«When the rains came I got sad for the first time. I thought of my poor baby in the ground being inundated, under the banana palms where she was buried.» Natasha teria sido o nome da criança. Quando isto se passou, Jan Kerouac tinha enterrado a filha há uns dias durante o seu exílio auto-imposto no México. O nado-morto trouxe-lhe um certo alívio, admite. Tinha apenas 16 anos e o pai da criança estava lá perdido nos Estados Unidos. Ela tinha passado a fronteira para que não lhe tirassem a filha à nascença, mas o nascimento tratou de a matar. Jan conta-nos logo no primeiro capítulo que o alívio durou pouco, porque às primeiras chuvas torrenciais imaginou aquele corpo como a sua filha, sentindo-a sua pela primeira vez, angustiada com a impossibilidade de a proteger. A violência crua desta história abre e alonga-se numa densa nota ao longo do livro. Um diapasão pesado e grave, apesar de esta não ser uma obra de comiseração. Pelo contrário, Jan narra os acentuados relevos da sua vida com a língua e a mão soltas, como se dela não se tratasse. Algumas vezes até pegando em boa parte da culpa dos outros e carregando-a nas suas jovens e calejadas costas. Há sempre mais um passo a dar e algo a fazer, mesmo que sem a definição de um grande objetivo. Não sei se Jan queria a vida de estrada, mas foi a vida que encontrou. A narrativa desdobra-se intercalada. Começa no México, adolescente, com a filha e o que dá linha à grande viagem americana que a leva, entre outros, à Costa Rica, Equador, Guatemala e Peru. A outra linha é a da Jan criança a ter de fazer-se mulher. A que viveu Nova Iorque ou a cirandar com a mãe entre os seus subúrbios e romances quebradiços. Essa Jan que toma LSD aos doze anos, que fica em liberdade condicional e eventualmente vai engravidar e fugir para o México. Que antes de partir ainda tem tempo para nos dizer: «I was just in time to witness the reflection of the flattened sun sinking into New Jersey like a mango pit.»
Jan vive a cêntimos quando sai do seu país – estando já habituada a uma existência nos mínimos da subsistência decente. Avança pelo continente com uma falsa ingenuidade e acima de tudo com uma coragem destemida. Deixando, apesar disso, a dúvida se o fazia espontaneamente ou por necessidade – uma tensão não resolvida. Como se seguir em frente, fisicamente em frente, fosse a única opção que pudesse tomar. A viagem e este movimento parece-lhe inato, tanto que nunca é questionado ao longo do livro, da mesma forma que não questionamos cada movimento cardíaco ou salivação. Seguia em longos autocarros e boleias. Mirava os novos destinos com a gente que ia conhecendo – até ter de voltar. Nesta descida do continente coleciona um conjunto de personagens e amantes nem sempre amigáveis. Miguel era um argentino que tinha conhecido a caminho e talvez a mais tenebrosa figura da história. Um ex-criminoso perturbado e atormentado pela própria cabeça. Jan apaixonou-se e não me cabe a mim fazer diagnósticos. Ele tinha ciúmes constantes que o tornavam impulsivamente violento. Os seus ânimos exaltavam-se ao menor pingo de chuva e usava isso para a manipular. «He had demons in his head» foi a única justificação para aquele comportamento. Presa na floresta densa e riachos peruanos com aquele homem e os seus delírios, é aqui que sentimos Jan mais frágil e amedrontada. É quando encara a possibilidade da sua morte às mãos daquele homem. Num golpe espontâneo e acesa pela necessidade de sobrevivência, consegue fugir numa canoa e arranja forma de regressar a Lima em segurança. Jan arranja-se.
