[POR DENTRO DA MÁQUINA DE PROPAGANDA ISRAELITA]

1.3.2026
2023, Freedom Plaza, Washington, DC, USA
2023, Freedom Plaza, Washington, DC, USA

Como se constrói uma narrativa – O exército e a identidade israelita

Desde a fundação do Estado de Israel, no ano de 1948, que a propaganda desempenha um papel essencial na sua projeção internacional e na legitimação das suas ações. Ainda muito antes do surgimento das redes sociais e da Internet, o controlo da narrativa já se impunha como um instrumento fundamental de poder. Aquilo que testemunhamos na Faixa de Gaza desde outubro de 2023 transcende os limites de uma mera operação militar: não passa de mais uma campanha cuidadosamente orquestrada, aproveitando o ataque do Hamas, para continuar a expulsão e genocídio do povo palestiniano.

Para que consigamos compreender na totalidade o poder da propaganda israelita, é importante conhecer o papel das FDI (Forças de Defesa Israelitas) como o melting pot da sociedade. Tendo em conta a perspetiva de Benedict Anderson sobre nações como comunidades imaginadas, podemos notar que, no caso israelita, essa construção da nação israelita passa fundamentalmente pela experiência do serviço militar. O exército funciona como a única instituição capaz de unir uma população completamente fragmentada, composta por imigrantes de origens muito diferentes, numa sociedade minimamente coesa.

Este «militarismo profundo» presente na sociedade israelita moldou uma realidade em que a fronteira entre o civil e o militar é praticamente inexistente. A partir de 1948, com a implementação do serviço militar obrigatório, todos os cidadãos israelitas têm de iniciar o serviço militar aos 18 anos, tornando as FDI no principal veículo de construção nacional. Como argumenta Bresheeth-Zabner, as sucessivas guerras tornaram-se momentos de coesão social, como uma espécie de tribo reunida em torno de uma fogueira, transformando cada operação militar num ritual de reforço da identidade coletiva.

Para termos uma noção do impacto do exército na identidade de cada israelita, a sua preparação para a vida militar começa ainda antes dos 18 anos. Aos 14 anos, os jovens aderem à Gadna, que consiste em batalhões juvenis, onde têm o seu primeiro contacto direto com a vida militar. Na escola, nos seus manuais escolares, os feitos do Estado israelita são glorificados e a narrativa da pertença divina dos judeus à terra que ocupam é reforçada. Tal como nos demonstra a filóloga israelita Nurit Peled-Elhanan, esses manuais escolares manipulam o passado histórico, criando estereótipos e usando linguagem discriminatória para descrever o povo palestiniano, descrevendo todas as ações do Estado de Israel como moralmente superiores. Esta autoridade moral permite que Israel transmita à comunidade internacional a imagem de «exército mais moral do mundo», um escudo retórico contra qualquer acusação de crimes de guerra e de genocídio.

A esfera pública israelita, assim como a dos judeus na diáspora, foi sempre influenciada por uma ansiedade existencial permanente, particularmente no pós-Holocausto. Na sociedade israelita, o indivíduo passou a identificar-se fortemente com o coletivo, e os sionistas perceberam desde cedo que os media eram essenciais para levar a cabo o seu projeto. A relevância dada ao discurso da solidariedade e da unidade levou a uma intransigência em relação a qualquer discurso visto como ameaça à unidade israelita e judaica, o que afetou profundamente a imparcialidade do jornalismo em Israel.

Os media israelitas funcionam sob o que é apelidado de responsabilidade nacional: apoiar os interesses do coletivo definidos pelas lideranças políticas. Os jornalistas que os líderes sionistas consideravam representar bem o seu papel eram aqueles que atuavam simultaneamente como porta-vozes das lideranças sionistas e como propagandistas. Nahum Sokolow, conhecido como o pai do jornalismo do Estado israelita, produziu uma vasta propaganda sionista tipicamente conhecida como Hasbara, misturando o papel dos políticos, dos jornalistas e dos propagandistas na esfera pública israelita.

Numa entrevista em 1999, Shamgar expôs que os noticiários eram uma versão israelita da Pravda, sendo que os espectadores acreditavam estar a ver notícias quando, na realidade, era pura propaganda. Neste caso, as instituições encomendavam reportagens, decidiam o que seria filmado, o que o orador diria, etc. O conteúdo era cuidadosamente escolhido por políticos, oficiais do governo e membros do Jewish National Fund. Segundo um estudo de opinião pública, os judeus israelitas têm um nível de confiança nas FDI superior a qualquer outra instituição, inclusive ao governo, tornando as críticas ao exército dificilmente aceitáveis pela sociedade israelita.

