Ou melhor, no lugar do antigo marco de passagem do tempo que era o regresso às aulas, vive agora o encerramento da época balnear e a abertura da época dos festivais de cinema, com a sua cronologia habitual.
Setembro é mês de MOTELX, é mês de Queer Lisboa, com gritos, suspiros e agarrares de cadeira diametralmente opostos. Sendo verdadeira, nem sempre, nem tanto, especialmente nas passadas que seguiram para a estreia nacional de Teenage Sex and Death at Camp Miasma, filme que caberia confortavelmente em ambos os festivais. Mas estou a divagar, até porque prometi que respeitaria a cronologia nesta rubrica de duração incerta.
Como já se tem vindo a tornar padronizado, dos três ou quatro filmes que selecionei para ver na vigésima edição do MOTELX, apenas um não caiu imediatamente no lugar do cérebro que impede a chegada à memória de longo prazo, nas imediações que a privação de sono prolongada cria. Não há nada como um bom filme sobre a conceptualização da morte e o desespero existencial. The End of It, a primeira longa-metragem de María Martínez-Bayona, leva-nos para um futuro próximo em que a morte se tornou opcional para os ultrarricos, onde se podem comprar ossos e órgãos de substituição, trocando os originais com a prática ausência de desconforto físico associado. Só é precisa uma diálisezinha ao pequeno-almoço diariamente. Claire (Rebecca Hall), uma antiga artista provocateur à beira de celebrar 250 anos, parte uma costela no ginásio e apercebe-se de que já não lhe resta nenhuma parte original do corpo. Cria-se o precipício: já está farta, quer morrer.
Sem precisar de jump scares, Bayona conduz-nos através da vida interminavelmente aborrecida, repetitiva e performativa de Claire, que decide interromper os tratamentos e transformar a sua morte natural numa performance artística. Há qualquer coisa de deliciosamente cínico em querer morrer para escapar a uma existência transformada em sucessão de gestos vazios e, ainda assim, ser incapaz de o fazer sem uma audiência. Decidir fazê-lo sem sequer saber como o fará, sendo a decisão em si a performance. Se a imortalidade lhe retirou a urgência de viver, Claire tenta encontrar na morte aquilo que os seus 250 anos já não lhe conseguem oferecer: novidade, significado e, talvez sobretudo, autoria. A personagem principal quer recuperar algum controlo sobre um corpo que foi sendo literalmente substituído peça a peça, mas fá-lo através da linguagem que conhece, enquadrando, encenando e oferecendo o momento ao olhar dos outros. A pergunta que faz deixa então de ser apenas se vale a pena viver para sempre, passando a ousar questionar se ainda conseguimos distinguir uma experiência genuína, identificando a morte como elemento inevitável e irrecuperável, da performance que fazemos dela.

É difícil não pensar no Navio de Teseu. Plutarco conta que os atenienses conservaram durante séculos o navio em que Teseu regressara de Creta, retirando as tábuas à medida que apodreciam e substituindo-as por madeira nova, até este se tornar um problema para os filósofos: se todas as suas partes foram substituídas, continua a ser o mesmo navio? Aos 250 anos, Claire é uma versão particularmente literal do paradoxo. É aqui que The End of It se torna mais interessante do que a premissa original clichê de ficção científica, a de que os ricos podem comprar vida, podem comprar imortalidade, poderia fazer parecer. A tecnologia é quase incidental. Não há grande fascínio pelos mecanismos que permitem a Claire continuar viva, estes não ocupam grande plano ou tempo. O horror está precisamente na banalidade com que tudo isto é incorporado no quotidiano. A morte deixou de ser inevitável e passou a ser, como quase tudo o resto, uma questão de acesso. E, quando se pode continuar indefinidamente, continuar deixa de significar grande coisa. Quanto da continuidade de uma pessoa depende sequer da matéria que a constitui?
Ao tornar a morte opcional, este futuro parece ter eliminado também a fealdade que tradicionalmente a anuncia. O humano deixa de ter acesso ao feio, tudo passa a encarnar o Belo. Cada ser é o Belo em si. Retiraram-se da vida o ugly e o eerie, aquilo que incomoda precisamente porque nos lembra que somos matéria, que a matéria apodrece e que um dia um corpo deixa de ser uma pessoa e passa a ser um cadáver. Aqui, nada precisa de chegar a esse ponto. Uma peça começa a falhar e é substituída antes que a decadência se instale. Se a velhice e a morte desapareceram do campo de visão, Claire não está apenas a escolher morrer, está a reintroduzir na sociedade uma experiência que se tornou indecente, obscena. É essa a sua obra-prima, forçar um mundo que deixou de conseguir olhar a morte a não resistir a consumi-la. Mas Claire ainda precisa que olhem. Até para morrer precisa de voltar a ser provocateur.
Por sorte, no cinema há sempre alguém a olhar. Teenage Sex and Death at Camp Miasma parte de uma tradição cinematográfica que nunca conseguiu desviar os olhos de si mesma. Mudamos de festival, de século e de quantidade de sangue, mas não inteiramente de assunto; a morte continua a ser uma performance e nós continuamos sentados na plateia. Sexo e morte estarão entre as mais primitivas e universais experiências humanas, tão intimamente ligadas à existência do corpo que é difícil pensar uma sem convocar a outra, apesar de passarmos séculos a encontrar formas mais ou menos elegantes de as manter separadas, ou mesmo devidamente higienizadas.
Jane Schoenbrun não parece interessar-se particularmente por essa elegância. Podia ter chamado ao filme simplesmente Camp Miasma, elencando o espaço físico em que a ação toma parte. Em vez disso, escolheu incluir no título as palavras proibidas em trio: adolescente, sexo e morte. Se The End of It imagina um mundo que conseguiu retirar a morte do campo de visão, Teenage Sex and Death at Camp Miasma faz precisamente a performance capitular de Claire, isto é, obriga-nos a olhar.

