante para quem quisesse atingir o designado «corpo ideal».
3. As Leis Sumptuárias foram legislação desenvolvida ao longo da época medieval e moderna, tendo tido o seu apogeu no século XVI, que tinham como intuito o controlo de gastos da população e a manutenção da ordem social.



