[MEMÓRIA DE UMA "MADRUGADA" EM TOM DE FESTIVAL VELHO]

25.9.2026
Madrugada interpretada por Duarte Mendes
Madrugada interpretada por Duarte Mendes

Na segunda semifinal do Festival RTP da Canção de 2025 celebraram-se os 50 anos da primeira edição realizada em liberdade. Esse momento especial iniciou-se com um vídeo sobre a edição – única cuja gravação não se encontra nos arquivos da RTP –destacando os participantes, mas, essencialmente, a ideia de que «estávamos no tempo do processo revolucionário em curso e as canções traduziam sinais dos tempos», no qual se debateu «a música que ali se mostrava e a sua eventual função no mapa político, cultural e social num país em transformação».

Este vídeo foi seguido de uma atuação do grupo Os Assessores com Sara Correia, Selma Uamusse e Ana Bacalhau para interpretarem, respetivamente, Madrugada, A Boca do Lobo e Alerta!. No final da performance, questionado por Tânia Ribas de Oliveira sobre como foi revisitar este momento do Festival da Canção e do país, João Cabrita, membro de Os Assessores, respondeu:

É um momento que redefiniu o país e, de alguma forma, nos definiu a todos naquilo que seríamos para a frente. E, apesar de ter imagens e mensagens nas letras que parecem anacrónicas, ultrapassadas, já gastas, diria que nos dias que correm, têm alguma urgência – vão ganhando urgência – e são, de facto, muito atuais.

Num país em convulsão face às transformações político-culturais ocorridas após a queda da ditadura, os meios de comunicação foram reconfigurados e a programação passou a ser moldada pelo contexto revolucionário. A própria realização do Festival RTP da Canção de 1975 foi colocada em causa, já que o certame, associado ao regime ditatorial, tornara-se suscetível da desconfiança das chefias da televisão, compositores, letristas e intérpretes. Todavia, o concurso não deixava de ser o maior e mais amplo veículo de comunicação com as massas em Portugal, pelo que se afigurava como um espaço preponderante na disputa da cultura, bem como uma oportunidade ímpar para apresentar uma canção na Europa que evidenciasse as transformações políticas e sociais ocorridas no país. Estes foram os motivos pelos quais a RTP optou por lhe dar continuidade.

Realizado a 15 de fevereiro de 1975, durante o Processo Revolucionário em Curso[PREC], o Festival RTP da Canção de 1975 ambicionava retratar o panorama musical emergido após a Revolução de Abril, colocando sob rasura o que se associava musicalmente ao salazarismo. As transformações foram transversais ao certame, que, em oposição à rigidez, ostentação e glamour associados ao regime ditatorial, pautou-sepela simplicidade e informalidade ao longo do espetáculo. Por outro lado, a RTP,preterindo a habitual votação distrital, deixou a votação a cargo dos letristas e compositores, que podiam atribuir a cada uma das outras canções entre um e cincopontos. Apesar de esta alteração ter como intuito dar maior relevo aos participantes, a decisão seria sobejamente criticada, dando aso a acusações pela falta de democraciaplasmada na opção de convidar diretamente os compositores, mas também pela votação não estar a cargo do público. Este sistema de voto e o confronto ideológico através das declarações de voto – transformadas em comunicados políticos – disputaram não só o conteúdo poético e sonoro do que deve ser a música popular portuguesa, mas, acima de tudo, impuseram uma questão: que tipo de país construir adiante?

A reconfiguração administrativa e programática da RTP, que visou «atualizar e apresentar novo repertório a ser divulgado junto de diferentes camadas sociais e que enquadrasse o momento político que se vivia», também se refletiu na escolha de catorze compositores. Houve um esforço por afastar da edição os elementos que estavamassociados ao nacional-cançonetismo e convidar aqueles que se consideravamprogressistas, pelo que a diversidade ideológica entre os compositores convidados foicircunscrita ao campo político da esquerda, ainda que refletisse a panóplia de tendências que se apresentavam. Num período em que os partidos tentavam afirmar-se em termos nacionais a pensar nas eleições que ocorreriam a 25 de abril, a música popular tinha-se convertido num «mecanismo de crítica, utopia e mobilização», versando sobre o tema da Revolução, o fim do Estado Novo e da Guerra Colonial, mas também sobre as preocupações políticas e sociais que marcavam a época, pelo que o Festival da Canção foi, também, palco dessa luta ideológica e eleitoral.

