Out of Ireland have we come.
Great hatred, little room,
Maimed us at the start.
I carry from my mother's womb
A fanatic heart.
Se no século XX, Portugal se agiganta na Europa e no mundo com a invenção do multibanco, ou da via verde, no século XXI, cria o «boicote», infame engenho que dominou o discurso público durante o mês de setembro. Esta invenção do boicote, que teve como alvo o grande humorista sionista Jerry Seinfeld, foi abordada ad nauseam durante debates e painéis de comentário político sob diversas perspetivas: liberdade de expressão, virtuosismo de esquerda, ou limites do humor. Aliás, até o conceito de comedy roasts foi chamado à discussão, para entendermos como poderia estar aí a chave para decifrar o papel da política nas artes. Ideias muito interessantes que as estações televisivas lançaram para cima da mesa de jantar e nos forçaram a engolir, uma vez que já não tinham exames nacionais ou tanques/piscinas para comentar (talvez).
Do outro lado do Atlântico, o rapper Macklemore, voz ativa na causa palestiniana, inspirado pelo virtuosismo de esquerda dos portugueses, faz um exercício semelhante e cancela a sua participação na tournée de Ed Sheeran, que não tardou a ficar completamente sozinho e a ler um texto do teleponto. Ora, tal notícia cá não mereceu grande importância, pois isto do boicote já é uma coisa nossa e não precisamos de a importar. Talvez, se Sheeran tivesse um emissário cá, como foi o caso de Seinfeld com César Mourão, e tivesse rogado juras de amor à capital portuguesa, receberia mais atenção. Como não foi o caso, não teve direito a manchete.
Por falar em manchetes, quem lê este texto, a julgar pelo título e pela epígrafe, percebe que não se falará de nenhuma destas ilustres figuras, sejam elas César Mourão ou Macklemore, mas sim da experiência de Sally Rooney, a nossa vizinha de cima irlandesa, também ela uma boicotante com algumas coisas em comum com aqueles que recusaram partilhar palco com Seinfeld: Inês Aires Pereira, Vhils, Cebola Mol ou Javier Bardem (embora não tinha sido convidado, subscreveu o boicote). A experiência de Rooney e, acima de tudo, os resultados deste boicote são especialmente valiosos para desmistificar algumas ideias sobre o que se está a passar em Portugal com o Commedia a La Carte Fest, que se realizará na capital do país no Dia de Todos os Santos.
Pretendo começar por referenciar um longo ensaio com o título «Even if you beat me» (EI), publicado na primavera de 2015, para o Dublin Review, que a romancista escreveu sobre a sua curta mas impressionante carreira como debatente competitiva. Com efeito, apenas com 22 anos, Rooney tornou-se a «número um» no continente europeu, mas pouco tempo depois, pendurou as botas (faço uso de uma metáfora futebolística) e dedicou-se a escrever o que viria a ser a sua triunfante estreia Conversations With Friends (CWF), publicado em 2017. Contudo, antes de bater com a porta (uso agora uma metáfora de carpintaria), deixou-nos este ensaio que é frequentemente ignorado pelos académicos que estudam as obras de Rooney, mas que se tornou especialmente relevante para estudar a posição da autora quanto à tradução dos seus livros para hebraico e à causa palestiniana. Aliás, se Rooney se especializa na escrita do bildungsroman, o romance de formação, não será interessante e relevante olhar para a escrita publicado pela autora durante e acerca do seu período de formação?