Só que a Jan pesa-lhe o apelido. Num dos episódios da sua pré-adolescência foi hospitalizada e ao olhar para o seu nome o médico pergunta se tem alguma coisa a ver com o Jack Kerouac. Sim, filha. A grande figura do movimento Beat, a par de Allen Ginsberg. Embora Jack fosse mais virado para a prosa, a mim apanhou-me na poesia – já escrevi sobre isso. Para Jan, o apelido não lhe cobra apenas por ter um pai famoso; nem por estarem na mesma área. Não entra na possível lenga-lenga do serei tão boa como ele? Jack não fez parte da vida de Jan. Ela pega no On The Road pela primeira vez quando o tal médico lhe oferece uma cópia. Mas claro que antes disso ela já sabia o que era o On The Road e estava a par da mitologia à volta do pai. Aliás, para ela, Jack era mesmo uma figura mitológica e Jan parece por vezes um híbrido abandonado que guarda em si parte desse espírito da estrada, como uma herança difícil de manejar. Para mim, Jack também já foi quase um deus, até me desfazer da mania dos ídolos. A primeira vez que conhece a filha é para fazer um teste de sangue, porque recusava uma paternidade tão evidente nas feições. Jan descreve-o como um homem contido e envergonhado, muito distante das suas narrativas pela América do Norte. Parecia um rapazito num primeiro encontro, diz. Jan conta-nos este encontro colocando-se nos seus pequenos sapatos de criança. Foi uma ocasião que, mesmo forçada, a encheu de júbilo e esperança. Conseguimos imaginar os seus olhinhos azuis apontados para cima em admiração, enquanto acompanhava Jack a comprar mais uma garrafa de vinho. Da segunda e última vez que vê o pai, está ele a viver em casa da mãe e a ver banalidades na televisão enquanto se agarra ao seu «biberão» eterno: a garrafa de whisky. Assim relata Jan. Desta vez já encontrou o seu pai mirrado, rabugento e a sofrer as mazelas de anos de alcoolismo. A visita dura pouco e o olhar envergonhado de Jack, tão distante como o seu corpo, vai fugindo aos olhos da filha, sem querer reconhecer que ela está ali e é parte dele. Nos seus modos brutos, enfiado na poltrona, atira a Jan: «Yeah, you go to Mexico an’ write a book. You can use my name.» Esse apelido foi a única coisa que lhe deu.
Jan foi para o México e muito mais além do México. Passados uns, já exausta em Lima, regressa aos EUA envolta numa sombra nostálgica. Depois das relações atribuladas e das relações perigosas, a perda da filha, estadas com a burguesia peruana e ter de prostituir-se, traz duas lições: não te aproveites das pessoas e depende de ti própria. Com toda a honestidade, não sei se me satisfaz. Jan, à semelhança do pai, carrega uma enorme culpa por existir, uma tendência do catolicismo cultural. Essa culpa, que nem sempre é clara, assombra-a nas suas reflexões e na maneira como se posiciona em relação aos outros. Quando deixa Miguel, sente-se mal por lhe ter talvez dado sinais errados. Miguel era atormentado, sim, mas era vil e manipulador. Também se quis aproveitar dela. Esta culpa leva-a a isolar-se numa autêntica viagem individual em que os personagens são acessórios e tem receio de se apegar demasiado, apesar de ser óbvio que ela é amável e cuidada com os outros. Porque haverá o ónus de ser sempre nela? Porque é que tem de depender só dela?