Durante o regime ditatorial, alguns cantautores defenderam que o fado e onacional-cançonetismo «deveriam ser expurgados violentamente para libertar Portugal». Ainda que se reconhecesse que a necessidade de mudança no fado constituíaum imperativo, no período pós-Revolução acentuaram-se as críticas a este género acerrimamente associado ao salazarismo, encarado como instrumento de controlocultural da ditadura. Volvidos 50 anos, a escolha de uma afamada fadista – Sara Correia– para esta homenagem, cantando a canção vencedora, Madrugada, indicia que a memória deste período não enaltece o papel exercido por estas canções «na definição e reorganização dos géneros musicais a seguir ao 25 de Abril», mas também que o fado conseguiu romper estas barreiras socioculturais e procurou afirmar-se como matriz identitária de Portugal (Nery, 2004 apud Nicolay, 2012).

Com composição e letra de José Luís Tinoco e interpretação do Capitão de Abril, Duarte Mendes, Madrugada inicia-se com os seguintes versos: «Dos que morreram sem saber porquê / Dos que teimaram em silêncio e frio / Da força nascida no medo / E a raiva à solta manhã cedo». Constatando o caráter mortífero e a violência da Guerra Colonial, que provocou sequelas e a morte de milhares de jovens, a canção carrega em si um véu de esperança, anunciando o nascimento de um novo país, alicerçado na luta de todo um povo. Através dos versos «Da escuridão a abrir em cor / Do braço dado e a arma flor / Fazem-se as margens do meu povo / canta-se a gente que a si mesma se descobre», Madrugada foi capaz de produzir um discurso autónomo sobre o povo, cuja valorização política e estética «partia dos conflitos do tempo presente e projetava-se num horizonte utópico», contrariando as recriações nostálgicas do regime ditatorial.

Outra das canções que fez parte da homenagem foi a 2.ª classificada, A Boca do Lobo, com composição e letra de Sérgio Godinho e interpretação de Carlos Cavalheiro.Apontada pela imprensa como uma das grandes favoritas à vitória no certame, A Boca do Lobo enfocava o que ainda não estava liquidado do Estado Novo e a possível intervenção estrangeira dos que temiam um caminho socialista para o país, anunciando que esse processo coletivo iria ser concluído. À semelhança de todas as outras canções, recebeu a pontuação mínima da parte de José Mário Branco, que considerava que «todas elas [canções] saíram da mesma panela em que a burguesia cozinha os seus grandes lucros comerciais». Na conferência de imprensa do Grupo de Ação Cultural [GAC], justifica o voto acrescentando que A Boca do Lobo seria «uma canção que, embora não sublinhe expressamente as posições dos partidos burgueses, reformistas e revisionistas – que traem o povo a cada hora –, também não as desmente; não as anula; não se coloca contra elas».

Por fim, a última canção presente na homenagem foi Alerta! do GAC. Beneficiando de um apoio vigoroso da imprensa e dos críticos, era a mais panfletária das canções concorrentes neste ano, sendo apontada como a principal favorita à vitória. Esta não era unicamente panfletária, mas também programática, apresentando as linhas-mestras do programa da UDP e, de acordo com José Mário Branco, o posicionamento ideológico do GAC na luta pela Democracia Popular e pela Ditadura do Proletariado, sustentado nos versos: «Não há povo que tenha liberdade / Enquanto houver na sua terra exploração / Liberdade não se dá, só se conquista / Não há reforma burguesa que resista / Democracia popular / E ditadura proletária».

Previamente ao concurso, Madrugada não tivera muito destaque, sendo encaradacomo estando presa ao passado, sem uma ideia concreta para o país. Contudo, no final das votações, conquistou 61 votos face aos 59 obtidos pela canção A Boca do Lobo.Segundo Maria Madalena Gonçalves, «na imprensa, artistas, jornalistas e críticos consideraram que […] não tinha força suficiente para representar Portugal em Estocolmo», não representando uma rutura com os vencedores das edições ocorridas no período ditatorial (Castro, 2019: 342).

