[PAI NOSSO: A DOENÇA DO CORPO E DO IMPÉRIO]

23.6.2026
Pai Nosso - Os Últimos Dias de Salazar, realizado por José Filipe Costa e produzido por Uma Pedra no Sapato.
Pai Nosso - Os Últimos Dias de Salazar, realizado por José Filipe Costa e produzido por Uma Pedra no Sapato.
[Aviso: este texto contém imagens de violência colonial e racista]

No final dos anos 60, o Estado Novo entrava em crise – como se uma doença se alastrasse pelo seu corpo. As guerras pelas independências africanas entravam numa fase decisiva. A pressão da comunidade internacional crescia. As Nações Unidas condenavam as políticas coloniais de Portugal. Os movimentos de libertação africanos conquistavam força no terreno e recebiam apoios da União Soviética e da China. Na Guiné-Bissau, as conquistas do PAIGC, liderado por Amílcar Cabral, punham a nu a fragilidade das tropas portuguesas. A guerra expandia-se em Moçambique e em Angola, sem fim à vista. Com três frentes abertas em África, centenas de milhares de jovens eram enviados para morrer nas colónias. 

É neste momento que, em agosto de 1968, Salazar protagoniza um dos seus mais famosos atos: cai da cadeira. Sofreria um AVC, que o deixaria incapacitado até à sua morte, em 1970. Durante estes dois anos, ninguém lhe diria que já não era o líder da nação. A sua substituição por Marcello Caetano seria cuidadosamente silenciada nos corredores do Palacete de São Bento, para evitar choques e reações violentas. Salazar viveria o fim da sua vida numa autêntica mentira, ignorante sobre os desenvolvimentos políticos que ocorriam fora daquelas quatro paredes. Como escrevia o diário francês L’Aurore em 1969, «Salazar julga que ainda governa Portugal».

O filme Pai Nosso – Os Últimos Dias de Salazar, realizado por José Filipe Costa, retrata este período de doença e mentira a partir da perspetiva do ditador português. Esta doença, tal como o filme sugere, não afetava apenas o corpo de Salazar mas todo o corpo do regime. Por outras palavras, a doença do ditador está intimamente ligada à doença que se expandia pelo império. A doença salazarenta é a doença imperial – mas já lá vamos. 

O filme não é apenas um filme sobre o império. É muito mais do que isso. É uma história de um ditador em estado terminal, de uma crise política mal gerida, de uma ditadura que se procura adaptar a uma nova liderança, das mulheres que rodeavam Salazar nos seus últimos dias. Mas o império está sempre lá, como uma espécie de sombra permanente sobre a vida quotidiana no palacete de São Bento. 

Em Pai Nosso, a sombra do império revela-se, mais ou menos discretamente, de várias formas e feitios. Apesar de tentarem isolar Salazar do mundo real – quanto menos soubesse o «senhor professor», melhor – as notícias de África iam entrando pelo palacete de São Bento adentro. Penetravam o palacete pelos caminhos mais improváveis, sem convite nem permissão. A dada altura, a governanta Maria está a ouvir rádio na cozinha. Farta de escutar Marcello Caetano a falar sobre liberdade de expressão, decide mudar a frequência. Enquanto Maria regressa à mesa, fica a tocar uma música do Duo Ouro Negro, de Raul Indipwo e Milo MacMahon, no fundo. Ouve-se a letra – com contornos racistas – da banda angolana. Os ritmos africanos entram pela cozinha adentro depois de Caetano ser silenciado. 

Uns dias mais tarde, quando a governanta lê o jornal ao ditador, deixa escapar uma notícia que não deveria estar ali – aquele fragmento do jornal escapara à censura prévia exercida por Maria diariamente. A notícia anunciava que as tropas do MPLA tinham feito uma emboscada a um grupo de portugueses em Angola. Salazar, como que desperto de um sono profundo, levanta os olhos com a máxima indignação que consegue – que não é muita. Exige imediatamente a demissão do jornalista. Exige que o diretor da censura vá ao palacete para falar com ele. Exige tudo e mais alguma coisa enquanto a governanta olha para ele, com alguma pena no olhar. Um ditador sem poder, um espetáculo triste. Um homem que já não tem poder para censurar notícias sobre os «terroristas africanos», como lhes chama invariavelmente. Muito menos para os impedir de emboscar tropas portuguesas no mato angolano.

Salazar vê terroristas africanos por todo o lado, acordado e a dormir. Em conversa com um dos seus médicos, o moçambicano Manuel Henriques de Nazareth, um ditador delirante começa por lhe oferecer o cargo de Governador-Geral de Moçambique para, momentos depois, o ameaçar com o encarceramento por simpatias com homens de esquerda. Nazareth passa, num segundo, de herói a terrorista. O anticolonialismo entra pelo palacete e o ditador é incapaz de impor o velho poder imperial. A doença alastra-se pelo corpo do ditador e do império. Salazar assiste às sementes da resistência africana entrarem pelo palacete enquanto o seu corpo se desintegra.