A Propaganda detrás do ecrã – Influencers, Pinkwashing e a Desumanização.

Um dos episódios que levaram Israel a investir na sua presença nas redes sociais foi o ataque à flotilha Free Gaza em 2010. Nessa altura, as FDI já tinham presença nas várias redes sociais, como o Twitter, o YouTube e o Facebook, mas estavam longe de ser a máquina de propaganda no mundo digital em que se tornaram a partir de 2012. O ataque desproporcional à flotilha foi alvo de duras críticas quando os membros a bordo partilharam, nas redes sociais, imagens do sucedido. Foi aí que a liderança israelita percebeu que, nos dias em que corriam, qualquer pessoa com uma câmara e acesso à Internet poderia contrariar as suas narrativas, precisando de intensificar a sua propaganda online para combater casos semelhantes.

A capacidade de mobilização política demonstrada durante a Primavera Árabe levou a que, em 2012, durante a invasão de Gaza, conhecida como Pillar of Defense, as FDI utilizassem o Twitter para postar atualizações sobre os seus ataques em tempo real. Sacha Dratwa, então diretor da unidade de social media nas FDI entre 2010 e 2012, confirmou o sucesso desta estratégia, alegando que teria chamado tanto à atenção que os media fizeram mais perguntas sobre a sua atividade no Twitter do que propriamente sobre os seus ataques em Gaza. Essa invasão ficou conhecida, pelos órgãos de comunicação internacional, como «Israel’s first social media war».

A unidade de porta-vozes das FDI existe desde 1948, tendo crescido gradualmente até 2008, ano em que se tornou numa das maiores unidades em Israel, contando com cerca de 400 oficiais no ativo e 1200 na reserva. A divisão de comunicação externa foi a que mais ganhou destaque, contando com mais funcionários para a comunicação nas redes sociais e para o público internacional do que para a comunicação doméstica. Em 2011, Sasha Dratwa viria a explicar a razão deste crescimento, comparando a importância da presença digital à do campo de batalha, alegando que, na era digital, os computadores e os teclados são equivalentes a armas e que o Facebook e o Twitter são como os campos de batalha, sendo que era aí que as FDI queriam também travar batalhas.

Segundo Antony Loewenstein, autor de The Palestine Laboratory, foi durante a invasão de 2012 que Israel percebeu que a perceção positiva que o Ocidente tinha em relação a Israel e às FDI estava a mudar. As FDI fizeram um grande investimento para ganhar a guerra da opinião pública, contando com cerca de 70 agentes e de 2000 soldados para criar e difundir propaganda nas redes sociais. O «militarismo digital» (Kuntsman & Stein, 2015) manifesta-se nas FDI através da estetização da ocupação da Palestina para consumo nas redes sociais. Durante a atual invasão de Gaza, vídeos de bombardeamentos de edifícios residenciais são editados ao máximo, transformando este massacre num produto visual que normaliza o estado de exceção e «limpa» a imagem que, em contraste, é apresentada pelos palestinianos: Morte, sangue, fome, etc.

Um dos investimentos mais recentes da propaganda israelita é o uso intensivo de influenciadores digitais. Tendo identificado o défice de credibilidade crescente dos media tradicionais entre as gerações mais jovens, o estado de Israel, através de organizações lobistas como a StandWithUs, investiu milhões para comprar a narrativa de terceiros e infiltrar essa narrativa em plataformas como TikTok e Instagram.

Estes influenciadores, grande parte deles sem qualquer histórico de envolvimento político, são recrutados para promover conteúdos que humanizam as ações israelitas, desumanizando ao mesmo tempo o povo palestiniano e justificando a aniquilação de Gaza. Para chegar a nichos de audiência a que jamais chegariam, a propaganda israelita prefere a utilização de influencers da área da moda, estilo de vida, música, etc. Esta estratégia funciona como um rebranding do genocídio porque, a partir do apoio de figuras aparentemente neutras, os crimes cometidos por Israel passam a ser mais aceitáveis e a sua narrativa infiltra-se com maior facilidade na comunidade internacional. Para a propaganda sionista não importa a verdade, apenas o controlo da narrativa. Nos dias de hoje, quem conseguir controlar a narrativa, especialmente no mundo digital, controla a realidade, decidindo quem é a vítima e o agressor.