No entanto, diria ser mais interessante abordar primeiramente o boicote de Rooney e depois o ensaio, ainda que cronologicamente EI apareça primeiro, pois, em retrospetiva, tanto as suas palavras como ações carregam mais peso. Admito, contudo, que embora Rooney já tenha a sua Routledge Companion, é precoce fazer retrospetivas da autora. Com efeito, precoce é mesmo a palavra ideal para descrever Rooney. Aos 27 anos, em 2018, o jornal The Guardian descreve-a como a autora que define a sua geração, com apenas CWF e Normal People (NP) publicados. Aliás, o mesmo jornal, em 2019, atribui a NP o 25.º lugar na lista «Os Melhores 100 livros do Século XXI». Um ano mais tarde, a autora atingiria o seu estatuto de celebridade literária internacional com o lançamento da adaptação televisiva de NP. As ramificações do seu trabalho não abrandaram desde então. Da histeria coletiva com Paul Mescal e Daisy Edgar-Jones, aos fenómenos das redes sociais como «Sally Rooney-Taylor Swift-Phoebe Bridgers-Fleabag Multiverse» (mulheres que foram tão ou mais populares e influentes no início da década de 2020 que Rooney), ao chavão «sad girl lit» (no qual Rooney não se revê) o seu estatuto de autora que define a sua geração é cimentado.
Ora, definir uma geração é uma grande responsabilidade e pode-se dizer que Rooney teve uma falsa partida, quando olhamos para a tradução dos seus dois primeiros romances a serem traduzidos para hebraico, através da editora israelita chamada Modan, com ligações ao exército israelita. A autora admitiu o erro e ignorância em conversa com o ativista e artista Samir Eskanda, de nacionalidade irlandesa e palestiniana: «Como é que as minhas ações foram tão inconsistentes com as minhas visões?», perguntou-se Rooney. Todavia, se a ignorância permitiu a tradução de CWF e NP para hebraico, o mesmo não aconteceu com Beautiful World, Where Are You? (BW), momento em que Rooney se tornou verdadeiramente a definição da sua geração nos seus termos.
BW é o terceiro romance de Rooney, foi publicado em 2021, dois anos antes do 7 de outubro de 2023, tem especial importância na sua carreira, por dois motivos, de igual importância: é o primeiro romance de Rooney a sair do campus universitário e o primeiro romance romance que não é traduzido para hebraico. Diria até que Rooney estava em dívida com os seus leitores palestinianos, pois a causa palestiniana é referida mais do que uma vez em NP e foi deixada nas mãos de uma editora com ligações ao IDF. Porém, estou a adiantar-me na minha lista e gostaria de começar esta análise de BW pelo primeiro ponto da minha curta lista.
Embora tenha sido educado por professores que foram educados que a biografia nada interessa para a compreensão de um texto, eu coloco-me firmemente no lado contrário. Como conseguimos perceber, por exemplo, Sylvia Plath se não olharmos para a sua biografia? A biografia do autor não adiciona valor estético, mas adiciona uma carga cultural à obra. Mesmo a leitura do seu poema mais célebre, Daddy, absolutamente perfeito em forma, tem algo a ganhar, quando conhecemos o passado familiar de Plath, passado esse que me foi ensinado pelos mesmos homens a quem foi dito que a biografia do autor é irrelevante. Como referido anteriormente, BW, Rooney sai do campus universitário definitivamente e não regressa com Intermezzo (I), o seu romance mais recente, publicado em 2024. Ao olharmos para a biografia da autora, percebemos porquê. No Louisianna Book Festival, em 2018, aos 27 anos, Rooney explica o espaço das suas obras de maneira muito simples: escreve sobre o campus universitário, não porque o acha particularmente fascinante mas porque é tudo o que conhece. Aliás, quando escreve CWF, Rooney ainda está a frequentar um mestrado em estudos americanos, portanto, é um espaço que conhece bem. Do mesmo modo, tal como os protagonistas de NP, Rooney também recebeu uma bolsa de mérito. O universo das personagens de Rooney é muito semelhante ao universo que a própria autora habita.
Embora seja errado tecer um paralelismo entre Alice, protagonista de BW, jovem romancista bem sucedida (e recentemente enriquecida), e Rooney, escritora de BW, jovem romancista bem sucedida (e provavelmente bem financeiramente), conseguimos entender que a sua saída da universidade influenciou a trama do romance.