Este desprendimento talvez seja necessário para se dar à estrada. Na verdade, a única personagem recorrente em toda a narrativa é a sua mãe. A última pessoa que abraça quando segue em direção ao México e para quem quer regressar. É difícil ignorar os paralelos com a história de Jack, porque também este teve de se desapegar de todos e só nunca se conseguiu libertar da sua mãe. Só que no caso dele, a relação maternal era mais doentia – envolta em culpa, dependências e conservadorismo religioso. A vida errante de Jack foi mitificada e perseguida por muitos que viram nas suas viagens e desapego uma forma de libertação – uma certa pujança masculina de seguir e avançar sem olhar a meios. Mas este legado deve ser reavaliado. A outra face das histórias de Jack, quando as ligamos com a sua vida não-ficção, mostram uma paisagem quase degradante do «sonho americano» e a fragilidade da romantização da viagem, principalmente no que toca às relações com os outros. Na pequena obra Tritessa, em que Jack vive uma paixão atribulada no México, é nítido o contraste entre a desagregada socialização estadunidense a que está acostumado e a proximidade mexicana. Jack não conseguiu deixar de ser gringo, ao contrário de Jan, que pelo simples domínio do espanhol, se conseguiu integrar. Paradoxalmente, o constante movimento – natureza da viagem – impede-a de se estabelecer completamente em algum lado e ela traz da sua experiência uma lição isoladora, individualista e, outra vez, cheia de culpa. A perspetiva de Jan mostra-nos, mesmo que não deliberadamente, as contradições desta exaustiva individualidade, o peso da solidão e ausência de comunidade.
Quando Jack morre, os direitos dos seus livros passaram para a sua mãe – avó de Jan. Quando esta morre, é a família da última mulher com quem Jack se casou que herda os direitos com base numa declaração assinada de cruz pela mãe dele. Nos anos 90 isto gera uma enorme indignação em Jan. A legitimidade daquela assinatura era dúbia e de acordo com a lei, caso a assinatura fosse falsa, deveria ser Jan a herdar os direitos. A questão é levada a tribunal e gera um longo caso judicial. Ela, que mal viu um tostão do pai e cuja ausência deixou mazelas, tinha a oportunidade de levar alguma coisa consigo. A herança literária de um great american writer, com todas as suas reedições, reimpressões, coletâneas e obras póstumas, haveria ainda de lhe render uma qualquer quantia simpática.1 Eventualmente, o tribunal dá-lhe razão. Em 2009 este declara que a assinatura tinha realmente sido obtida sem o consentimento consciente da sua avó e o espólio deveria, em teoria, seguir para Jan.2 Só que apenas em teoria, porque Jan morreu em 1996 fruto de complicações no fígado, muitos anos antes de ver a justiça ser reposta. Não teve nas suas mãos nada do seu pai sem ser o apelido quebequense.
Esta obra corre o risco de ser um acessório na parafernália beatnik, um bibelot junto da sua maior figura. Desde a sua primeira publicação (em 1981) foi isso mesmo para muita gente. A filha de Jack soava quase como um conto folclórico. A editora Dead Ink veio fazer renascer esta obra e apresentá-la ao mundo, colocando-a adequadamente na coleção Outsider Classics. Encaixa bem. Jan foi uma outsider e foi colocada de lado, mesmo tendo o sangue tão perto do reconhecimento. Em vida isso não lhe chegou, nem lhe chegaram os tostões do espólio que lhe era devido. Morreu na altura certa para não usufruir de nada. Como é seu costume, o tempo feriu-lhe um golpe cínico, porque só assim o tempo sabe ser. Inconsequente, amoral e absurdo. Só que da mesma forma, o tempo também consegue dar - dentro das suas escalas. Este livro renasce para que se saiba a história de Jan contada por ela, e talvez sirva, de alguma forma assim irracional, para lhe curarmos essas feridas.
António Castro é poeta e escritor por teimosia. Apesar da formação académica em Ciência Política e Economia, preferiu ir escrevendo nas margens. Publicou pela primeira vez em 2020 na revista Lote e há um ano regressou à atividade constante, escrevendo regularmente no seu Substack pessoal. Tem 25 anos e vive em Lisboa.
- Há um documentário no YouTube sobre esta questão, feito antes da resolução do caso.
- https://www.bookcritics.org/2009/08/07/guest-post-jonah-raskin-on-the-legal-battle-for-control-of-kerouacs-estate/ ; https://www.nytimes.com/2009/07/29/books/29arts-KEROUACSMOTH_BRF.html


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