Israel apresenta-se como um país gay friendly, onde as diversas orientações sexuais e identidades de género são aceites, acusando normalmente os restantes países do Médio Oriente de falta de liberdade no que toca a direitos LGBT. Em 2012, a professora Katherine Franke, da Universidade de Columbia, estudou o uso que vários estados fazem das questões LGBT para fins políticos. Segundo Franke, desde 2006 que Israel via a sua reputação externa abalada, sobretudo depois da invasão ao Líbano, vendo-se na necessidade de criar uma campanha de marketing que fizesse a opinião pública internacional deixar de associar o Estado de Israel apenas ao exército e à guerra, substituindo pela imagem de um país com valores ocidentais e progressistas.

Em 2006, o Ministério do Turismo israelita lançou um website que incentiva o «turismo LGBT» em Israel. Esta estratégia de propaganda é conhecida como pinkwashing, da qual o Estado de Israel tem sido acusado por ativistas do movimento LGBT em todo o mundo. Rasha Younes, investigadora de direitos LGBT na Human Rights Watch, afirma que Israel usa os direitos LGBT como uma espécie de cavalo de Tróia para lavar a própria imagem e apresentar-se como o bastião da defesa dos direitos humanos na região do Médio Oriente.

O objetivo disto é criar um binário em relação aos países árabes, especialmente em relação à Palestina, onde Israel se apresenta como vanguardista e progressista, enquanto os restantes são apresentados como conservadores e retrógrados. Esta ideia está presente na frase que Netanyahu proferiu perante o Congresso dos Estados Unidos em 2011, onde descreveu o Médio Oriente como uma região onde mulheres são apedrejadas, pessoas LGBT são enforcadas e onde pessoas de crentes de outras religiões são perseguidas. Assim, Israel e as suas lideranças aproveitam para explorar um sentimento anti-árabe e islamofóbico muito presente no Ocidente, apagando completamente a existência de pessoas LGBT árabes para ganhos políticos.

Porém, a realidade por detrás desta propaganda contrasta com a imagem concebida. Segundo um inquérito do Israeli Gay Youth Movement, em 2011, quase metade dos soldados LGBT tinham sofrido abusos verbais e físicos nas FDI. Já em 2022, um relatório do State Comptroller revelou que pelo menos um terço das mulheres nas FDI foi vítima de assédio sexual, sendo que 70% das queixas nunca foram devidamente investigadas. Segundo o PEW Research Center (2013), apenas 40% dos israelitas responderam afirmativamente quando questionados se a homossexualidade deveria ser aceite na sociedade. Juntando a isto, em Israel não é possível que um casal homossexual contraia matrimónio.

Dos materiais com maior impacto na propaganda online, o tema mais recorrente e de maior repercussão é a alusão ao Holocausto nazi e ao direito que, segundo os sionistas, os judeus têm à terra que o Estado israelita ocupa. Como refere Loewenstein, o verdadeiro objetivo da estratégia de informação das FDI é instrumentalizar o trauma judeu ao serviço da ocupação do território palestiniano. A instrumentalização ideológica do Holocausto configura o presente como uma luta existencial permanente, sendo que qualquer travão na ação militar seria pôr em causa a existência de Israel e dos judeus, intensificando também a acusação de antissemitismo contra todos os que não hesitam em fazer críticas à atuação do Estado de Israel.

É frequente vermos, nas redes sociais das FDI, publicações onde juntam vítimas do Holocausto nazi e membros das FDI, reforçando a ideia de que a única maneira de evitar que algo semelhante se repita depende de um Estado judaico, como o é o Estado de Israel, com forças armadas altamente capacitadas. Robert S. Wistrich argumenta que a noção de Israel como guardião da memória do Holocausto tem vindo a consolidar-se como um novo mito unificador, a par da religião e do nacionalismo.

É comum ouvirmos líderes israelitas comparar palestinianos e seus grupos de resistência armada aos nazis. Um dos exemplos foi a 17 de outubro de 2023, quando Netanyahu afirmou que o Hamas era os «novos nazis» e que o mundo teria de se unir para os derrotar. Esta retórica pretende criar uma fantasia de uma nova luta contra os nazis que justifique o uso de qualquer meio, ignorando qualquer lei e convenção internacional.

Para o público internacional, especialmente os europeus, este discurso funciona no seu sentimento de culpa causado pelo Holocausto. O complexo de culpa existente encaixa-se perfeitamente na retórica sionista, permitindo, assim, o apoio incondicional da União Europeia a Israel, independentemente da situação, e a rejeição de qualquer crítica às ações do governo israelita. Na Alemanha, este sentimento de culpa é ainda maior, onde, como argumenta a jornalista judia Emily Dische-Becker, a existência de um Estado para judeus é o final feliz do Holocausto para os alemães, aliviando um pouco o seu sentimento de culpa. Por isso, tudo o que interfira com essa narrativa, como a luta dos palestinianos pelo seu território, é totalmente rejeitado pela Alemanha pós-Holocausto.