Num raro momento de lucidez, o ditador demonstra que sabe – ele sabe do alastramento da doença, apesar de todos à sua volta o tentarem esconder. Ao analisar um mapa de Moçambique, aponta para as suas estradas. Diz ao ministro que ali se senta com ele: «Parecem as veias de um corpo – mas de um corpo doente. Moçambique está doente. Angola está doente.» Não são apenas as veias do seu cérebro que sangram, mas as veias do continente africano.

Esta é, creio, a metáfora mais forte de Pai Nosso: o corpo de Salazar é o corpo do império, dois corpos com uma doença terminal que se alastra rapidamente. Cada foco de resistência anticolonial é mais um tumor maligno num império canceroso, cuja morte parece inevitável. Cada emboscada aos portugueses e cada perda de território para os movimentos de libertação é uma lembrança de que o fim está próximo. Salazar sabe isto, e o seu desespero cresce. Num dos seus vários sonhos delirantes, que abre com o hino Angola é Nossa, diz a dois africanos: «eu morrerei, mas vocês morrerão comigo.»

A metáfora do corpo e império é demonstrada na perfeição. Podemos observar, na fotografia a preto-e-branco, um grupo de indígenas. «Brutos selvagens», como lhes chama imediatamente a governanta, como reflexo automático. Os adultos estão em pé, no fundo, e à frente estão várias crianças deitadas. Escrevem, com os seus corpos, o nome do ditador português: S-A-L-A-Z-A-R. 

"Álbum Fontoura" (1936-1940). Fonte: PT-AHS-ICS-AF-6-16966

 

«Mas que povo, mesmo bruto e sem saberem as letras, a desejarem as melhoras a partir da selva», diz-lhe Maria. A fotografia é, assim, pintada como uma grande homenagem feita a partir das colónias, desejando as melhoras ao seu líder. É incerto se se trata de mais uma mentira contada a Salazar por Maria ou de uma escolha deliberada do realizador em mudar a ordem dos acontecimentos reais. Porque, na realidade, aquela fotografia é tirada algures no final dos anos 30, e não no final dos anos 60.1 No «Álbum Fontoura», onde se encontra esta fotografia, encontramos inúmeras outras imagens semelhantes. Em todas elas, corpos indígenas formam-se para formar o nome de governantes portugueses.

"Álbum Fontoura" (1936-1940). Fonte: PT-AHS-ICS-AF-6-16967

"Álbum Fontoura" (1936-1940). Fonte: PT-AHS-ICS-AF-6-16968

Deitado na cama, Salazar fica a observar com curiosidade e desconfiança a fotografia. Vistas em conjunto, estas imagens representam a barbaridade com que o colonialismo português tratava os corpos indígenas, sujeitando-os à humilhação para os fins mais abstrusos. A forma como Salazar interpreta a fotografia – como uma homenagem, um tributo natural – demonstra a forma como o ditador vivia no seu próprio mundo, alienado desta realidade. Mas, acima de tudo, a fotografia dos indígenas timorenses é reveladora da metáfora central do filme: corpo e império. O império molda os corpos de forma a dizerem o nome do ditador. Em vésperas da sua morte, é o corpo do ditador que se verga perante a resistência vinda das colónias.

Salazar morreria no dia 27 de julho de 1970. Só que o império ainda estava vivo. Com tumores a espalharem-se por todo o seu corpo, com a perda de um braço chamado Guiné-Bissau em 1973, com os caixões de africanos e portugueses a multiplicarem-se, com a pressão sobre o regime a aumentar. As palavras de Salazar ecoam neste gesto. Vocês morrerão comigo. Só que o império não morreria tão cedo. Foi perdendo outros braços, pernas, pés e orelhas. Primeiro, os membros africanos, os mais importantes. Depois, Timor. Muito tempo depois, Macau, em 1999. Poderá dizer-se que a morte final do império ocorre 29 anos depois da morte de Salazar. 

Mas será assim tão simples? Podemos simplesmente dizer que Salazar e o império estão mortos? Que os seus corpos físicos, após a sua desintegração material, deixaram de produzir efeitos, de ter poder sobre nós? O filme Pai Nosso expõe incontáveis semelhanças entre passado e presente. Vemos nos gestos repressivos de Salazar semelhanças com os atos de governantes de hoje. A utilização de «terrorista» para desacreditar qualquer movimento de libertação ou de esquerda, a divisão do mundo entre civilizados e selvagens, a portugalidade e a sua íntima ligação ao imperialismo bacoco e ao racismo.

Salazar e o império morreram – formalmente, oficialmente, corporalmente. Os seus corpos estão enterrados. Mas, apesar da sua desintegração física, eles ainda pairam aqui entre nós. Como fantasmas que nos assombram a linguagem, os saberes políticos e a imaginação. Enterramos os corpos – mas como se enterram os fantasmas?

1. A fotografia está incluída numa coleção de imagens de propaganda colonial produzida em Timor entre 1936 e 1940, colecionada pelo governador Álvaro Fontoura. Hoje, a coleção está disponível no Arquivo de História Social.