[FEDERALISMO EUROPEU, COLÉGIO DA EUROPA E CONSCIÊNCIA DE CLASSE ENTRAM NUM BAR]

8.1.2026
Skeletons Fighting Over a Pickled Herring de James Ensor (1891)
Skeletons Fighting Over a Pickled Herring de James Ensor (1891)

Estudar no Colégio da Europa está-se a revelar, para mim, um resguardar bendito, mas temporário, das dinâmicas sociais a que vou ter de me sujeitar a querer cumprir o meu desejo de uma carreira política. Ritual de humilhação tradicional é o de fazer comentário político da «espuma dos dias» durante uns anos, enquanto se aguarda uma chamada para palcos mais interessantes, ganha a necessária notoriedade. No meu palco, imagino, serão esses ululares que me puxarão de volta a Portugal. Assim, o Colégio permite-me, por um breve ano, não viver acorrentada à prisão da ambição e maravilhar-me nas conversas que não brotam no palco – e, por isso, as que realmente criam o espetáculo.

O Colégio da Europa estripa-nos das âncoras nacionais e despeja-nos numa cidade minúscula e medieval muito longe de casa, fazendo resvalar os acontecimentos nacionais para importância secundária (afinal de contas, a distância física inoperabiliza qualquer tipo de agência) e dando lugar a um interessante fenómeno: retiradas influências nacionais, o que resta ao corpo estudantil é saciar-se em conversas diletantes sobre o futuro da Europa. No fundo, a liberdade de, por um ano, nos forçarem a ser agentes passivos do nosso contexto nacional para florescer intelectualmente nos temas da integração europeia. 

Enfim, nos corredores desta instituição, o debate de eleição é, mais do que a própria questão da integração europeia, é a de que modo o fazer. Participar da dita elite implica uma self-fulfilling prophecy: aceder, para influenciar, a ideologia dominante na integração europeia implica a priori acreditar no projeto europeu como inerentemente uma coisa boa – não com uma visão neutra, não como um caminho histórico irreversível sobre o qual não há agora nada a fazer senão participar – algo bom. A integração europeia raramente se põe em questão: é dado por adquirido que os seus mecanismos são falíveis, mas a intenção benéfica. Os seus defeitos não são de fabrico, mas burocráticos. 

Três ilações se retiram desta afirmação: o que é revelador do próprio Colégio da Europa, da elite e de mim própria.  Sobre o Colégio da Europa, este tem algumas características que, em comparação com outras universidades com alguma retumbância, dão azo a interpretações conturbadas do seu papel: o seu tamanho diminuto, o seu escopo específico, a distância física (em Bruges) mas a influência forte na EU bubble (uma quantidade astronómica de college graduates preenchem lugares de decisão em Bruxelas), o desconhecimento generalizado sequer da sua existência exceto aquando escândalos – tudo isto alimenta a teoria da conspiração de que há motivações veladas por detrás da tal escola de doutrinação para treinar agentes de propaganda europeísta. Os rumores não são propriamente mentira, já que a própria reitoria assume que a sua missão não é estritamente a da neutralidade e da excelência técnica mas também de contribuir ativamente para melhorar o projeto europeu. Ainda assim, considero uma leitura bastante rasa das dinâmicas que aqui se passam; é da minha convicção que é prestando atenção ao corpo estudantil que mais significado conseguiríamos extrair do papel que os tecnocratas aqui formados têm em ditar o futuro europeu.

Vejamos, a experiência (dialeticamente) dominante é a do cidadão transnacional – frequentemente de dupla nacionalidade, talvez nunca habitou por mais do que um par de anos num mesmo país, acompanhando os seus pais internacionais e fazendo a sua escolaridade nas escolas internacionais. Na prática, sendo de lado nenhum, a identidade agarrada ao conceito de Estado-Nação não lhe serve e o projeto de integração europeu é um conforto inevitável, e com dupla vantagem: agraciando a identidade que a Nação não oferece, projeta em si a conclusão de que saem como «vencedores» da integração, e que os restantes mortais devem deles retirar lições para sucesso na sociedade do futuro. Não custa muito ser federalista assim. Ou seja, ainda que os rumores sobre o Colégio tenham o seu quê de verdade, talvez a doutrinação exista a priori – e isto muitos falham em observar.

