[CHARLOTTE]

8.5.2026
Auto-retrato, Charlotte Salomon, 1940. Gouache sobre cartão.
Auto-retrato, Charlotte Salomon, 1940. Gouache sobre cartão.

No início deste ano, estava eu a ler o livro Memória da Memória, da escritora russa Maria Stepánova, quando tropecei neste nome: Charlotte Salomon. A autora, nesta magnífica obra que segue o fio da vida da sua família judia russa ao longo do século XX, recorre a uma intertextualidade constante na construção da narrativa, dedicando-se longamente a comparar a sua obra à de outros autores e autoras: W. G. Sebald, Roland Barthes, Walter Benjamin, Susan Sontag e, lá está, Charlotte Salomon. A autora recorre até aos trabalhos científicos de Marianne Hirsch – que cunhou o relevante conceito de «pós-memória» – para interpretar o passado que lhe foi legado. 

No meio destas páginas de referências cruzadas, surge Charlotte. A sua história é-nos brevemente contada. Estava a ler o livro num elétrico. Reli várias vezes os parágrafos que falavam da sua obra e do seu destino. Reli e reli. Senti um aperto no peito, um murro no estômago. Um relâmpago que caiu em cima de mim. Pus o livro de lado e pesquisei o nome dela no Google. Encontrei fotografias, imagens da sua obra, dados biográficos. Bastou-me um primeiro contacto com os seus gouaches, através do ecrã do telemóvel, para ficar obcecada. Lembro-me de, sofregamente, enviar um áudio à minha mãe a contar tudo o que tinha descoberto sobre Charlotte, a sua vida e a sua obra. Enviei-lhe ficheiros de algumas das suas pinturas mais vibrantes. A minha mãe, uma interlocutora constante, achou a história igualmente emocionante e comovente. Encorajou-me a escrever um texto sobre ela. A pôr em palavras o novelo de sentimentos que tinha dentro de mim – raiva, injustiça, admiração, espanto, tristeza –, tentando, assim, prolongar um pouco mais a vida que foi negada a Charlotte. Mãe, aqui está o texto. 

Depois dessa conversa, comecei a encontrar Charlotte em vários sítios. Dias depois, numa livraria de livros em segunda mão, numa pilha de vários catálogos em que mexia distraidamente, descubro um livro escrito por vários historiadores e historiadores da arte sobre ela. Cerca de uma semana depois, na Librarie Flagey (caso estejam por Bruxelas um dia destes, passem por lá) encontro um livro cujo título é apenas Charlotte e cuja capa era tão simplesmente o seu autorretrato. Com aquele olhar desconcertante. Evidentemente, a capa do livro não estava a olhar para mim. Ela não estava a olhar para mim. Mas eu senti que estava, naquele momento. A sua cara jovem está inquieta, o seu olhar é inseguro mas sério. Ela olha-nos de lado, como se tivéssemos roubado a sua atenção de qualquer coisa mais importante. Não, não acredito no destino nem em comunicações ou relações sobrenaturais. Mas que las hay, las hay

Ora, este livro, que me apressei a comprar, é um romance escrito pelo autor francês David Foenkinos em 2014. À semelhança de Stepánova (e de mim, já agora), Foenkinos tinha tido um semelhante coup de foudre por Charlotte, que o havia mergulhado na obsessão de escrever um romance sobre a vida dela. Ainda bem que o fez e ainda bem que o fez da forma que o fez. O livro, escrito na forma de um enorme poema sem rimas, deixa-nos sem fôlego; viramos as páginas avidamente, de coração acelerado, a assistir ao caminho para uma tragédia certa. Mas que caminho! O caminho de uma jovem mulher genial, única, brilhante. O desastre é iminente e o leitor sabe-o. Cada página é um ato de magia e de homenagem. Não conseguiria imaginar um livro que melhor contasse a fulgurante história de Charlotte. Sim, eu vou contar-vos a história de Charlotte. Aguardem só mais um pouco. 

