[CINZENTO]

15.1.2026
 The execution of Lady Jane Grey, Paul Delaroche, 1833
The execution of Lady Jane Grey, Paul Delaroche, 1833

Cinzento,  in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa:

1. Que é da cor da cinza (ex.: barba cinzenta; sapatos cinzentos). = CINZA

2. [Figurado] Que tem pouca luminosidade ou não tem luminosidade suficiente (ex.: dia cinzento; tempo cinzento). = ESCURO ≠ CLARO, LUMINOSO, RADIANTE

3. [Figurado] Que não tem brilho, vivacidade ou interesse (ex.: existência cinzenta). = DESINTERESSANTE, MONÓTONO ≠ COLORIDO, LUMINOSO, RADIANTE

5. [Figurado] Que denota ou inspira tristeza (ex.: mundo cinzento). = LÚGUBRE, SOMBRIO, TRISTE ≠ ALEGRE, COLORIDO

6. [Figurado] Que tem condição ou carácter pouco definido, indistinto ou intermediário (ex.: essa ainda é uma área bastante cinzenta). = INCERTO, VAGO ≠ CLARO

cacofonia

He said, she said. Ele era um homem educado, bem falante. Ele era simpático com toda a gente e sempre respeitou as pessoas com quem trabalhava. Ele tem uma carreira de sucesso: é um investigador brilhante, um político de renome, um grande advogado, um jovem talento com a vida pela frente. Não acredito que seja verdade. Ele não tem cara disso. Ela? Ela é uma oportunista. Porque é que ela não disse nada antes? Ela é uma mentirosa. Porque é que continuou ali depois do que lhe aconteceu? Ela é uma ordinária. Já viste as fotografias que ela publica no Instagram? Ela é complicada, completamente maluca. Sabes que ela já dormiu com imensos homens? Ela só quer destruir a vida dele. Agora já não se pode seduzir? 

Vá lá, sê divertida, leva as coisas de forma mais leve. Ele estava só a fazer-se a ti (não sabe bem quando os homens nos elogiam e nos desejam?), podes simplesmente dizer que não. Ele estava só irritado, ele não queria fazer-te mal, compreendes que ele teve um mau dia? 

Olha, a sério, já chega desta conversa, porque é que tu te puseste a jeito? Porque é que foste tão simpática? Porque é que te envolveste com ele em primeiro lugar? Porque é que bebeste tanto? Porque é que puseste fotografias despida na internet? Porque é que entraste no gabinete dele? Ou na casa dele? Porquêporquêporquêporquê.

Esta situação é cinzenta. Mais ninguém ouviu. Mais ninguém estava na sala. São só comentários. É só uma mão. Às vezes dizes que não, mas o teu corpo quer dizer que sim. Ele achou que tu estavas a gostar. Os contornos da situação são pouco definidos. Se calhar, não ouviste bem; talvez não disseste vezes suficientes; se calhar, não o empurraste como devias; não foste uma vítima como deve ser. 

E o discurso torna-se de ti para ti. Uma parte de ti gostava dele. Quiseste acreditar que estavas a gostar. Se calhar isto até pode ser piada? Aquele jogo não te importava assim tanto. Cool girl is hot. Cool girl is game. Não querias fazer-lhe mal. Ele tem amigos e família, ele conhece tanta gente. Para a próxima, sê uma vítima melhor. 

Um turbilhão de ideias, de recriminações, de encolher de ombros, de sentimentos ambíguos, de náuseas, de raiva, de desprezo, de exclusão, de incompreensão, de vergonha. A memória fica turva. Toda a gente repete que é complexo, até mesmo quem quer ajudar. Dizem que as provas não são suficientes, que ninguém ouviu, que ninguém viu, que não há um caso. Estas coisas são muito cinzentas. Um cinzento profundo, confuso. Da cor da luz difusa e incomodativa dos dias em que as nuvens cobrem a luz do sol, mas não inteiramente. Aquela luz cinzenta que nos dá dores de cabeça. Sob o fundo cinzento, a vítima cai de joelhos, não consegue ver. Ela é que foi posta no cadafalso da moralidade e da honestidade. O cinzento é o sinónimo do moralmente ambíguo, do que é sujeito a interpretações contrastantes. Mergulhemos, então, nos cinzentos da violência de género. 