Certo é que, findas as canções, num ano em que os votos eram feitos pelos letristas e compositores, as declarações de voto foram transformadas em comunicados políticos, que, segundo Sofia Vieira Lopes, foram representativas das «diversas posturas políticas mais ou menos radicais que se desenhavam na sociedade portuguesa e que simbolizam as lutas de poder que marcaram o PREC». Estava em litigância a imagem do país que se pretendia transmitir para o povo e para a Europa, tendo Nuno Nazareth Fernandes defendido que nenhuma canção, «em termos não-demagógicos, [conseguiria]chamar para si a atenção dos telespectadores europeus, dando à Europa uma ideia de Portugal depois do 25 de Abril». Ademais, sustentava que, apesar da importância lírica da canção Alerta!, seria «pouco prudente e mesmo perigoso» apresentar esta canção em Estocolmo, dando o sinal à imprensa internacional de que em Portugal havia «muita gente interessada em não consolidar um regime verdadeiramente democrático».

Por outro lado, na conferência de imprensa do GAC leu-se a declaração de voto do Festival RTP da Canção de 1975, na qual José Mário Branco afirmara que «os festivais do tempo do fascismo davam-nos gato por lebre; agora dão-nos gato por lebre com cravos de liberdade», o que demonstra que, na sua ótica, os objetivos visados na realização do Festival RTP da Canção de 1975 tinham sido frustrados. Relativamente às declarações de voto de Nazareth Fernandes, os membros do GAC consideraram que se comprovava que Alerta! seria, assim, uma canção disruptiva face ao capitalismo e ao imperialismo europeu e que, na «ótica do Nuno Nazareth Fernandes – e não só, naturalmente, aquilo [Alerta!] não era uma canção que a burguesia pudesse vender muito bem, provavelmente, não é. Portanto, o importante era que fosse lá uma canção [Madrugada] que fosse bem vendida».

Estas canções moldaram a memória popular e, desta forma, permitem que se organize um sentido do tempo. Reciprocamente, a memória popular reduziu-as como sendo parte, exclusivamente, de um período revolucionário que se consubstanciou numa «espécie de ‘desvario’ corrigido pelo 25 de Novembro de 1975». De acordo com Maria Inácia Rezola:

Se é verdade que para os setores mais radicalizados que queriam mudanças mais rápidas, o que aconteceu e a canção vencedora era manifestamente insuficiente, insatisfatória, perante as mudanças radicais e rápidas que pretendiam, também nós sabemos que mesmo grupos, podemos chamá-los de progressistas, de esquerda, queriam que essa mudança fosse pautada por um maior tom de conciliação, por um menor radicalismo.

À época, talvez tenha sido uma «“Madrugada” em Tom de Festival Velho»; com o decorrer do tempo, o que, outrora, teve «tom geral de mediocridade», ganhou contornos de radicalidade. Decorridos 50 anos, cristalizou-se a imagem de uma edição singular, profundamente radical, em que as canções tiveram um papel ativo na definição do mapa político, cultural e social neste país em transformação. Sendo certo que estas canções refletiram e contribuíram para as transformações em curso, circunscrever estas disputas na edição de 1975 esvazia o Festival RTP da Canção enquanto espaço permanente de lutas ideológicas e acomoda a narrativa simplista de uma radicalidade isolada temporalmente. Na verdade, foi neste Festival Velho que gerações se infiltraram «para, por dentro, conseguir combater o estado das coisas» e, decorrido meio século, é igualmente neste Festival Velho que estas mensagens «vão ganhando urgência – e são, de facto, muito atuais».

Gil Duarte Ribeiro é doutorando em História na FLUP. Apesar da formação académica também ter passado por Direito, optou pela reforma antecipada nessa área. Cinéfilo nas horas livres, nas horas ocupadas dedica-se ao estudo da música popular. Aproveitando a sua (antiga) paixão pelo Festival RTP da Canção e pela Eurovisão, explora a ligação entre media, cultura de massas, memória e identidade.

