[UM AGRADECIMENTO]

19.1.2026
Demonstration in Battersea (1939), by Clive Branson. Photograph: © The Estate of Clive Branson
Demonstration in Battersea (1939), by Clive Branson. Photograph: © The Estate of Clive Branson

Olá,

Escrevemo-vos, cheios de felicidade, para agradecer a vossa presença no primeiro evento do Desatempo. No passado dia 17 de janeiro, estivemos na livraria Salted Books a conversar sobre a impotência política da esquerda, a necessidade de novas sínteses transformadoras para derrotar as violências do presente e do passado e os novos caminhos a desbravar na luta política coletiva. A conversa foi teórica, foi prática, foi de camaradagem e de pensamento plural e coletivo. Só acompanhados conseguiremos transformar o mundo que, à nossa volta, carrega nuvens de tempestade iminente. 

Só com a conversa e o pensamento em coletivo seremos capazes de superar as desigualdades e violências que assolam as nossas vidas. Falámos igualmente de comunidade: como podemos, perante o omnipresente neoliberalismo que nos atomiza, isola e adoece, (re)construir laços que nos permitam não apenas reorganizar o mundo existente, mas criar um mundo absolutamente novo? O tempo foi uma discussão central nesta conversa: o tempo do capital, o presentismo, o cancelamento do futuro, as temporalidades políticas impostas pelas agendas da direita e da extrema-direita. 

Desta conversa, saímos mais convictos de que o Desatempo pode ser um espaço de partilha, diálogo, criação e imaginação. Ao mesmo tempo, saímos um pouco mais otimistas de que uma conversa a muitas vozes, recuperando esse sentido de comunidade, nos poderá encaminhar para um futuro de luta e esperança. Muito obrigada a todas as pessoas! Estamos desejosas de vos voltar a ver!

No nosso evento, o João leu um texto que tinha escrito a propósito do livro Sair da Nossa Impotência Política. Neste e-mail, partilhamos o texto do João, exatamente por representar tão bem todos os nossos desejos, ambições e medos um ano depois da criação do Desatempo. 

Não há volta a dar: sentimo-nos impotentes.

Sentimo-nos impotentes na luta política, nas mudanças em curso diante dos nossos olhos, na crescente ação repressiva do Estado. Já em 2020, Geoffroy de Lagasnerie escrevia: «As forças reacionárias mais brutais levam a melhor sobre as forças progressistas, sem que pareçamos ser capazes de as refrear e de as impedir de ganhar terreno.» Perante a impotência, o que fazer?

Lançamos o Desatempo há um ano. Lançámo-lo para criar mais um espaço de fuga – uma fuga da posição reativa em que se encontram as forças progressistas à escola global, de uma esquerda que parece apenas reagir à ação fascizante do Estado, sem conseguir construir uma visão alternativa do mundo. Para tentarmos, regressando às palavras de Lagasnerie, «instaurar a nossa própria temporalidade política.« Passado um ano, continuamos a pensar em como sair da nossa impotência política. 

Criticamos o carácter reativo das forças progressistas, mas ela também nos é inevitável: como não querer restabelecer a verdade no lamaçal de mentiras disseminadas pela extrema-direita? Como não sentir a tentação de «ir a debate» com as propostas do governo, sabendo perfeitamente que, ao fazê-lo, acabamos por alimentar o seu próprio debate, o seu ritmo, as suas ideias? Como se cria uma nova temporalidade política? Como impomos o nosso ritmo?

Ao fim de um ano, temos mais perguntas e continuamos sem respostas. Convidamos vários cronistas, continuamos a publicar ensaios regularmente, procuramos fugir à espuma dos dias sem por isso nos demitirmos da luta política no quotidiano. Com os tambores da guerra a ecoar no fundo e as buzinas das campanhas eleitorais a ensurdecer-nos os ouvidos, tentamos pensar a longo prazo. Só assim será possível imaginar a nossa vitória, um dia, no futuro. 

Mas por onde passa essa luta a longo prazo? Podemos ouvir Lagasnerie novamente: «o campo que conseguir pôr os jovens do seu lado, que convencer aquelas e aqueles que estão destinados a serem abrangidos, sairá vencedor da batalha, pois, com o tempo, os mais velhos sairão de cena e serão substituídos pelas novas gerações.» E se, seguindo a sugestão do filósofo francês, o nosso olhar se focar nos mais novos, naqueles ainda mais novos que nós, e não no diálogo constante com a classe dominante? E se, em vez de almejarmos para a Assembleia da República, virarmos as nossas forças para os liceus e universidades? 

Qualquer pessoa que esteja em contacto com jovens portugueses em idade de liceu, aqueles que, em poucos meses ou anos, votarão, tem consciência da força que a extrema-direita ganhou ao longo dos últimos tempos. Se Lagasnerie tiver razão, isso significa que estamos apenas no início do que será uma catástrofe de proporções crescentes em alguns anos. Se considerarmos que os atuais governos ocidentais são autoritários, como serão quando esta nova geração os liderar, em 20 ou 30 anos? As sementes da nossa destruição estão a ser semeadas. 

A disputa política que almejamos tem de ser feita com os jovens, no contacto direto com eles, nos espaços de ensino, para ambicionar algum tipo de mudança das consciências a longo prazo. Temos de pensar trinta anos à frente. Caso contrário, cairemos na depressão da derrota, no sentimento de impotência. 

Mas, para avançarmos para este trabalho de luta pela hegemonia, temos de definir o nosso guião. E talvez seja esse o contributo do Desatempo: a contribuição para a elaboração de um guião para a luta política. Continuaremos a publicar ensaios sobre poder e resistência – não apenas para nos regozijarmos com vírgulas bem-postas e grandes palavras de ordem, mas para prepararmos a nossa ação. Para nos «infiltramos nas estruturas da vida quotidiana», citando Lagasnerie novamente, inscrevendo a identidade progressista na vida.

Não é apenas em tempos de eleições autárquicas que nos podemos lembrar do local. É agora, mais do que nunca, o momento de nos virarmos para os nossos bairros, freguesias, cidades, e de implementarmos a nossa visão através de várias estratégias que não passam (apenas) por vitórias eleitorais, mas pela criação de novas consciências. As possibilidades de organização são infinitas: clubes de leitura nas nossas bibliotecas municipais, passeios históricos, conferências, festas, jantares solidários para um público abrangente.

No Desatempo, procuraremos lançar iniciativas como estas, em que nos reunimos, ao longo dos próximos meses. Mas, para tal, precisamos dos vossos contributos – daqueles que nos leem, que seguem esta newsletter. Precisamos da vossa ajuda para passar à ação, das vossas ideias. Em que tipo de eventos gostariam de participar? Mais importante, que formas de luta pela inscrição das nossas ideias na vida quotidiana conseguem imaginar? Escrevam-nos. Falem connosco. Aqui, as vossas ideias podem ganhar vida. Não cedam à impotência política. 

Deixamos, para terminar, o mesmo pedido que vos deixámos no dia 17 e que o João vos escreve. Escrevam-nos com as vossas ideias, inquietações, propostas e sugestões. Queremos ouvir-vos, queremos conversar a muitas vozes. 

Até breve,

A Equipa do Desatempo.