as vítimas perfeitas e as vítimas imperfeitas 

No livro Viver com Homens (2025), Manon Garcia reflete sobre o caso de Gisèle Pelicot, mulher francesa que tinha sido drogada pelo marido durante largos anos e violada não só pelo próprio, mas também por outros homens que ele convidava para sua casa. Esteve sob o efeito de pesadas drogas durante todas as violações e não as sentiu, tendo sabido delas mais tarde, por outros meios. Todas as violações foram documentadas em vídeo e armazenadas em pastas cuidadosamente organizadas pelo marido. As provas da sua culpa e dos homens que haviam visitado a residência Pelicot eram cabais. Garcia reflete sobre como Gisèle surge como a vítima perfeita: uma mulher casada, mãe e avó, enganada pelo seu marido de longa data, com um caso irrefutável. Para o sucesso do seu julgamento, contribuíram a sua enorme coragem, mas também a dificuldade de quem estava do lado dos homens em imprimir qualquer imoralidade ou ambiguidade em Pelicot. Alguns advogados de defesa ainda tentaram fazê-lo, mas acabou por não funcionar. Dominique Pelicot foi transformado numa figura monstruosa e irrepetível, como se os seus crimes (partilhados por dezenas de homens que escolheram violar Gisèle)  não estivessem inscritos na horrível banalidade das estatísticas da violência sexual contra mulheres. A Gisèle foi permitido ser uma boa vítima.

Em 2009, Cristiano Ronaldo violou Kathryn Mayorga. Independentemente das consequências jurídicas, o futebolista admitiu que a vítima havia pedido claramente para parar várias vezes e repetido a palavra «não». Esta não foi uma boa vítima. Kathryn era modelo, jovem e bonita, bebeu, saiu à noite e subiu até ao quarto do hotel com o futebolista. Foi já perante o ato sexual que disse que não queria. Teve pensamentos suicidas, não se conseguiu levantar da cama, desistiu de trabalhos. Acabou por aceitar compensações financeiras. Tanta gente pareceu tomar este acordo como uma admissão da mentira de Mayorga e prosseguiu alegremente a ver jogos da seleção portugueses e a celebrar golos marcados por um homem que admitiu ter feito sexo anal com uma mulher que lhe pedia que parasse. Esta vítima era demasiado cinzenta. 

Em 1977, o realizador Roman Polanski foi formalmente acusado de ter drogado e violado uma rapariga de treze anos aquando de uma sessão fotográfica. Polanski drogou o champanhe de Samantha Geimer e violou-a repetidamente. Na sua defesa, chegou a dizer que a criança de treze anos teria mostrado estar a gostar da relação sexual. Vários foram os homens da indústria do cinema que saíram em defesa de Polanski e que, ainda hoje, defendem a liberdade artística e a projeção dos seus filmes. Mesmo sendo uma criança, a ideia de que Samantha teria aceite fazer uma sessão fotográfica com o realizador e beber do champanhe que ele lhe tinha oferecido parecia justificar a violação de que foi vítima. Até uma criança era demasiado cinzenta. 

Parecem-nos histórias agoniantes, brutais e de uma rara violência. Talvez o «parecem-nos» não seja uma boa expressão. Uma em cada quatro mulheres experienciou violência sexual antes dos dezoito anos, 42% das mulheres entre os dezoito e os vinte e nove anos na União Europeia já foram vítimas de assédio sexual no trabalho. Uma em cada três mulheres do planeta já foi vítima de violência doméstica. Como diz Margarida Vila-Nova no seu monólogo À Primeira Vista, olhem para a esquerda, olhem para a direita. Uma em cada três de nós. Quantas são vítimas perfeitas? Quantas foram vitimadas por homens respeitados e educados?

