Poucas palavras se prestam a tantos enganos como «Progresso» – assim mesmo, com pê grande, de forma ironicamente romântica.
A visão liberal do progresso e o respetivo anátema
Nos países do chamado «Norte Global», que puderam historicamente exportar as externalidades negativas do desenvolvimento económico e técnico para o resto do mundo, a ideia foi hegemónica provavelmente por mais de um século. Ninguém é, ou se assume, como sendo contra o «Progresso» – pelo menos, até agora. Aliás, tal acusação, a de se ser contra o «Progresso», tem sido um hediondo anátema (no sentido original da palavra, que remete para demonização do acusado). Alguém «antiprogresso» é um inimigo da civilização, não chega a ser uma opinião, antes uma patologia.
Talvez isso esteja a mudar. A crença liberal (mas abraçada por todo o espectro ideológico aceite durante décadas) de que a combinação de desenvolvimento científico e democracia formal garantiria uma expansão do bem-estar, não apenas das elites, mas do conjunto da sociedade, parece esgotar-se. Pelos mais diversos motivos – sendo, certamente, um deles o facto de a crise climática e a emergência da IA tornarem as externalidades do «Progresso» de difícil exportação para os países do Sul.
O ingénuo simétrico do aceleracionismo
Surpreendentemente, é neste contexto que se renovam e reafirmam as identidades políticas construídas em torno do «Progresso», mais uma vez nas várias latitudes do mapa político.
No lado direito do espectro, temos uma gama de visões, convergentes em essência, mas variáveis em grau, que têm num extremo o aceleracionismo frenético dos grandes tecnoburgueses estado-unidenses e a sua fuga perramente para o espaço, para a engenharia climática, para «superinteligência» artificial, para tecnologias que superem a morte. O novo fascismo é acompanhado por um novo futurismo, em que a ruptura dos limites da vida e da sociedade pela tecnologia é vista não como uma forma de promessa de bem-estar geral, como no mito liberal, mas como instrumento supremacista na disputa global por poder e recursos. Contudo, como as outras ideias que irradiam das alas extremas do novo conservadorismo (sim, a revolução conservadora é paradoxal, mas real), esta fé encontra versões mais «moderadas» em grau, mas assentes nos mesmos pressupostos. Exemplares, neste quesito, são as declarações do Primeiro-Ministro de Portugal, Luís Montenegro, em plena crise causada pela introdução apressada da digitalização dos exames escolares: «Mesmo que aqui ou ali as coisas possam correr menos bem, nós vamos arriscar na mesma.» Ou seja, os riscos da introdução das tecnologias devem ser sempre assumidos como sendo menores do que os de não a fazer. Não foi esta uma frase descuidada ou casual, mas sim expressão de um dogma ideológico. No 1.º Encontro de Ciência e Inovação, precisamente quando milhares de alunos e professores enfrentavam a pressão e a insegurança causadas pela introdução apressada desta tecnologia, Montenegro reforçou a litania: «Também aí não nos importamos de arriscar. Mesmo que aqui ou ali as coisas possam correr menos bem, nós vamos arriscar na mesma. Até por uma razão moral, porque se nós incitamos a sociedade a fazê-lo, nós temos de ser os primeiros também a dar o exemplo.» O patamar não é apenas tecnológico, político ou económico: é moral. Assim, a lógica é a mesma da de Elon Musk e Sam Altam, o matiz é dado pelo lugar ocupado na hierarquia capitalista (em que o PM é, claro, um subalterno e Portugal um território marginal). Enquanto os lordes da IA assumem que potenciar ao máximo a IA é o caminho para, inclusive, poder lidar com os riscos existenciais que assumem existir; Montenegro fica-se pela digitalização forçada dos exames escolares, independentemente do dano causado. Uns arriscam o futuro da humanidade, outro, por não poder almejar tanto, apenas o sucesso escolar de alguns milhares de alunos e as férias de outros tantos professores. Mas a fé, a moral, a ideologia e o dogma são os mesmos. Estamos perante uma forma de fanatismo, portanto. Mas não desinteressada e meramente ideológica: a crença tem sempre raízes materiais. E, além da competição geopolítica que não permite a desaceleração, a introdução forçada, destravada, da tecnologia, apresentada como um fim em si mesma, é também, no contexto de uma nova revolução industrial, uma arma de «destruição criativa». Trata-se de usar as características disruptivas das novas tecnologias para impor, à margem da regulamentação técnica e do controlo democrático, desenhados à medida de outros tempos e ritmos, novas posições de poder, alargando as fronteiras da dominação política e da extração de valor a novas áreas da realidade – os dados pessoais, os recursos naturais, o tempo de descanso, as relações afetivas. Revolucionar as formas, para conservar o conteúdo – a dominação de classe. Revolução conservadora e luta de classes.