É neste momento que a carreira de Rooney se complica, quando sai do bildungsroman para este mundo de «adultos». Começa por boicotar a sua editora em Jerusalém, em 2021, e cinco anos volvidos, BW continua ausente das livrarias. O governo israelita não tardou a acusar Rooney de antissemitismo. Embaladas por estas declarações, as duas maiores livrarias no estado, Steimatzky e Tzomet Sfarim usaram a mesma estratégia e retiraram todos os livros de Sally Rooney das suas estantes físicas e digitais. O boicote é tão ridículo e inútil que até o sionismo adere, embora a editora, em 2021, continuasse interessada em vender o stock disponível. Uma pesquisa rápida na loja digital da mesma comprova que os dois primeiros romances de Rooney ainda estão à venda.
A trama não para por aqui. Em agosto de 2025, Rooney anunciou que, a partir de então, usaria os royalties pagos pela BBC pelas duas, nas suas palavras, «boas» adaptações televisivas dos seus romances para financiar o grupo britânico Palestine Action, que foi classificado como organização terrorista devido a atos de vandalismo em infraestruturas militares. Uma vez que Rooney está abertamente a financiar um grupo terrorista, pode ser presa nos territórios do Reino Unido sem necessidade de mandato. As próprias palavras de Sally Rooney também foram «presas» ao tentar passar a fronteira, pois tal declaração seria ilegal e, deste modo, impossível de publicar nos jornais do Reino Unido.
E o que tem tudo isto que ver com o ensaio de Sally Rooney, que foi mencionado há centenas de palavras atrás? Ora, aqui voltamos ao processo de formação da própria Rooney e à materialização das audazes palavras que fecham o seu ensaio:
Mas eu já não tenho dezanove anos; já não tenho de deixar as outras pessoas confortáveis. No fundo, fiz isto por mim. Pode não significar nada para os outros, mas também não tem de significar - esse é o objetivo. Eu era a número um. Como o Fast Eddie, eu sou a melhor que existe. E mesmo que me ganhes, eu continua a ser a melhor. (tradução minha)
Para quem estuda a obra de Rooney (e leu algumas entrevistas), é um pouco surreal encontrar a autora a acusar, por falta de melhor expressão, uma elevada taxa de bazófia. Contudo, não é só bazófia que Rooney acusa, mas também um grande talento para a escrita de ensaios. Em EI, a autora sublinha dois aspetos que serão aqui considerados fundamentais: as duras condições sob as quais competia, assim como os detalhes da própria competição em si. Primeiramente, participar em debates competitivos exigia tanto a cobertura total despesas (em especial para os principiantes) e compromisso absoluto com a agenda dos circuitos. Dificilmente, um trabalhador-estudante conseguiria competir, tanto por razões monetárias como de disponibilidade.
Em segundo lugar, Rooney apercebe-se rapidamente de que está a jogar um jogo. Está a debater temas dos quais pouco ou nada percebe (dá o exemplo de um debate sobre a Bósnia e Herzegovina) e a tomar posições que não concorda (dá exemplo de um debate sobre os benefícios do capitalismo para os mais pobres). Discutir estes temas de maneira tão desinformada e inconsequente (já para não falar do privilégio inerente aos debatentes) não é uma busca por conhecimento, mas sim um jogo, não muito diferente, diria eu, que o de tabuleiro «Deus, Hitler e Ghandi entram num bar…». Rooney entende, nesta fase da sua carreira, que não pode entreter jogos. Deste vez, está diante de um ativista palestiniano e tem de enfrentar as consequências de ter publicado os seus dois primeiros romances em hebraico numa editora que está ligada ao IDF. Se já saímos do campus, vamos enfrentar o nosso adversário como deve ser, pois desta vez não nos saíram cartões com o lado que vamos defender escrito no verso e a autora toma a sua decisão: não há Sally Rooney em hebraico, a menos que seja a própria a ditar os termos. O mesmo se passa com Palestine Action: se estou a receber dinheiro da BBC, vou usá-lo para financiar o grupo Palestine Action.