Quantas dessas vítimas se afogam neste cinzento irrespirável? As nossas amigas que foram drogadas contra a sua vontade e que se culparam a si próprias por terem aceite uma bebida de quem as drogou. As que conhecemos que foram violadas pelos maridos e namorados e que, sabendo que era uma violação, ficaram em silêncio porque a culpa era sua por estarem na sua cama. As desconhecidas que, depois de chegarem ao quarto do homem, decidem que, afinal, não querem ter sexo e que, ainda assim, são forçadas a tê-lo e que, de lá, saem a sentir-se culpadas por terem dito que não tarde demais. Somos essas mulheres e conhecemos essas mulheres. I’m sorry that bad things are going to happen to you, diz Agnes à bebé Jane no monólogo final do filme Sorry Baby (2025). Olhamos para as estatísticas e sentimos a sombra da probabilidade de sermos parte desses números. Quando pensarem em assinar uma carta a chamar de mentirosa uma mulher que conta a sua história de violência sexual, talvez se possam lembrar-se que bad things are going to happen to you e que a probabilidade de ser uma vítima perfeita – sóbria, séria, recatada, que escolhe o momento ideal para denunciar, que não é promíscua ou festiva – é altamente improvável. 

O que pode salvar uma vítima imperfeita? Provas legais? Forenses? Capturas de ecrã? Eu diria outra coisa. O que salva uma vítima imperfeita somos nós, todas as outras mulheres que sabem que a imperfeição não é um convite a que tomem posse do nosso corpo e bem-estar. Outras mulheres que foram vítimas imperfeitas do mesmo homem simpático e respeitável. 

os bons agressores e os maus agressores

Na lógica patriarcal, tal como nas vítimas, há agressores bons e agressores maus. Já falámos de Dominique Pelicot, o monstro. Ao dele poderíamos juntar nomes como Harvey Weinstein, Jeffrey Epstein ou P. Diddy. Todos eles largamente considerados anomalias grotescas nas relações entre homens e mulheres. Boaventura será talvez o caso mais consensualmente condenado na história mais recente do nosso país. O patriarcado parece ser hábil a enclausurar a monstruosidade da violência sexual em casos extremos para não termos de lidar com o seu caráter estrutural. Apontar o dedo a alguns pervertidos escolhidos e atribuir-lhes características de psicopatia ou de loucura (que, naturalmente, podem ser verdadeiras) é também uma forma de pessoalizar um debate estrutural num par de maçãs podres. Ora, estes são os agressores horripilantes, cuja magnitude dos seus atos nos permite fingir que eles não são comuns. 

Como já disse e repeti, a partir de uma certa idade na vida de uma mulher, torna-se num lugar-comum ter passado por namorados agressivos, avanços sexuais indesejados, chefes assediadores e sombras estranhas na noite. Dessa mescla da banalidade da violência sexual, emergem os bons agressores. Tantas vezes, a figura do agressor banal surge da nossa intimidade, dos nossos amores, das nossas amizades. Aí, face à violência ou ao assédio, somos confrontadas com a clássica questão: «queres destruir a vida dele?».  

Uma acusação e uma possível condenação por violação, violência doméstica ou assédio sexual parecem ser instrumentos para destruir a vítima de um agressor. Ouvimos recorrentemente que «por causa dela» um jovem promissor ou um homem respeitável e de família viu a sua vida ruir, a sua carreira terminar e a sua exposição pública desaparecer. Eles eram bons homens e foram destruídos por medusas vingativas, por mulheres frígidas e compreensivas ou por ordinárias que depois se arrependeram. Ou por oportunistas políticas ou carreiristas, ou por ciumentas. As desculpas são muitas. Listá-las é angustiante. Mas são estas narrativas de pena pelo homem (boys will be boys ou qualquer coisa sobre o macho latino) que cometeu um pequeno erro de falta de controlo que carregam o cinzento tempestuoso da violência sexual. Reconhecer que um agressor é simpático, profissional, divertido ou respeitador parece ser sinónimo de atenuar a sua culpa, de tornar impossível o ato de que é acusado. Um homem tão educado nunca diria uma coisa daquelas – citando José Miguel Júdice, que recentemente saiu em defesa de João Cotrim Figueiredo. 

Não obstante, poucas vezes pensamos que o ato desse homem destruiu a vida de quem o acusa. A vergonha, a raiva, a perda de confiança, o medo do encontro sexual, os pensamentos suicidas ou a simples solidão e incompreensão: não destroem uma vida? A lembrança aguda do toque não querido, da sujeição à humilhação verbal, da dor, da vergonha de ter perdido controlo sobre o corpo: não destroem uma vida? 