‍

[LISTA DE FONTES]
‍
Balanço do XII Grande Prémio TV da Canção 1975. (1975, 16 de fevereiro). RTP Arquivos – Conteúdos do acervo histórico da RTP. https://arquivos.rtp.pt/conteudos/balanco-do-xii-grande-premio-tv-da-cancao-1975/
Festivais da Canção. (2011, 22 de dezembro). FC 1975: Carlos Cavalheiro - "A Boca Do Lobo" [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=qwc521OTyzw
Festivais da Canção. (2011, 22 de dezembro). FC 1975: José Mário Branco - "Alerta!" [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=sL49TOE9_3E
Festival da Canção 2025 - 2ª Semifinal. (2025, 1 de março). RTP Palco. https://www.rtp.pt/play/palco/p14573/e833646/festival-da-cancao-2025/1313734
Festival da Canção. (2025, 1 de março). O Festival de 1975 | Festival da Canção 2025 [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=Q93NRQpatgg
Louro, R. (1975). "Madrugada" em Tom de Festival Velho. "Madrugada" em Tom de Festival Velho, XXXI(1407), 13–17.
Quis Saber Quem Sou. (2025, 7 de março). RTP Play. https://www.rtp.pt/play/p12894/e834673/quis-saber-quem-sou
RTP. (2010, 15 de janeiro). 1975 - Duarte Mendes - Madrugada.mp4 [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=YzwHISVQVyU

‍

‍

[LISTA BIBLIOGRÁFICA]

‍

BRANCO, Luís de Freitas (2024). A Revolução antes da Revolução: o ano que mudou a música popular portuguesa. Livros Zigurate.
CARDÃO, Marcos (2014). “Pois Claro! Música, política e desejo no Festival RTP da Canção (1975-1982)”. Ler História, 67, pp. 27-43. [consulta em 28/07/2024]. Disponível em: https://doi.org/10.4000/lerhistoria.805
CASTRO, Hugo (2019). A cantiga só é arma quando a luta acompanhar! Canção e política na Revolução dos Cravos (1974-1976). Tese de Doutoramento em «Ciências Musicais, especialidade em Etnomusicologia», Lisboa, Universidade NOVA de Lisboa.
CÔRTE-REAL, Maria de São José (1996). “Sons de Abril: Estilos musicais e movimentos de intervenção político-cultural na Revolução de 1974”, Revista portuguesa de musicologia, 6, pp. 141-172.
FRANCO, Alberto (2019). As guerras do Fado – debates e polêmicas sobre a canção nacional. Guerra e Paz Editores.
FRITH, Simon (2004). “Towards an aesthetic of popular music”. Popular Music. Critical Concepts in Media and Cultural Studies, vol. IV, Music and Identity. Londres/Nova Iorque, Routledge, pp. 32-45.
GONÇALVES, Maria Madalena de Oliveira Viana (2019). O Festival RTP da Canção e a participação de Portugal no Festival Eurovisão da Canção no telejornal (1969 e 2017). Tese de Mestrado em «Jornalismo», Instituto Politécnico de Lisboa, Escola Superior de Comunicação Social.
LOFF, Manuel (2014). "Estado, democracia e memória: políticas públicas e batalhas pela memória da ditadura portuguesa (1974-2014)". Ditaduras e Revolução. Democracia e políticas da memória. Coimbra, Almedina, pp. 23-143.
LOPES, Sofia Vieira (2017). “O papel da imprensa na reconstrução de memórias televisivas”. Cuadernos de etnomusicología, 10, pp. 211-240.
MONTEIRO, Tiago José Lemos (2009). “‘Como é linda a minha aldeia’: o papel dos gêneros musicais massivos na construção de uma imagem mítica de Portugal”. Revista da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação | E-Compós. Brasília, 12.1, pp. 1-15.
NICOLAY, Ricardo (2012). “O fado de Portugal, do Brasil e do mundo: uma revisão das teorias sobre sua origem”. Revista Contemporânea, 20.10, pp. 58-70.
PAULO, Heloísa (2014). “E depois do Adeus: os saneamentos e a nova legislação de censura e imprensa após o 25 de Abril”. Storia e problemi contemporanei, 67, 3, pp. 105-115.
RIBEIRO, Gil Duarte (2025). Madrugada das Canções dos Cravos: os Festivais RTP da Canção de 1974 e 1975. História: revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 14.2, pp. 50-76.
SOUTELO, Luciana de Castro (2009). A Memória do 25 de Abril nos Anos do Cavaquismo: o desenvolvimento do revisionismo histórico através da imprensa (1985-1995). Dissertação de mestrado, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Porto.

‍