No entanto, estudos recentes da Anti-Defamation League mostram um desgaste deste discurso no público europeu, com percentagens de 44% na Áustria, 42% na Alemanha e 40% na Bélgica a concordar que os judeus ainda falam demasiado sobre o Holocausto. Além disso, a Geração Z demonstra um crescente apoio ao lado palestiniano, com 50% dos jovens entre os 18 e os 35 anos a simpatizar com a causa palestiniana, por oposição aos 75% dos maiores de 45 anos que simpatizam com Israel.

Toda esta máquina de propaganda, que vai desde a educação, ao controlo dos media, à estetização da violência nas redes sociais, à instrumentalização de causas progressistas, até à exploração da memória do Holocausto, tem apenas o objetivo de desumanizar de forma sistemática o povo palestiniano. Esta desumanização não é um efeito colateral da propaganda israelita; é a sua finalidade, o instrumento essencial que torna possível a ocupação e o genocídio ao longo de tantos anos.

Ao rotularem uma população inteira como «terrorista» ou cúmplice, deixa-se de falar de pessoas em concreto, dos seus sonhos, das suas vivências, da sua família e amigos. Nesta situação passa-se a falar de uma ameaça que é abstrata, que não tem nome próprio. Quando um ser é visto apenas como uma ameaça, é mais fácil normalizar a violência contra ele.

Esta estratégia de desumanização é repetida vezes sem conta. Seja por líderes políticos, por responsáveis das FDI, por jornalistas ou por propaganda nas redes sociais. Ela vai impactar a forma como o público vê este genocídio, sendo que o que antes chocava é agora completamente normalizado.

A ocupação e esta violência brutal tornam-se mais fáceis de engolir quando o mundo deixa de ver pessoas e passa a ver rótulos, quando deixa de ver seres humanos e passa a ver danos colaterais. Sem esta desumanização, seria muito mais difícil ao Estado israelita pôr o seu plano em prática. Se o povo palestiniano fosse visto simplesmente como seres humanos com os mesmos direitos que todos os outros, seria muito mais difícil justificar milhares de mortes.

No fundo, é esta perda de humanidade que permite que hospitais sejam apresentados como alvos legítimos, que escolas sejam descritas como bases terroristas justificando a sua aniquilação, que a morte de milhares de crianças, muitas delas inferiores a um ano de idade, seja explicada como inevitável no meio da «guerra». Esta desumanização explica também o porquê de a maioria dos governos por esse mundo fora se ajoelhar perante Israel, defendendo as suas ações com uma ou outra nota de pesar hipócrita pelas vítimas palestinianas.

Apesar de o que vemos há anos a acontecer na Palestina ser aterrador, queria acabar este texto com uma nota de esperança. A propaganda não convenceu toda a gente. Há quem recuse a desumanização do outro, quem não aceite que se trate um povo inteiro como inferior, quem reconheça que quem vive sob ocupação tem o direito de resistir. A esperança vem das mobilizações populares que crescem dia após dia, ano após ano, e se recusam a deixar a Palestina cair no esquecimento. Seja em diversas ruas por esse mundo fora, nos campi universitários, nos bloqueios de estradas, nas concentrações que juntam milhares, nos boicotes e nas greves. Dos estivadores em Espanha e Itália que pararam portos inteiros, estudantes que ocuparam universidades para dizer não em seu nome, centenas e centenas de corajosos que se fizeram ao mar, tentando romper o bloqueio a Gaza, sabendo que do outro lado lhes esperava um dos exércitos mais brutais do mundo.

Isto mostra-nos que a narrativa e a propaganda não são incontestáveis. Pelo menos enquanto existir quem se questione e quem denuncie.

Beatriz Veira tem 28 anos, é mestre em Comunicação Política pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e atualmente trabalha em Marketing (se bem que preferia estar a tirar um doutoramento num um país qualquer distante do seu). Na sua tese de mestrado, estudou a propaganda como instrumento de construção nacional em Israel, tendo analisado como as narrativas ajudam a moldar identidade e a memória. Fora do trabalho, tanto pode estar num debate aceso sobre política como a acompanhar um jogo futebol feminino, e o seu maior sonho é um dia poder visitar a Palestina.