Os anos passam, mas a atitude mantém-se: mesmo que me tentes silenciar e tirar-me das prateleiras, eu vou usar a tua língua para contar a minha história, nos meus termos. I está disponível em Israel pela editora November Books, em colaboração com as organizações de esquerda israelitas +972 Magazine e Local Call, aprovadas pelo movimento BDS. Quanto ao grupo Palestine Action, Rooney não conseguiu estar presente numa cerimónia de prémios no Reino Unido, pois seria detida mal entrasse no território. Mesmo que me tentes impedir de entrar na tua fronteira, o meu nome continua a ser entoado em cerimónias de prémios.
Talvez isto tenha a ver com o ventre materno de que fala Yeats. Sabemos, através de Frances, protagonista de CWC, que Yeats não é bem visto nos meios artísticos contemporâneos na Irlanda, mas ela que me desculpe, pois até Edna O’ Brien usou estes versos na epígrafe de A Fanatic Heart, uma coletânea dos seus contos publicada em 1984. Acho que também tenho permissão para os usar, seguindo o exemplo de O’ Brien.
Afinal, Rooney é mesmo a autora que definiu uma geração. Claro está que não espero um segundo EI, no qual se define como a «número um», ou a «melhor». Contudo, esta postura audaz explica o sucesso literário e humano de Rooney, daí a importância de EI na lista de trabalhos da autora.
Além disso, de onde veio Rooney? Mais uma vez, a biografia para entender o autor. Tal como disse Yeats, a Irlanda é um quarto pequeno, todas as paredes têm alguma história, algum fervor, não é verdade? Bem, Rooney nasceu em Castlebar, County Mayo. Castlebar foi palco das famosas «Castlebar Races», uma retirada tão veloz dos ingleses que mais pareceu uma corrida: a 27 de agosto de 1798, dois mil soldados irlandeses e franceses, fazendo uso do terrível pântano de Mayo, humilharam um batalhão formado por seis mil soldados ingleses, que fugiram aterrorizados pelas ruas de Castlebar. Terá este terrível pântano ensinado alguma coisa a Rooney sobre apanhar adversários de surpresa? E terá Rooney ensinado alguma coisa aos jogadores da seleção de futebol irlandesa, que, depois de terem vencido a israelita, na Hungria, ponderam boicotar a competição Liga das Nações da UEFA e não aparecer em campo? A integridade não valerá mais do que três pontos numa competição de futebol secundária? Por acaso, Rooney tem um conto sobre futebol, que se passa durante o Euro 2016, Robbie Brady’s astonishing late goal takes its place in our personal histories. O próprio Brady chegou a jogar pela Irlanda, em março de 2026. Quem sabe se até levou o seu CWF no saco de ginásio, quando foi jogar contra a República Checa.
Infelizmente, enquanto as televisões portuguesas acompanhavam o desfecho de Cristiano Ronaldo na seleção nacional, os irlandeses decidiram que vão entrar em campo contra os israelitas. Será disputado à porta fechada. Na Sérvia. Quando estiver disposto, tanto o público português como o irlandês poderá aprender com as lições do boicote de Sally Rooney.
Diogo Oliveira tem 26 anos, vive no distrito do Porto, e é doutorando em Estudos Literários, Culturais e Interartísticos, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Os seus trabalhos de investigação focam-se nas literaturas e culturas irlandesas e norte-americanas. Atualmente, trabalha na equipa do projeto Utopia500, organizado pelo CETAPS – Centre for English, Translation and Anglo-Portuguese Studies. Quando não está a ler um livro, vai ao Cinema Trindade ou assiste aos jogos do Futebol Clube do Porto.



