[PRIMEIRO COMO TRAGÉDIA, DEPOIS COMO TRÁGICO]

12.1.2026
«Expansion! The western patrol's long stretch» Louis Dalrymple (1905)
«Expansion! The western patrol's long stretch» Louis Dalrymple (1905)

O imperialismo expansionista americano marcou a política externa dos EUA durante o século XIX e no início do século XX. A compra das Ilhas Virgens dinamarquesas e do Alasca (à Rússia) marcaram um período em que os Estados Unidos procuraram afastar de vez a influência das potências coloniais europeias através do controlo territorial da sua esfera de influência. Esta política, conhecida como a Doutrina Monroe, justificava-se, aos olhos dos americanos, com a consolidação da sua independência e autonomia face aos velhos impérios. Era um isolacionismo que tinha como principal objectivo a afirmação dos EUA como uma potência autónoma, sem interferir nos assuntos europeus. A reinterpretação gradual desta doutrina, com a presidência de Franklin Roosevelt e o Good Neighbor Act, pareceu apontar para o fim da lógica imperial que dominou o mundo ocidental durante séculos. Porém, a Segunda Guerra Mundial, as sucessivas intervenções militares resultantes da disputa geopolítica no contexto da Guerra Fria e o exercício sinuoso da pax americana, mostraram como os EUA não abandonaram a doutrina da sua esfera de influência, tanto pelo soft power (americanização da cultura através da globalização) como pelo hard power (Vietname, Coreia, Chile, Iraque, Afeganistão, Líbia).  

Donald Trump veio confirmar isso mesmo, agora na versão «Donroe». Nas duas campanhas eleitorais, Trump criticou as intervenções militares do Iraque e Afeganistão, acusou a administração Obama de erros geo-estratégicos no caso da mudança de regime na Líbia, defendeu várias vezes a ideia de que os EUA deviam focar-se nas questões de segurança interna e advogou um isolacionismo proteccionista que foi contra anos de políticas neo-conservadoras dos «falcões» militares americanos. Esse discurso deu a entender que Trump procuraria romper com o imperialismo americano que elevou e manteve os EUA no estatuto de hiperpotência. Muitos chegaram mesmo a temer uma passagem de testemunho para a China, comprometendo os interesses do bloco ocidental. Quem assim pensou, enganou-se.

Trump não é diferente dos neo-conservadores, nem assim tão diferente do fascismo europeu dos anos 30. Se por um lado não abandonou a lógica oligárquica do poder nem enfraqueceu o lobby do armamento, por outro adoptou uma política autoritária de controlo da população através de uma força policial extrajudicial (ICE), fazendo lembrar os camisas negras de Mussolini ou as SS de Hitler. Sempre apoiado e gerido, qual marioneta, pelas vontades das Big Tech, com a «PayPal mafia», liderada pelos cabecilhas Elon Musk e Peter Thiel. Nunca a Gestapo sonhou em ter ao seu dispor uma Palantir para controlar os seus cidadãos e bombardear os civis inimigos. Donald Trump tanto prometeu uma era de paz baseada na força e no bullying comercial dos aliados como expressou indiferença perante os abusos do Direito Internacional perpetrados pelas potências russa e chinesa. O rapto militar de Nicolás Maduro nem foi mascarado com uma suposta intervenção pela paz ou para trazer a democracia ao povo venezuelano. Pelo contrário, a abertura de Trump relativamente aos seus objetivos petrolíferos deveria perturbar qualquer cidadão que preze o Estado de Direito e a soberania dos povos e das nações.    

O que encontramos hoje na administração Trump é uma re-edição kitsch do fascismo totalitário, agora na era do tecnofeudalismo. Uma espécie de Rei Sol da era digital, maquilhado com a displicência que pauta o discurso contemporâneo nas redes sociais. A brutalidade da ganância capitalista estufada com o totalitarismo monárquico do algoritmo. Somos todos espectadores, zombificados, de um reality show sobre a falência da democracia liberal, em que Trump vai despedindo, um a um, todos os princípios que faziam da América um baluarte da legitimidade do Ocidente. Hoje, Trump, Putin ou Xi não se diferenciam em nada, a não ser na cor da gravata. Todos partilham o mesmo projeto ideológico de poder: pragmatismo, imperialismo militar, controlo digital e policial da população, demonização das minorias, culto da personalidade e desdém pelo Direito. Com a acçãomilitar ilegal dos EUA na Venezuela, assistimos em primeira mão ao mais recente episódio de uma série mastigada e ruminada pelos ventos do capitalismo tardio. Se a Ucrânia estreou a temporada, Taiwan avizinha-se como cliffhanger.  

A Gronelândia pode muito bem vir a ser a Polónia dos nossos tempos. À semelhança de 1939, toda a Europa é um enorme Chamberlain, pronta a vergar-se perante quem lhe rosna. Se o falhanço dos liberais em 1929, e a ascensão do fascismo e nazismo, foi a tragédia com as consequências que todos estudámos nos manuais de História, a arrogância e prepotência dos neoliberais desde 2008, que abriu as portas ao populismo do homem forte, não é nada menos do que trágico para o futuro de todos nós.

O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1945.

Ricardo N. Henriques é professor de Filosofia no ensino secundário, doutorado no ramo de História da Filosofia, pela Universidade Nova de Lisboa. Gosta de cinema, futebol e política.