Gostava só de responder a uma pergunta que eu própria me coloco. Porquê escrever sobre a história dela agora? No dia 30 de abril de 1945, Hitler comete suicídio no seu bunker, em Berlim. Os soviéticos estavam às portas da cidade. No dia 7 de maio, em Reims, França, o general Alfred Jodl assina a rendição incondicional da Alemanha Nazi que entraria em vigor no dia seguinte. No dia seguinte, 8 de maio, já de noite, em Berlim, o marechal Wilhelm Keitel, comandante supremo da Wehrmacht, assina a rendição incondicional definitiva. Devido às diferenças de fuso horário (e, naturalmente, às tensões na Europa que rapidamente mergulharia na Guerra Fria), a maior parte da Europa ocidental celebrou o V-E DAY [Victory Day in Europe] no dia 8 de maio, enquanto que a União Soviética – e, hoje, a Rússia e muitas das outras repúblicas soviéticas que se tornaram independentes após 1991 – celebrou o dia da vitória na Grande Guerra Patriótica apenas a 9 de maio. 

Ora, hoje é dia 9 de maio. Entre ontem e hoje (conforme as preferências), celebramos esse Dia da Vitória. Confesso a minha preferência por celebrá-lo no dia em que o país que mais estoicamente sofreu, resistiu e derrotou o inimigo nazifascista, o celebrava. Passaram-se 81 anos. Cerca de 70 milhões de pessoas morreram: entre elas, contam-se soldados, civis, resistentes, judeus. O fascismo foi, custosamente, derrotado no campo de batalha. Hoje, ele regressa. Não regressa com suásticas e camisas negras, mas entra de rompante com a sua política do ódio e da morte, no contexto de mais uma crise do capitalismo. No vórtex das centenas de filmes e livros dedicados à Segunda Guerra Mundial e ao Holocausto (alguns magníficos e outros nem por isso), urge lutar por três ideias fundamentais. Limitar-me-ei a enunciá-las. Em primeiro lugar, dizer que tudo aquilo pode e, aliás, está a voltar a acontecer: o ódio pelo outro, a pobreza desesperante, as soluções fáceis, o desinteresse perante o sofrimento alheio, o culto da morte e do darwinismo social. Em segundo lugar, sublinhar que não foram apenas psicopatas que fizeram aquilo. Foram centenas (ou milhares) de funcionários obedientes, perfeitamente «normais» e conscientes das suas decisões que aceitaram, contribuíram e levaram a cabo o Holocausto e uma guerra de aniquilação total dos seus inimigos. Essas pessoas não desapareceram da face da Terra, naturalmente. Finalmente, dizer ainda que, enquanto houver capitalismo e exploração do humano pelo humano, o fascismo terá sempre terreno fértil para voltar a crescer. A batalha pela memória  é uma batalha pelo futuro. Desde as histórias individuais até aos números sufocantes. 

Portanto, aqui está este texto. Sobre Charlotte Salomon, um nome entre os muitos milhões de mortos do nazismo. Uma mulher e artista maravilhosa, com 26 anos e um filho no seu ventre, enviada para uma câmara de gás por funcionários politicamente convictos da sua inferioridade racial. Escrevo-o com a mesma raiva e determinação (e admiração) com que escrevi, há mais de um ano, um texto sobre a dignidade trágica de Etty Hillesum.  Quando exploramos a história europeia entre 1933 e 1945, mergulhamos numa tragédia que não termina. Dentro da indizível tragédia dos números que nos parecem inacreditáveis, encontramos um poço profundo de novos horrores, de histórias que ficaram por contar, de livros que ficaram por escrever, de gouaches que ficaram por pintar, de músicas que ficaram por ouvir e, sobretudo, de vidas encantadoras que ficaram por viver. O mais insuportável nesta tragédia é a sua incomensurabilidade. Os números não contêm as vidas aniquiladas. Reside em cada unidade, até naquelas cujos nomes evaporaram, a escuridão inultrapassável da vida extinta. Nunca vamos saber tudo sobre os que foram assassinados e isso é exasperante. Quantas Charlottes, quantas Ettys, quantas Annes

Charlotte Salomon nasceu em Berlim em 1917, ano particularmente luminoso da nossa História. A história da sua família trazia a marca do suicídio. Oito suicídios assombravam a sua árvore genealógica, incluindo a sua tia, mãe e avó. Charlotte cresce em Berlim com o seu pai e, mais tarde, também com a sua querida madrasta, a cantora Paula Salomon-Lindberg. Charlotte cresceu no meio cultural da República de Weimar e, adolescente, assistiu à ascensão do Partido Nazi ao poder. 