Curiosa é não apenas a existência de uma espécie de ideologia simétrica à esquerda, historicamente entendível, apesar de tudo, no período do idealismo liberal, mas a sua renovação e reafirmação, pretensamente atualizada e inevitavelmente ingénua, precisamente no momento em que as bases para a crença no progresso se esbroaram. Mas é o que está a acontecer, eventualmente como adaptação algo oportunista à imposição aceleracionista das direitas e do reforço do anátema ludita sempre pronto a ser disparado contra a quem a ousa enfrentar. O que é verdade é que, entre algumas esquerdas, a fé não é menor, nem o lastro. Pelo contrário, tem até uma história e um nome: «Progressismo».
O «Progressismo» é um nada que é tudo. Não é uma teoria nem uma prática política; não tem autores de referência sólidos, para lá de alguma citação batida de Condorcet que se possa, coerentemente, pedir ao ChatGPT. Distingue-se do futurismo do século passado e dos aceleracionismos presentes por ser gradualista; aproxima-se deles por crer num sentido da História. Como se fossem gémeos simétricos – os primeiros malévolos e perigosos e o segundo cândido e benevolente.
Tem, no entanto, uma particularidade. O «Progressismo» não existe fora de uma curta bolha politizada. Fora dos partidos de esquerda e da sua periferia imediata, ninguém se define como «progressista». Entre largas camadas da população não organizada politicamente, haverá socialistas, e comunistas, pessoas de esquerda, democratas e, principalmente, muita gente que não se etiqueta de nenhuma forma, mas que se revê em muitos dos valores e propostas destes espaços políticos. Mas não há, na barbearia, no mercado ou na fábrica, «progressistas». Ninguém se designa a si próprio como tal fora de bolha politizada.
Se toda a esquerda tem um problema de autorreferencialidade – falar para fora tomando como gerais referências que são só suas –, o «Progressismo» é o epítome desse mal. O que não quer dizer que o «Progressismo» não seja importante. É-o por ser definidor, paradigmático, quase que uma caricatura, de alguns dos traços amplamente maioritários da esquerda ocidental (não é, aliás, a «esquerda», um conceito ocidental?). O «Progressismo» é isso mesmo, ideologia. No sentido clássico que Marx dava a essa palavra – uma explicação ilusória do mundo com base nas ideias e não na matéria, consequentemente, um véu que cobre e justifica o statu quo. E, por isso, o «Progressismo» merece ser pensado criticamente. Deixo aqui algumas objeções iniciais nesse sentido.
A locomotiva da História
As e os revolucionários do século XIX e XX tenderam a pensar a revolução como «locomotiva da história». A expressão é de Marx e, contêm, em si mesma, a negação da visão gradualista do «Progressismo». Segundo ela, a história avança por saltos bruscos, por ruturas destrutivas que abrem caminho à edificação do novo, substituindo em curtos espaços de tempo paradigmas centenários – ou seja, por revoluções. Porém, se ignorarmos essa vertente, encontramos nesta citação algumas ideias que moldaram a mundividência das esquerdas, mesmo as não-marxistas (particularmente essas, aliás). A primeira prende-se com o papel da tecnologia de ponta. Devemos entender que a expressão «locomotiva», no contexto em que foi proferida, tem um valor semelhante ao que teria hoje «Inteligência Artificial». Por trás, há uma ideia de que a tecnologia se relaciona intrinsecamente com o desenrolar da história humana rumo a novos patamares de bem-estar e abundância. É uma visão ingénua sobre a tecnologia.
A tecnologia incorpora sempre, em diversos graus, traços das relações de poder das sociedades onde é criada. Isso é verdade para os combustíveis fósseis, por exemplo, que vingaram no início da era industrial não pelo ser poder energético, mas pela possibilidade de concentração, apropriação e de controlo que tinham face às renováveis (lembremos que foi a energia eólica e hídrica que, num primeiro momento, alimentaram a indústria do algodão, base da revolução industrial). Algo de semelhante se poderia dizer sobre os rumos do desenvolvimento atual da IA, que segue modelos de escalamento, obrigando a grandes concentrações de dados e de energia, logo, a grandes oligopólios centralizados, e favorecendo a rapina dos bens comuns de informação. Tal como, nos alvores da época industrial, outras relações de produção, mais comunais ou socializantes, não teriam obrigado à substituição das renováveis pelo carvão, hoje, ainda é possível mudar as relações sociais que estão a determinar um modelo catastrófico de desenvolvimento da IA. Porém, o «Progressismo» (aquele que se define como tal, mas também o das esquerdas, eventualmente mais radicais, que têm a mesma visão superficial do papel da tecnologia na história) têm aí um ângulo morto, uma vez que atribuem à tecnologia um valor intrinsecamente positivo. A crítica que esboçam é, na melhor das hipóteses, a do martelo: pode construir uma casa ou partir um crânio, dependendo das mãos que o manejam. Se a superficialidade neste terreno pode não ter sido um problema maior durante as décadas que nos antecederam, num período de nova revolução industrial e de crise ecológica profunda, já não é bem assim.
