Confesso que sempre tive uma relação difícil com o Ocidente. Primeiro porque é, geralmente, difícil relacionarmo-nos com um mito. O Ocidente é uma abstração com fronteiras em permanente mobilidade – o filme Russian Ark, por exemplo, enfrenta brilhantemente o dilema infindável russo sobre a identificação com a Europa. Os livros de Tolstói ilustram uma aristocracia bem falante de francês que circula sem qualquer dificuldade pelos meios literários e culturais europeus, e evidencia também o contraste entre camponeses da Rússia profunda, muito mais conectados com a pertença rústica regional.
Em vários outros locais sentimos esta dificuldade de delimitar o começo e o fim do Ocidente. É o caso de Istambul, onde coexistem uma série de vivências tão marcadamente asiáticas como europeias. O Museu da Inocência, romance turco do prémio Nobel Orhan Pamuk, deambula precisamente por estas fronteiras.
No país dos meus pais (e que é também o meu), é difícil saber onde começa e acaba o Ocidente. Cabo Verde, um país africano, reclamou a sua africanidade durante a luta anticolonial. Cabral representava uma coligação altamente improvável do ponto de vista da elite cabo-verdiana, tendo conseguido coligar a independência da Guiné-Bissau com a de Cabo Verde.
Mas hoje, Cabo Verde é o exemplo no mundo ocidental de uma democracia liberal bem-sucedida. O movimento literário mais conhecido do país (Claridade) reclamava o seu excepcionalismo crioulo relativamente à restante África continental. A crioulização é, evidentemente, um processo complexo, difícil e distintivo. No entanto, o desejo de ser ocidental, de «branquear a raça» ainda demonstra como esse caráter ascensional do colonialismo bruto ficou embrenhado nas psiques dos sujeitos colonizados. «É o triunfo final de um sistema de dominação quando os dominados começam a cantar as suas virtudes», dizia Ngũgĩ wa Thiong’o, autor africano proeminente.
De alguma forma, a dúvida sobre o que é o Ocidente sempre foi sentida no meu corpo. É fácil não pensar sobre estas categorias quando somos o cânone (afinal, são os oprimidos que são obrigados a ver os opressores). É até fácil determinar estas reflexões como irrelevantes. Mas quando são manobradas como elemento de exclusão e divisão, somos obrigados a enfrentá-las de frente e a analisarmos quem somos face a esse processo de estranhamento que nos provocaram.
Quando Johny Pitts escreve, no seu livro Afropeu, o reforço desta proposta de reformulação de lugar de identidade, está a tentar encontrar uma identidade que consiga contemplar múltiplas afinidades geográficas, históricas e sociais. Essa tentativa de reconciliação mostra que é preciso mais do que a mera coexistência num espaço geográfico para determinar a capacidade de produzir pertença numa comunidade mais alargada.
É fácil olhar para o Ocidente através da fratura da modernidade. Afinal, por exemplo, para construir belos palácios belgas foram necessários a brutalização, o trabalho forçado e, inclusive, o genocídio dos congoleses. Foram estes métodos de extração de valores que garantiram a vantagem «competitiva», a partir da qual muitos países se impuseram na modernidade. Essa colonização não foi só externa. Desde a subalternização e racialização dos irlandeses à supressão de culturas autóctones (muitas vezes correspondendo à opressão de culturas pagãs através dos monoteísmos) na Europa central. A própria construção de muitos Estados Nação foi muitas vezes profundamente violenta.
Hoje apresenta-se-nos um novo maniqueísmo: odiar o Ocidente por tudo o que esta partedo mundo provocou ou venerá-la acriticamente, de forma a confluir esta identidade na reconstrução da supremacia.
Desconsiderando a valorização moral que faço de ambas as propostas (propositamente simplificadas), preocupa-me o que vejo nelas em comum: a imposição de uma única identidade histórica a um bloco cultural tão denso, complexo e contraditório entre si. Este é o modelo ideal para invisibilizar os conflitos históricos que nos trouxeram até aqui. Ao retirar do cânone, por exemplo, o combate contra o trabalho infantil na Bélgica, a resistência comunista em Portugal, permitimos que se construa uma visão na História na qual a conquista de direitos é uma demonstração da «evolução» ocidental.
A apropriação da ideia de amar um país pela reação é algo extremamente preocupante, a meu ver. A ideia de que o «pecado» original de fundação destas nações bem como as atrocidades cometidas até aos dias de hoje em seu nome (vejamos a mortandade em Gaza ou no Mediterrâneo), encapsula o monopólio da representação da História de uma significativa parte do mundo. É comum para muitos anular a luta de classes como motor fundamental do desenvolvimento histórico.
Estão a mentir-nos sobre o passado para nos poderem continuar a mentir sobre o futuro. Não se pode aceitar que amar um país seja equivalente a odiar uma parte significativa da sua população, ou a cristalizar essa identidade para escolher quem se deixa de fora.
Eu amo o meu país porque amo as pessoas com quem partilho a minha vida, as ruas onde aprendi a ser pessoa. Amo o meu país, Portugal, porque desejo que seja melhor. Amar não é negar. É ser capaz de assumir a História em pleno, de a questionar, de assumir que a mudança está sempre a acontecer e que nós vamos criar um tempo novo dessa história. Esse amor ninguém me tira.
Andreia Galvão. Formada em Ciências da Comunicação pela NOVA FCSH. Terminou a licenciatura em Erasmus na Sorbonne Nouvelle onde decidiu voltar à area artística. Hoje em dia é mestre em Teatro - Artes Performativas pela Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa. Co-fundou uma companhia de teatro: "A rafeira- estrutura de criação". Atualmente é mestranda no Conservatoire National des Arts et Metiers em Économie Social et Solidaire. Vive a vida de forma militante e tem sempre muitas perguntas.