Charlotte Salomon retrata a ascensão do Terceiro Reich

Interessada pela pintura, consegue ingressar na Faculdade de Belas Artes de Berlim, apesar das estreitas leis raciais já em vigor. Aí, estudará e deslumbrará pares e professores – chegando até a ganhar um prestigiado prémio – até ser impedida de continuar o seu percurso pelo agravar da política antissemita na Alemanha. Em 1938, na sequência da Kristallnacht, o pai de Charlotte chega a ser enviado para o campo de concentração de Sachsenhausen, sendo libertado alguns meses depois. Neste período, Charlotte desenvolve um caso com o professor de música Alfred Wolfsohn. Alfred, frequentemente representado na obra de Charlotte, é um homem significativamente mais velho, por quem a jovem se apaixona perdidamente, tornando-se numa espécie de ídolo e guia espiritual para ela.

No contexto de crescente hostilidade contra a comunidade judaica, o pai e a madrasta de Charlotte decidem enviá-la para o Sul de França com os seus avós, onde julgavam que a jovem ficaria mais segura. Esse será o fim da sua intensa relação com Alfred. Já no Sul de França, entre Nice e Villefranche-sur-Mer, Charlotte e o seu avô (sozinhos após o suicídio da sua avó) chegam a ser enviados para o campo de internamento de Gurs, de onde são libertados algum tempo depois devido ao estado de doença avançada do seu avô. A sua família vai-se dispersando. Em textos cuja veracidade não se conhece inteiramente, Charlotte chega a descrever o seu avô como um abusador sexual e uma pessoa por quem sentiria profundo desprezo. 

Nessa altura, o avô revela-lhe o passado dos suicídios da sua família. Regressa de Gurs e, à beira de um colapso emocional devido à descoberta da linhagem de suicídios na sua família, Charlotte, graças ao conselho de um médico amigo, decide começar a pintar. Entre 1940 e 1942, ao longo de dezoito meses de trabalho intenso e isolado, pintou a história da sua vida de forma fantasiosa e extravagante, intitulando-a de Leben? Oder Theater? (Vida? Ou Teatro?). Ao terminar, entregou os quase 800 gouaches ao médico, dizendo-lhe: «Isto é a minha vida toda». 

Charlotte Salomon representa-se a pintar ao ar livre

Em 1943, Itália, que até aí ocupava a zona do Sul de França, assina o Armistício com os Aliados. Na sequência disso, a zona onde habitava Charlotte passará a estar sob controlo direto alemão, intensificando-se a perseguição aos judeus. Em setembro do mesmo ano, Charlotte casa-se com Alexander Nagler – um refugiado judeu – e fica grávida. Pouco tempo depois, serão os dois descobertos, enviados para Drancy e, de seguida, para Auschwitz. Charlotte Salomon será gaseada à chegada. O seu marido morrerá pouco tempo depois, vítima de desumanos trabalhos forçados. 

Ottilie Moore, mulher americana dona da casa onde Charlotte se escondia, no fim da guerra, recebe os gouaches do seu amigo em comum e entrega-os aos pais da pintora. Albert e Paula, escondendo-se em Amsterdão, conseguiram sobreviver ao Holocausto. Em 1971, todo o seu espólio é doado ao Museu Judaico de Amsterdão, onde continua a estar até hoje. 