O problema é que, por ser ideologia, o «Progressismo» não pode promover uma visão dos grandes problemas – a natureza da História e da tecnologia – que não seja uma adaptação «progressista» das coordenadas do pensamento dominante. Porque o «Progressismo» é, ele próprio, isso mesmo. Já foi explicado, por exemplo, pelo cientista russo Boris Hessen, como a física de Newton – com o seu espaço vazio, plano, e os movimentos infinitos e regulares dos astros – refletia as crenças ideológicas e religiosas da sua época. Stephen Jay Gould, estado-unidense, paleontólogo e divulgador da ciência, demonstrou como a ideia comum da teoria da evolução como uma escada de vários patamares em que os organismos evoluem do mais rudimentar ao mais complexo – o ser humano, claro – é expressão da visão capitalista do mundo, de desenvolvimento gradual e antropocêntrico. As ciências naturais ditas puríssimas são, elas próprias, atravessada por vieses ideológicos que expressam as ideias dominantes de cada época (que, como já foi dito, são sempre as ideias das classes dominantes). A visão positivista da história, de um avanço linear da história, da barbárie em direção ao «progresso», tendo o desenvolvimento tecnológico como vetor, padece do mesmo mal. A ideia da tecnologia neutra, ou mesmo uma visão simplista e redutora das formas como ela se relaciona com as relações sociais de poder, é, ela própria, uma ideologia naturalizadora das formas de dominação vigentes. São, contudo, estas as bases do «Progressismo». Aliás, não só do «Progressismo» que se assume como tal, mas, de forma mais geral, das forças políticas que partilham dessas crenças. O estalinismo foi (e é) outro reflexo destas crenças liberais, por exemplo, com a sua fé prometeica no desenvolvimento técnico e no produtivismo cego, plasmado na crença herdada do capitalismo de que cabe ao «Homem» dominar a Natureza.
Teleologia doutrinária
Esta não tinha porque ser a herança ideológica das esquerdas. Cabe lembrar o alerta do velho Engels: «Não nos regozijemos demasiadamente em face dessas vitórias humanas sobre a Natureza. A cada uma dessas vitórias, ela exerce a sua vingança.» Essa lição não foi, contudo, apreendida. É pelos flancos abertos da teoria crítica que as forças anticapitalistas se deixam contaminar pelas crenças do próprio capitalismo. E, como acontece nas paredes de uma qualquer casa de campo exposta à humidade ribeirinha que se levanta de madrugada, as pequenas infiltrações, cedo ou tarde, esfarelam as arrogantes paredes crentes da sua indestrutibilidade. Na época da quarta revolução industrial, em que o que está em jogo não é apenas o equilíbrio social e ecológico de uma parte da sociedade, mas de todo o planeta e da civilização, os bolorentos repassos intelectuais cobram o seu alto preço. Percebemos que, mesmo entre os críticos da anarquia do mercado e da ordem económica dominante, as mentes não se libertaram da crença fatalista nas «cadeias do destino». Ainda é uma crença divina que subjaz ao pensamento tido como científico e o «Progressismo» é a versão atualizada dessa prisão mental.
Definindo-se como «a ideia de que a história se move para a frente conduzida pela ação humana», o «Progressismo» e quem o professa não pararam para pensar que, se a história tem uma «frente» – uma direção pré-definida, que lhe é prévia e externa – precisamos de imaginar uma entidade a-histórica que decrete, lá das alturas por nós mortais inalcançáveis, que direção é essa?
O feitiço é transversal. Nas expressões revolucionárias ou estalinistas das velhas esquerdas sectárias, ele aparecia como a ideia de uma «linha justa», aquela que estava pressuposta no desenvolvimento histórico e que cabia a lideranças infalivelmente messiânicas revelar – e não à elaboração coletiva construir. Não haverá aqui alguma relação com o aceleracionismo estridente e narcísico dos tecnoburgueses e das suas empresas que consideram sempre necessário seguir em «frente» no desenvolvimento e na aplicação de tecnologias potencialmente aniquiladoras – como os combustíveis fósseis e a Super Inteligência Artificial – em vez de parar em nome da segurança comum. São distintos, obviamente, os objetivos e as formas que estas duas crenças assumem. Mas ambas definem, a priori, um «em frente» para o qual a «ação humana» deve conduzir a histórica. Esta teleologia inescapável, nas suas várias formas aparentemente antagónicas, não é mais do que a justificação ideológica inconsciente que as pessoas feitas máquinas, arrastadas pelas leis da acumulação infinita, encontram para chamar seu o passo que lhe é imposto por leis que criaram e não controlam – as do Capital.
A teleologia «Progressista» não escapa à condição de feitiço autoimposto de sujeitos objetificados que se enganam a si mesmos para crerem que têm agência. A emancipação, essa, é outra coisa: a quebra violenta das «cadeias do destino», no terreno material da luta de classes, mas, desde logo, nas expressões ideológicas que moldam a nossa mundivisão. «Emancipemo-nos da escravidão mental, pois só nós mesmos nos podemos libertar.»
Manuel Afonso é militante, pai e assalariado quando possível. Escreve aqui e ali, apostado em diluir a fronteira entre ação e pensamento. Para tentar mudar o mundo.



