O trabalho doméstico e os cuidados constituem, simultaneamente, campos de exploração invisível e espaços de resistência. Este ensaio procura articular a reflexão teórica com a narrativa do romance Limpa, de Alia Trabucco Zerán, mostrando como a literatura pode trazer consigo eixos fundamentais como a reprodução social, corpo, cuidado e resistência coletiva. Estes eixos permitem compreender a experiência das trabalhadoras domésticas ao longo do tempo, evidenciando a persistência de desigualdades estruturais e a invisibilização do trabalho do cuidado.
Em Limpa, Estela García afirma a sua própria identidade logo na primeira página: «Chamo-me Estela, estão a ouvir? Eu disse: Es-te-la-Gar-cí-a» (p. 9). Esta insistência em nomear-se é um gesto de resistência contra a invisibilização social, tal como o trabalho doméstico e de cuidados é socialmente desvalorizado, a própria existência de Estela é desconsiderada até que ela reivindique o seu nome. Assim, o nome deixa de ser apenas um dado biográfico para se tornar um ato de resistência: ao nomear-se, a protagonista reclama o direito de existir enquanto sujeito pleno.
Em O Tempo das Criadas: a condição servil em Portugal (1940-1970) (2012), Inês Brasão oferece-nos uma leitura crítica sobre o papel das empregadas domésticas na sociedade portuguesa, destacando a sua condição de subalternidade, invisibilidade e a dependência em relação à classe. Esta perspetiva encontra ecos na literatura portuguesa, onde a figura da criada surge frequentemente como elemento essencial do quotidiano burguês e raramente como sujeito central da narrativa.
Na obra de Eça de Queirós, em particular em Os Maias, as criadas são presenças constantes no espaço doméstico, desempenhando funções indispensáveis ao funcionamento da casa. Contudo, permanecem sem voz própria, surgindo como figuras secundárias cuja existência serve sobretudo de suporte à ação principal. Já em O Primo Basílio, emerge uma representação mais complexa da empregada doméstica através da personagem Juliana. Apesar de manter uma posição de subalternidade, Juliana revela consciência da sua condição social, bem como sentimentos de frustração e revolta. A sua tentativa de inverter, ainda que temporariamente, a relação de poder com os patrões demonstra como a criada pode ultrapassar o lugar de mera figura funcional, tornando-se veículo de crítica social. Por sua vez, nas obras de Camilo Castelo Branco, como Amor de Perdição, as criadas surgem como personagens leais, discretas e obedientes, desempenhando papéis instrumentais, mensageiras ou cúmplices dos protagonistas. Aqui, a sua individualidade é pouco explorada, reforçando-se a hierarquia social e a ideia de submissão. Já no século XX, autores como Alves Redol passam a conferir maior visibilidade às classes trabalhadoras. Ainda que as empregadas domésticas continuem frequentemente associadas a contextos de pobreza e exploração, verifica-se um esforço de humanização, sustentado por uma leitura mais crítica e socialmente consciente. Deste modo, a literatura portuguesa confirma a ideia apresentada por Inês Brasão: a empregada doméstica surge como figura simultaneamente central e marginal, indispensável ao funcionamento da vida doméstica, mas silenciada, desvalorizada e invisibilizada.
