[QUEM ÉS TU, OCIDENTE?]

19.6.2026
David Murray, Portrait of Dido Belle and Lady Elizabeth Murray, late 1770s, Scone Palace, Perth
David Murray, Portrait of Dido Belle and Lady Elizabeth Murray, late 1770s, Scone Palace, Perth

Confesso que sempre tive uma relação difícil com o Ocidente. Primeiro porque é, geralmente, difícil relacionarmo-nos com um mito. O Ocidente é uma abstração com fronteiras em permanente mobilidade – o filme Russian Ark, por exemplo, enfrenta brilhantemente o dilema infindável russo sobre a identificação com a Europa. Os livros de Tolstói ilustram uma aristocracia bem falante de francês que circula sem qualquer dificuldade pelos meios literários e culturais europeus, e evidencia também o contraste entre camponeses da Rússia profunda, muito mais conectados com a pertença rústica regional.

Em vários outros locais sentimos esta dificuldade de delimitar o começo e o fim do Ocidente. É o caso de Istambul, onde coexistem uma série de vivências tão marcadamente asiáticas como europeias. O Museu da Inocência, romance turco do prémio Nobel Orhan Pamuk, deambula precisamente por estas fronteiras.

No país dos meus pais (e que é também o meu), é difícil saber onde começa e acaba o Ocidente. Cabo Verde, um país africano, reclamou a sua africanidade durante a luta anticolonial. Cabral representava uma coligação altamente improvável do ponto de vista da elite cabo-verdiana, tendo conseguido coligar a independência da Guiné-Bissau com a de Cabo Verde.

Mas hoje, Cabo Verde é o exemplo no mundo ocidental de uma democracia liberal bem-sucedida. O movimento literário mais conhecido do país (Claridade) reclamava o seu excepcionalismo crioulo relativamente à restante África continental. A crioulização é, evidentemente, um processo complexo, difícil e distintivo. No entanto, o desejo de ser ocidental, de «branquear a raça» ainda demonstra como esse caráter ascensional do colonialismo bruto ficou embrenhado nas psiques dos sujeitos colonizados. «É o triunfo final de um sistema de dominação quando os dominados começam a cantar as suas virtudes», dizia Ngũgĩ wa Thiong’o, autor africano proeminente. 

De alguma forma, a dúvida sobre o que é o Ocidente sempre foi sentida no meu corpo. É fácil não pensar sobre estas categorias quando somos o cânone (afinal, são os oprimidos que são obrigados a ver os opressores). É até fácil determinar estas reflexões como irrelevantes. Mas quando são manobradas como elemento de exclusão e divisão, somos obrigados a enfrentá-las de frente e a analisarmos quem somos face a esse processo de estranhamento que nos provocaram. 

Quando Johny Pitts escreve, no seu livro Afropeu, o reforço desta proposta de reformulação de lugar de identidade, está a tentar encontrar uma identidade que consiga contemplar múltiplas afinidades geográficas, históricas e sociais. Essa tentativa de reconciliação mostra que é preciso mais do que a mera coexistência num espaço geográfico para determinar a capacidade de produzir pertença numa comunidade mais alargada. 

É fácil olhar para o Ocidente através da fratura da modernidade. Afinal, por exemplo, para construir belos palácios belgas foram necessários a brutalização, o trabalho forçado e, inclusive, o genocídio dos congoleses. Foram estes métodos de extração de valores que garantiram a vantagem «competitiva», a partir da qual muitos países se impuseram na modernidade. Essa colonização não foi só externa. Desde a subalternização e racialização dos irlandeses à supressão de culturas autóctones (muitas vezes correspondendo à opressão de culturas pagãs através dos monoteísmos) na Europa central. A própria construção de muitos Estados Nação foi muitas vezes profundamente violenta. 

Hoje apresenta-se-nos um novo maniqueísmo: odiar o Ocidente por tudo o que esta partedo mundo provocou ou venerá-la acriticamente, de forma a confluir esta identidade na reconstrução da supremacia.

Desconsiderando a valorização moral que faço de ambas as propostas (propositamente simplificadas), preocupa-me o que vejo nelas em comum: a imposição de uma única identidade histórica a um bloco cultural tão denso, complexo e contraditório entre si. Este é o modelo ideal para invisibilizar os conflitos históricos que nos trouxeram até aqui. Ao retirar do cânone, por exemplo, o combate contra o trabalho infantil na Bélgica, a resistência comunista em Portugal, permitimos que se construa uma visão na História na qual a conquista de direitos é uma demonstração da «evolução» ocidental. 

A apropriação da ideia de amar um país pela reação é algo extremamente preocupante, a meu ver. A ideia de que o «pecado» original de fundação destas nações bem como as atrocidades cometidas até aos dias de hoje em seu nome (vejamos a mortandade em Gaza ou no Mediterrâneo), encapsula o monopólio da representação da História de uma significativa parte do mundo. É comum para muitos anular a luta de classes como motor fundamental do desenvolvimento histórico.

Estão a mentir-nos sobre o passado para nos poderem continuar a mentir sobre o futuro. Não se pode aceitar que amar um país seja equivalente a odiar uma parte significativa da sua população, ou a cristalizar essa identidade para escolher quem se deixa de fora. 

Eu amo o meu país porque amo as pessoas com quem partilho a minha vida, as ruas onde aprendi a ser pessoa. Amo o meu país, Portugal, porque desejo que seja melhor. Amar não é negar. É ser capaz de assumir a História em pleno, de a questionar, de assumir que a mudança está sempre a acontecer e que nós vamos criar um tempo novo dessa história. Esse amor ninguém me tira.

Andreia Galvão. Formada em Ciências da Comunicação pela NOVA FCSH. Terminou a licenciatura em Erasmus na Sorbonne Nouvelle onde decidiu voltar à area artística. Hoje em dia é mestre em Teatro - Artes Performativas pela Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa. Co-fundou uma companhia de teatro: "A rafeira- estrutura de criação". Atualmente é mestranda no Conservatoire National des Arts et Metiers em Économie Social et Solidaire. Vive a vida de forma militante e tem sempre muitas perguntas.