Leben? Oder Theater? é uma obra sem igual. São centenas de gouaches autobiográficos – apesar de revestidos de fantasia e autoficção – de uma expressividade comovente, revelando uma imaginação viva e frenética que mobilizou a pintura, a escrita e a música ao seu serviço. Esta é uma obra de sinestesia única, na qual os gouaches vivos são combinados com texto, recorrendo a transparências. Ao mesmo tempo, as páginas são acompanhadas por referências musicais que Charlotte imaginou combinarem com cada imagem que pintava. A sua obra é intensa, pintada com a pressa de quem sente o seu tempo esgotar-se, de quem quer deixar tudo num mundo do qual sente que se irá eclipsar em breve.

Exemplo de transparência que junta gouache e texto, na qual Charlotte Salomon conta o suicídio da sua mãe 

Erradamente, a obra de Charlotte foi, muitas vezes, rotulada como «testemunho». O estatuto de vítima da pintora obscureceu o génio da sua arte e a sua dimensão experimental e única. É redutor dizer que Charlotte foi uma mera vítima: ela resistiu através da sua pintura, do mundo extraordinário que criou, do legado artístico que deixou e que em muito ultrapassa o rótulo de «testemunho» ou «curiosidade» histórica. Da mesma forma, também a sua obra é muito mais do que uma curiosidade da história das mulheres na arte ou da história do judaísmo. Na modesta e pouco parcial opinião de quem desenvolveu uma paixão por esta artista, a sua obra é um marco da História da Arte e um gesto de rebelião, resistência e sobrevivência que nos diz, a cada gouache, que a imaginação pode florescer sob a maior das opressões. 

Em jeito de conclusão, regressamos à pergunta: porque escrevo eu este texto? Tendo a acreditar firmemente que a memória funciona como uma espécie de longo tear, para o qual somos interpeladas ao longo da nossa estadia neste mundo. Podemos desfazer o tecido que veio antes, podemos cosê-lo novamente, podemos admirar os padrões tecidos por quem veio antes e, sobretudo, somos chamadas a continuar a tarefa minuciosa da memória que nos foi legada há muito, muito tempo. Ignorar essa tarefa é, fundamentalmente, mergulhar no individualismo venenoso, rejeitar as genealogias através das quais as nossas vidas florescem e deitar fora o património coletivo mais valioso que possuímos. Lembrar é o que faz de nós um grupo, uma comunidade, um mundo. A memória prolonga a vida que acabou, deixando que o fio do novelo se vá desenrolando sem nunca se esquecer de onde veio. Os projetos políticos do ódio e da morte quiseram – e querem – cortar árvores genealógicas, apagar culturas e silenciar histórias. Nós temos o dom de contrariar esses desejos megalómanos. Nós temos o dom da memória e o dever do trabalho delicado de ir resgatar as nossas referências e antecessoras – resistentes, lutadoras, mulheres – das mãos da morte que lhes foi brutal e prematuramente imposta. 

Os nazis não conseguiram matar inteiramente Charlotte  Salomon. Está em nós a capacidade de prolongar mais um pouco, no tear à frente do qual nos sentamos, a sua vida. Se alguém, depois de ler este texto, se dedicar a procurar os seus gouaches, se maravilhar com eles e fixar o nome da sua singular autora, ela viverá mais um pouco. Prolonguemos a vida de quem veio antes de nós. Como ato de resistência antifascista, prolonguemos mais um pouco a vida de Charlotte.

Stolperstein dedicada a Charlotte Salomon em Berlim

Foenkinos, David. Charlotte. Paris: Gallimard, 2014.

Harding, Jeremy. «A Young Woman Who Was Meant to Kill Herself.» London Review of Books 40, no. 5 (2018). Acedido a 4 de maio de 2026.

https://www.lrb.co.uk/the-paper/v40/n05/jeremy-harding/a-young-woman-who-was-meant-to-kill-herself

Jewish Cultural Quarter. «Meet Charlotte Salomon.» JCK Magazine. Acedido a 4 de maio de 2026. 

Reitman, Pamela. Charlotte Salomon Paints Her Life. Sibylline Press, 2025.

Salomon, Charlotte. Leben? Oder Theater? Eine Auswahl von 450 Gouachen. Editado por Judith C. E. Belinfante e Evelyn Benesch. Amesterdão: Joods Historisch Museum, 1992.