Em Limpa, Alia Trabucco Zerán propõe uma reflexão sobre a desigualdade social, com particular enfoque no trabalho doméstico remunerado e no cuidado enquanto formas de trabalho invisibilizadas. Através da voz de Estela García, empregada doméstica interna, o romance revela como o cuidado, frequentemente associado aos afetos, oculta relações profundas de exploração e dependência. Desde o início, a posição de Estela é sempre um «quase»: quase da família, quase mãe, quase trabalhadora. Tal evidencia uma contradição estrutural, o seu trabalho sustenta o funcionamento da casa e o bem-estar da criança de quem cuida, Júlia, mas raramente é reconhecido como trabalho digno. Historicamente, o cuidado tem sido desvalorizado, na medida em que a organização política, social e económica capitalista tende a não reconhecer o trabalho doméstico e dos cuidados como trabalho. Em Calibã e a Bruxa (2017), Silvia Federici argumenta que é precisamente através da análise da exploração oculta do trabalho doméstico que se tornam possíveis os primeiros passos para a sua teorização e politização. De forma complementar, a antropóloga Sherry Ortner, no ensaio «Is Female to Male as Nature Is to Culture?» (1974), sustenta que o masculino é associado à cultura e à transcendência, enquanto o feminino é naturalizado e confinado à esfera doméstica. Assim, tal como a cultura é concebida como superior à natureza, também os homens subordinam as mulheres, contribuindo para que o trabalho doméstico e de cuidado seja interpretado como expressão de amor e não como trabalho. Contudo, é precisamente neste processo que se inscreve uma forma subtil e persistente de exploração, no não reconhecimento do trabalho de cuidado como trabalho convergem capitalismo e patriarcado: um beneficia da mão de obra não remunerada, o outro sustenta-se na feminização dessas tarefas. No romance, esta lógica manifesta-se na forma como Estela é absorvida pela casa. Sendo trabalhadora interna, não existe separação entre trabalho e vida pessoal: Estela não «vai trabalhar», ela vive no trabalho. Também a Teoria da Reprodução Social (TRS) oferece uma lente para compreender a exploração vivida por Estela, e tantas outras mulheres por ela representadas. Bhattacharya (2023) destaca que a reprodução social, o trabalho de manter e produzir a vida, é tão central para o capitalismo quanto o trabalho assalariado que produz mercadorias. No romance, a rotina de Estela, desde cozinhar, lavar a roupa, até educar Júlia, é um exemplo vívido da reprodução social: tarefas essenciais, contínuas e invisíveis, que sustentam não apenas a família empregadora, mas também a própria sociedade. A literatura reflete aquilo que a TRS teoriza, a força de trabalho não apenas vendida no mercado mas também reproduzida e controlada no interior da casa.
Além de tudo isto, o corpo, como instrumento de trabalho e de subordinação, é outro eixo fundamental. Inês Brasão em Dons e Disciplinas do Corpo Feminino (2017) aponta que o corpo é regulado para preservar hierarquias de género, funcionando simultaneamente como espaço de cuidado e de disciplina, onde a empregada é marcada pela sua condição social de origem, logo a relação de poder entre patrões e empregadas funcionava com: «o cuidado é trocado por serviço, a proteção por obediência» (Brasão 2017: 171). Em Limpa, Estela descreve com minúcia a disciplina física e emocional que aprende:
«Treinei-me como os desportistas se treinam para aguentar a dor, como nos treinam, a vocês e a mim, a desprezar-nos mutuamente. E ao treinar-me a mim também a treinei a ela. À mulher que passava a ferro. À que regava. À que fazia frango na caçarola. À que limpava o cocó ressequido agarrado à retrete. E recolhia os cabelos amontoados no ralo do lavatório. E passava calças, cuecas e a sua própria bata. E que limpava os espelhos com a sua enorme luva amarela. E que ficava desconcertada quando via o seu reflexo: o rosto cansado, a pele ressequida, os olhos inflamados do cloro. Essa mulher que soube tornar-se imprescindível. Que aprendeu a fazer tranças à menina. Aprendeu a fazer recados ao senhor. A não dizer sovaco, mas sim axila. A não dizer houveram, mas sim houve. A pôr as facas na gaveta das facas. As colheres na gaveta das colheres. E as palavras na garganta, de onde nunca deveriam ter saído.» (p.172)
Cada gesto, cada cuidado, cada limpeza, cada tarefa é incorporada no corpo da trabalhadora, refletindo a forma como a subordinação se inscreve fisicamente. Assim, a experiência narrativa confirma a análise teórica que o corpo das mulheres se torna arena onde se materializam relações de poder.
A relação com Júlia expõe uma das dimensões centrais do trabalho do cuidado: a sua carga emocional. Estela desenvolve um vínculo profundo com a criança, ultrapassando as fronteiras do contrato laboral. Este envolvimento afetivo torna-se, porém, um mecanismo de exploração. Ao investir emocionalmente, Estela dá mais de si do que aquilo que lhe é formalmente exigido, sem que isso se traduza em maior reconhecimento ou autonomia. Esta situação levanta uma questão central nos debates contemporâneos sobre o cuidado: até que ponto é possível separar afeto e trabalho? Em Limpa, essa separação revela-se impossível, mas essa ambiguidade beneficia sobretudo quem emprega, permitindo a naturalização de exigências excessivas sob a aparência de proximidade e confiança. O cuidado revela-se no romance em toda a sua amplitude. Tronto (2015) define o cuidado como a combinação de atenção, responsabilidade, competência e reciprocidade, enquanto Pautassi (2023) acrescenta a dimensão coletiva, onde o cuidado deve ser universal e socialmente distribuído, não restrito à família. No entanto, para Estela, o cuidado é absoluto, mas unicamente seu. A sobrecarga emocional e física evidencia o fracasso das estruturas sociais em reconhecer e apoiar o trabalho do cuidado.