De que me interessa saber que o homem que violou a namorada enquanto ela dormia se dizia feminista? De que interessa saber se o assediador sexual fazia voluntariado? De que me interessa saber se o que drogou uma rapariga na noite era um estudante de medicina promissor? A mim, não me interessa absolutamente nada. Não existem bons e maus agressores. Apenas agressores. Apenas homens que se proclamam donos de corpos que não são seus. 

o cinzento da legalidade

No livro In the Dream House (2019), Carmen Maria Machado, relatando um caso em que viveu violência doméstica, afirma que: «Most types of domestic abuse are completely legal». Esta frase surge a flutuar numa página que, de resto, está totalmente em branco. Quando a li pela primeira vez, fiquei muito tempo a olhar para ela. Pensei em todas as violências que não cabem nos trâmites da lei, que nunca caberão porque esta lei não foi feita para as julgar. A autora relata uma relação em que sofreu violência psicológica e confessa ter, a um certo ponto, desejado ter marcas de violência física para que fosse mais fácil explicar aquilo pelo qual passava e para evitar duvidar de si própria. 

Se uma violação ou um espancamento deixa, muitas vezes, marcas físicas e provas palpáveis, o mesmo não acontece com a vastidão de outras violências que recaem sobre as mulheres. O cinzento que permanece é também aquele no qual a uma violência não corresponde uma materialidade. No qual pode não ter existido sequer um contacto físico. É o cinzento de lembrar algo que foi dito e não algo que foi feito. Assim, abre-se a cinzenta dúvida da desconfiança perante a nossa própria memória, perante as nuances do tom, do que se qualifica como violento, do que se diz que é uma brincadeira, do que é moralmente certo ou errado. Estamos a pensar demais numa coisa sem importância? Aquilo aconteceu mesmo? Não gostávamos, nos dias mais absurdos, de poder agarrar ou de sentir aquela violência para sentir que ela é real? Para sabermos que não enlouquecemos? 

A prova cabal de uma conversa que ocorreu numa sala fechada entre duas pessoas é quase impossível, a menos que esta tenha sido gravada. Não há testemunhas, nem provas materiais. Apenas duas palavras, uma contra a outra. Duas interpretações do sucedido. Uma convence-se de que pode dizê-lo, outra acha que não lhe devia ter dito isto. Como se prova, para lá de qualquer dúvida razoável, o assédio sexual numa sala fechada? Como se prova a violência psicológica entre quatro paredes? Como se prova que as palavras de uma pessoa que causou um dano de dimensões impensáveis? Se ninguém tiver ouvido, se não se conhecer outras vítimas, se estivermos absolutamente sozinhas. Cinzento, cinzento, cinzento. E assim fica ela, a navegar numa cor tão desagradável, à espera de uma outra cor que agrade mais a quem decide sobre o bem e o mal.

já chega de cinzento?

Já falei suficientemente de cinzento? Já se sentem enjoados e aborrecidos desta cor? Mudemos, então. Deixemo-nos do falso cinzento para encarar os momentos que flutuam no éter forjado por essa cor. Aqui ficam exemplos, alguns reais, alguns famosos, alguns imaginados, para que possam pensar se realmente acham que o cinzento é uma cor digna de atribuir à violência sexual. 

Ela e ele eram amigos há anos. Ela confiava nele em absoluto. Ela nunca imaginou que ele pudesse ter algum interesse por ela. Ela e ele foram juntos a um festival de verão com mais amigos. Ela bebeu uma sidra. Ele ofereceu-se para ir buscar-lhe uma segunda. Ela lembra-se de ter acordado sem roupa na tenda dele. Ele disse-lhe que ela estava bêbada e que tinha querido. Ela sentiu-se mal porque não queria fazer aquilo. Ela sentiu-se mal porque achou que a culpa era dela. Ela continua a torturar-se com esta noite. Ele, provavelmente, continuará a repeti-la com outras elas. Uns anos antes, este ele decidiu que queria dormir com uma outra ela. Ela não estava interessada. Como estavam numa festa na mesma casa, sentiu-se no direito de se atirar para cima dela e começar a masturbar-se. Ela empurrou-o e fugiu a correr. Só percebeu quando já tinha saído de casa que estava descalça. 