Para quem não passou duas horas no Queer Lisboa a familiarizar-se com décadas de história de uma franchise que nunca existiu, ficando a questionar a profundeza da sua ignorância, e de como é que perdeu a existência de um suposto icónico franchise durante tantos anos, Camp Miasma é uma série fictícia de slashers sobre Little Death, uma assassina adolescente trans que emerge periodicamente do lago de um campo de férias de verão, para perseguir e trespassar adolescentes com uma lança. É neste universo que encontramos Kris (Hannah Einbinder), jovem realizadora independente contratada para ressuscitar a propriedade intelectual com a clássica origin story. Para Kris, porém, não se trata apenas de mais um reboot, Camp Miasma é uma espécie de texto fundador. Viu o primeiro filme às escondidas aos oito anos e nunca conseguiu esquecer aquilo que sentiu ao ver a Final Girl preparar-se para morrer, simultaneamente aterrorizada por ela e, de alguma forma, a experienciar fisicamente a cena no seu corpo através dos olhos de Little Death. Uma excitação difícil de localizar entre medo, identificação e desejo, que nem as suas experiências sexuais adultas conseguiram reproduzir.
Para completar o regresso às origens, Kris precisa de convencer Billy Presley (Gillian Anderson), a Final Girl original, a regressar à franchise. Billy abandonou a representação depois do primeiro Camp Miasma e passou as décadas seguintes fora do olhar público, transformando-se ela própria numa espécie de objeto mítico da cultura que deixou para trás. O encontro entre as duas coloca frente a frente quem passou a vida a tentar compreender o que aquelas imagens lhe fizeram e a mulher cujo corpo estava dentro delas. Este filme olha para esta falsa memória cultural com uma seriedade que está constantemente prestes a desfazer-se em piada. Schoenbrun oscila entre o rigor quase académico com que disseca o slasher, os seus corpos, arquétipos, regras, desejos e violências, e uma autoconsciência tão ostensiva que o filme parece saber, a cada momento, que talvez esteja a levar tudo isto ao limiar do longe demais. É simultaneamente intelectualmente carregado e puramente absurdo, ao estilo meta tão apreciado nos tempos correntes. No meio de toda essa maquinaria autorreferencial, há algo deveras sincero – Teenage Sex and Death at Camp Miasma é, de facto, um filme sobre ser adolescente, ser queer e, quase me atrevo, também para incluir adolescentes no seu público, com o peso de uma mão que marca. Há filmes em que vemos adolescentes e há filmes através dos quais aprendemos a ser adolescentes, e a ser para além disso. Teenage Sex and Death at Camp Miasma está interessado naquilo que acontece quando o próprio cinema participa na nossa formação sexual.
Ainda por cima disto, o trabalho de Schoenbrun traz para a mesa imagens que nos oferecem, antes de termos vocabulário para isso, posições possíveis dentro do desejo. Se nos reconhecemos no corpo que deseja ou naquele que é desejado, até descobrirmos, eventualmente, que podemos ocupar ambos, inclusive simultaneamente. Como separar desejo de identificação? É vítima ou agressora, fucker ou fucked? O filme interessa-se menos por resolver essa ambiguidade do que por permitir que ela exista. Talvez seja essa a parte mais interessante da confusão de Kris. Schoenbrun nunca lhe exige que descubra exatamente de que lado da imagem se encontra.
É aqui que sexo e morte deixam de funcionar apenas como mais uma variação de Eros e Thanatos. Não interessa que desejo e destruição estejam ligados de uma forma simplista, mas que aprendemos ambos através de imagens, e que algumas dessas imagens ficam alojadas em nós muito antes de percebermos o que fizeram. Camp Miasma parece menos uma homenagem ao cinema que formou Schoenbrun, ou uma nova teorização sobre a proximidade entre a experiência queer e o lugar reservado ao monstro no slasher, do que uma tentativa de voltar a entrar nessas imagens e descobrir onde, afinal, Schoenbrun se encontrava dentro delas. No meio da irregularidade narrativa e estética dentro do filme, parecemos ter sido transportados intactos para uma memória adolescente.
Querer Billy ou querer ser Billy; desejar a Final Girl ou identificar-se com quem a persegue; querer tocar, ser tocada, olhar ou ser olhada. Há qualquer coisa de libertador em conceder ao desejo não apenas agência, mas opacidade, nuance, confusão – no fundo, ser.

À primeira vista, pouco aproxima uma mulher de 250 anos que decide transformar a própria morte em obra de arte de uma realizadora obcecada desde a infância por uma assassina trans com uma grelha de ventilação na cabeça. Mas ambas regressam ao corpo precisamente quando ele deixa de ser fácil, quando deixa de ser dizível; um corpo que envelhece ou se recusa a envelhecer, que deseja sem saber exatamente o quê, que quer olhar e ser olhado, que pode ser simultaneamente sujeito, objeto e espetáculo. Talvez seja isso que setembro tenha feito, afinal, aos gritos, suspiros e agarrares de cadeira com que comecei. Baralhar-lhes um pouco as causas. No MOTELX, a morte; no Queer Lisboa, o desejo? Os corpos, felizmente, continuam a estragar-nos as categorias.
E, não esquecer, setembro é mês de preparar a Festa do Cinema Francês e o Doclisboa. Vemo-nos por lá.
Carolina Monteiro é médica, aspirante a Psiquiatra, e pós-graduada em Sexualidade Humana. Entretanto, estuda a relação entre sistemas de saúde e alterações climáticas. Conhecida como a pessoa que passa demasiado tempo a ver filmes e a ler livros lésbicos.