«A menina morre» (p. 10). A morte de Júlia, anunciada desde o início, pode ser interpretada à luz das tensões estruturais que atravessam o romance. Não se trata de um evento isolado, mas do colapso de um sistema em que o cuidado é exigido sem condições adequadas, sem reconhecimento e sem limites. A responsabilidade de Estela inscreve-se num contexto de sobrecarga emocional, isolamento e ausência de apoio. As investigações sobre o serviço doméstico evidenciam a persistência da sua desvalorização, bem como a ocorrência de abusos de poder, assédio e diversas formas de violência (Abrantes, 2014; Figueiredo, Suleman e Botelho, 2018). Estas situações são agravadas pela escassa proteção laboral e pelo facto de as trabalhadoras domésticas constituírem um grupo particularmente vulnerável à violência de género. Além disso, Limpa dialoga com uma realidade mais ampla: em muitos contextos, o trabalho doméstico remunerado é desempenhado por mulheres migrantes ou deslocadas, que sustentam o conforto de outras famílias à custa do seu próprio bem-estar. O cuidado é, assim, delegado, mas não valorizado.
Por fim, a resistência coletiva, implícita tanto na teoria como na narrativa, é central. O esforço de Estela para afirmar o seu nome, o seu corpo e a sua dignidade revela formas de resistência, ainda que silenciosa, mas que dialoga com os movimentos de trabalhadoras domésticas ao longo da história que lutaram, e continuam a lutar, pela dignificação e visibilização do setor. O romance mostra que a resistência é composta de práticas diversas, ela ocorre no dia a dia, no quotidiano, na insistência em existir.
Ao articular teoria e literatura torna-se evidente que o trabalho doméstico e de cuidados é tanto central como marginal. Eles são indispensáveis à reprodução social, mas são invisibilizados e estigmatizados. O cuidado, como categoria analítica e prática social, permite compreender a complexidade da exploração patriarcal e capitalista, assim como as possibilidades de resistência, seja na ação coletiva das trabalhadoras, seja na produção de conhecimento e literatura que as coloca no centro da narrativa. Ao dar voz a Estela, Alia Trabucco Zerán torna visível aquilo que habitualmente permanece oculto, não apenas o trabalho em si, mas também os seus custos emocionais e humanos. Limpa funciona como uma extensão literária da reflexão teórica, não sendo apenas a narrativa de uma tragédia, mas uma crítica profunda a um sistema que depende do trabalho doméstico e do cuidado ao mesmo tempo que os desvaloriza.
Acordo Ortográfico: AO90
Beatriz Realinho tem 25 anos e vem da Guarda, essa pequena cidade da Beira Alta onde o frio ensina resistência desde cedo. É antropóloga e dedica-se a estudar o trabalho doméstico e o cuidado, aquilo que sustenta tudo, mas que raramente é visto. Escreve a partir daí: do invisível, do quotidiano e do que se insiste em não ser reconhecido como trabalho. Pelo meio gosta de livros como quem precisa deles para pensar o mundo e divide a vida com um gato chamado Zé Mário.
- Abrantes, Manuel. 2014. Out of the Penumbra: Dispute and Alliance in Domestic Service Employment Relationships. Tese de doutoramento em Sociologia Económica e das Organizações, Instituto Superior de Economia e Gestão, Universidade de Lisboa.
- Bhattacharya, Tihi. 2023. «Como não passar por cima da classe: reprodução social do trabalho e a classe trabalhadora global» In Teoria da reprodução social: remapear a classe, centralizar a opressão, editado por Tithi Bhattacharya, 119-153. São Paulo: Elefante.
- Brasão, Inês. 2012. O Tempo das Criadas: A Condição Servil em Portugal (1940–1970). Lisboa: Tinta da China.
- Brasão, Inês. 2017. Dons e Disciplinas do Corpo Feminino: Os Discursos sobre o Corpo na História do Estado Novo. Lisboa: Deriva Editores.
- Federici, Silvia. 2017. Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva. São Paulo: Editora Elefante.
- Figueiredo, Maria da Conceição, Fátima Suleman, e Maria do Carmo Botelho. 2016. «Workplace Abuse and Harassment: The Vulnerability of Informal and Migrant Domestic Workers in Portugal.» Social Policy and Society 17(1): 65–85. https://doi.org/10.1017/S1474746416000579
- Ortner, Sherry B. 1974. Is Female to Male as Nature Is to Culture? Stanford: Stanford University Press.