Ele é um homem muito respeitado na sua área. Toda a gente sabe que é um homem inteligente e culto, que escreveu textos que desbravaram o pensamento político e sociológico no seu país. Ele tornou-se um homem poderoso, que maneja com facilidade quem sobe e quem desce na hierarquia da sua instituição. Não poucas vezes, ele usa o seu estatuto para tentar persuadir alunas e orientadoras a dormir com ele. Quando não aceitam, seguem-se toques e aproximações indesejadas. Ele, tal como muitos outros eles, diz-lhes (a elas, claro) que tem o poder para acabar com a sua carreira. Se elas continuarem sem aceitar, ver-se-ão excluídas de grupos de investigação, de conversas informais onde se tomam decisões importantes. A vida delas fica arruinada. Mas todos dirão que foram elas a querer arruinar a vida dele.

É de noite. Meio da noite, está totalmente escuro. Ele e ela estão a dormir. Ele e ela têm uma relação amorosa. Eles vivem juntos e, portanto, costumam dormir quase sempre na mesma cama. Ela acorda e ele já está dentro dela. Ela sente dor. Isto nunca lhe tinha acontecido. Ela diz a si própria que talvez isto seja uma experiência sexual diferente, que talvez até esteja a gostar. Ela diz que não. Ele diz que sim e para que ela não fique assim, porque não é nenhuma virgem. Para ela não se pôr a estragar tudo. Ela diz que não. Mas ela depois deixa. Ele adormece. Ele e ela nunca falarão sobre isso. Os casais fazem sexo, não é verdade? - pensa ela. Ele nunca mais terá pensado nisso. Ela agora pensa cada vez menos nisso. Mas gostava de nunca ter tido de pensar numa coisa assim.  

Ele é um político de enorme destaque. Ele tem dezenas de pessoas a trabalhar para ele. Ele tem uma mulher, filhos e netos. Ele é um homem de família e é conhecido por todos os órgãos de comunicação social. Ele é bem-querido. Ela é só ela. Ela tem ideias, tem vontades, sonhos, desejos. Ela é nova e entusiasmada por conhecer o homem que admira. Ela gosta de trabalhar ali. Até que, este homem tão bem-educado lhe pede, entre gracejos, que faça sexo com ele. Ele faz-lhe perguntas sexualmente intrusivas. Ela não sabe o que fazer. Ela acaba por ter de sair deste espaço. Ele continua a sua vida de prestígio. Ela sentiu-se humilhada e perdeu um pouco de esperança naquilo em que acreditava. 

Ela fica chocada quando recebe um e-mail dele a elogiar as suas pernas naquela saia. Ele era professor dela. Ele era um professor respeitado. Ele era um homem comprometido com causas progressistas. Ela não tinha papas na língua. Não aceitou que assim fosse. Fez queixas; foi pouco ou nada ouvida. Ela falou contra outras elas. Partilhavam histórias semelhantes. Uma dessas elas tinha mesmo acabado por dormir com este professor, face à sua insistência. Ele deixou de dar aulas por outros motivos. Nunca nenhuma consequência pairou sobre ele. Ela, a que havia recebido o e-mail, contou a muita gente, fez questão de que todas soubessem. Eu admirei-a. 

Ele e ela estão numa relação. Ao início, tudo corre bem. O início é muito pequeno. Ele grita com ela. Insulta-a. Insulta as suas características, o seu corpo, as suas capacidades intelectuais, os seus gostos, as suas opiniões, a sua personalidade, as pessoas de quem mais gosta. Às vezes ela sabe que vem aí uma tempestade de insultos. Outras, é apanhada de surpresa ao dizer qualquer frase que ele não acha certa. Ela achava que isto não se fazia a uma pessoa de quem se gostava, mas não tinha a certeza. Ele dizia que a saúde mental dela precisava de tratamento. Ela acabou por saber que aquilo não estava certo. Ela tinha medo dele, medo da raiva, medo do insulto, medo de não ser suficiente. Ela, um dia, arranjou um nome para dar a tudo aquilo e foi-se embora. Ficou uma lembrança para repetir às amigas mais novas.  

Toda a gente sabia que ele era um professor maluco, totalmente destrambelhado, sem medo do «politicamente correto». Muitos diziam-no achando alguma graça à personagem. Ele dizia nas aulas que as pessoas muçulmanas eram macacos. Ele dizia que já não conseguia ter ereção. Ele dizia que a homossexualidade era uma doença. Ele comentava o corpo das alunas à frente de toda a turma. Ela escreveu, num relatório de avaliação da cadeira, todas estas coisas. Palavra por palavra. Ela e as amigas e muitas outras colegas. Elas criaram um processo contra ele. Muitos acharam excessivo. Achavam graça a um homem «desbocado». Ele foi suspenso, barafustando pela internet que tinha sido cancelado. Ele voltou a dar aulas um ano depois. Elas continuaram a vida, mas provavelmente terão aprendido uma lição amarga de que as instituições que se dizem mais democráticas são, por vezes, os espaços de impunidade mais flagrante.

Todos estes casos poderão cair no cinzento da legalidade. Mais do que isso, são casos em que as vítimas são necessariamente imperfeitas. Cederam, não denunciaram, beberam um copo, amaram quem lhes fez mal, acharam que tudo aquilo era aceitável, duvidaram da sua memória (e da sua visão e audição), admiraram a pessoa que depois se tornou o agente da violência contra si. Esforço-me e releio relatos, ouço testemunhos. Cresce em mim uma raiva que não é cinzenta. Os casos repetem-se e não sinto neles nenhuma ambiguidade moral. As estatísticas somam-se e crescem, e tenho dificuldade em não ver o que, de repente, é tão claro: uma vítima imperfeita, sempre a caminho da sua execução pública, e um homem para quem as desculpas e os compadecimentos se vão somando.

e que mais?

No fim deste texto, gostava de deixar alguns avisos à navegação. Não quero, com estas linhas, dizer que não existem mulheres que mentem, nem que não existem homens prejudicados por mentiras. Tão pouco quero dizer que as mulheres são as únicas vítimas de violência sexual. Não é minha intenção pôr em causa o Estado de Direito ou a presunção de inocência de qualquer pessoa. Com este texto, navegando pelos cinzentos, quis tentar chegar a duas conclusões fundamentais que tiro face às mais recentes acusações de assédio sexual a propósito de um candidato presidencial. 

Talvez a primeira e mais importante conclusão seja que a mulher acusadora é sempre a primeira a ser julgada. Mal levanta a mão para apontar para o homem que alega tê-la assediado, violado ou violentado, uma corja de vozes vem dizer-lhe que é mentirosa, descuidada, cínica, oportunista. A imperfeição é imediatamente apontada à vítima. Dizem que a situação é complicada. Ele não pode ter dito aquilo. E, se disse, então ela se calhar não percebeu bem o tom dele. Isto não foi nada de sério. 

Uma segunda conclusão: a complexidade – que frequentemente recorre à metáfora do cinzento como cor entre o bem e o mal – é sistematicamente usada como justificação para a inação. Se isto é verdade nos casos mais brutais e esmagadores de genocídios, massacres ou invasões, é igualmente verdadeiro no caso da violência contra as mulheres. Há poucas vítimas perfeitas. Há muito poucas mulheres perfeitas. Todas as mulheres acabam vasculhadas até se encontrar a nódoa que permite alegar a complexidade da situação. A ambiguidade e a complexidade permitem-nos dormir melhor à noite e passar à frente as notícias turbulentas sobre os políticos de quem gostamos.  

Muitas destas histórias nunca passam de rumores entre mulheres solidárias. E talvez seja aí que resida a semente da transformação que nós próprias queremos operar no contexto de justiça. Não tenho nenhuma resposta inteligente sobre o que fazer. Ficam apenas interrogações. E uma ideia. Falem, contem, desabafem. Digam a todas as vossas amigas o que eles vos fizeram. Digam a todas as mulheres quem são os homens que vos arruinaram a vida. Se todas soubermos, mais nenhuma caminhará vendada e sozinha para o ingrato pelourinho da humilhação pública. 

Fincher, David, dir. Gone Girl. 2014. EUA: Twentieth Century Fox.
Garcia, Manon. Viver com Homens: Reflexões sobre o caso Pélicot. Lisboa: Livros Zigurate, 2025.
Machado, Carmen Maria. In the Dream House: A Memoir. Minneapolis: Graywolf Press, 2019. 
Miller, Suzie. À Primeira Vista [Prima Facie]. Tradução/encenação portuguesa de Margarida Vila-Nova. 
Victor, Eva, dir. Sorry, Baby. 2025. EUA/França/Espanha