Mas agora o que diz sobre mim – sei que é o que se perguntam. Afinal, sou narradora participante, culpada num conluio europeu do qual só tenho conhecimento porque alguma destas características tem de ser verdade sobre mim, a confirmar tudo o que, até agora, iluminei sobre a minha instituição de ensino. A verdade é que sou mais pragmática. O Colégio da Europa seria – está a ser – a stepping stone no meu caminho como alpinista social, vinda de uma família de classe média que meteu todos os ovos na minha educação e no meu capital cultural, mas que ficou aquém (bless their heart!) no capital internacional, algo que alguém como eu ansiava rapidamente manobrar. «Chique a valer!» diria o Eça, e muito bem, porque pouco mudou nos desejos do crème de la crème português.

A compreensão do que ganho, mas do que perco na minha procura do «chique a valer» está muito implícita no meu agregado familiar. Após a partilha de um episódio elitista que me aconteceu, a minha mãe reiterou para nunca me esquecer de onde vim. A parte que não lhe disse é que não me sinto vítima da minha condição de classe média, e por isso digo que me aconteceu e não que sofri um episódio elitista. Pelo contrário, cada vez mais penso de onde vim; a minha herança de classe média é o que me impede de partilhar de certa embriaguez ideológica. A utopia emocional, quase fantasiosa sobre o federalismo europeu compartilhada por muitos colegas não retumba em mim; ainda assim, e mesmo sendo a maioria do corpo estudantil como eu e não como os nossos colegas transnacionais, a dialética dominante é a última e não a primeira, havendo o consenso silencioso de que o capital internacional que nos falta é defeito que impede de falar em pleno direito sobre o caminho a seguir.

E é por isso que me senti tão impelida, nas minhas férias de Natal, em tentar dar fio condutor às minhas experiências formativas em três meses e meio de Colégio. Qual a leitura a dar de eu ser a única, na mesa de almoço, a discordar veementemente da proposta de federalismo europeu? O episódio de humilhação em usar um fato fast fashion, ao invés de tailored? O meu riso ao ver posts no LinkedIn de pares meus em bajulação ao discurso medíocre de Kaja Kallas na nossa cerimónia de abertura? A cultura de «what happens in the College, stays in the College»? 

Enlaçou-se na minha cabeça um nó entre dois conceitos: federalismo e identidade. Por meses moí mentalmente o significado imberbe que atribuía a estes dois conceitos para explicar a minha vida de estudante universitária num internato europeu. 

Sinto a fricção entre não querer ser a maioria (de classe média) que adota a dialética da minoria (transnacional) por sentir que a minha origem é um «defeito» – porque não sinto – mas o meu desejo de ascensão social me tornar com ela conivente. Pior, reforça a presunção de que a experiência vivida entre as quatro paredes do Colégio é a verdade axiomática – a UE é inerentemente boa; nós somos os vencedores do fim da História; a abstração da identidade nacional é o caminho do futuro.

Não quero fazer essa figura. Não acredito que a União Europeia seja inerentemente boa – ela simplesmente é. O federalismo repugna-me porque, em tempos de tensão, pode-se aproximar de forma perigosa dos nacionalismos do passado1; já para não falar da necessidade de, para criar uma comunidade política, ter de haver uma identidade comum que a sustente. Qualquer tentativa de homogeneização de uma identidade europeia irá terraplanar as idiossincrasias históricas que firmam as identidades nacionais. 

A União Europeia quer ancorar-se firmemente na Segunda Guerra Mundial e no Holocausto como evento fundador da identidade europeia. Não me relaciono. Enquanto portuguesa, sinto-me herdeira de uma história que, durante séculos mas também durante a Segunda Guerra Mundial (com a neutralidade do regime fascista e da Guerra Colonial), se manteve voltada para o Atlântico, nunca para a Europa; e por isso considero o colonialismo como evento cristalizador do projeto europeu até aos dias de hoje. Sei que faço parte do discurso minoritário. E daí? Quero que as minhas nuances individuais, regionais, nacionais habitem a minha identidade europeia. E, finalmente, a experiência ucraniana e palestiniana no recente quadro geopolítico só me evidenciam como o nacionalismo anti-imperialista também liberta, arrasando também o argumento de que o regionalismo2 é, necessariamente, o caminho do futuro.

O federalismo tem sustentado demasiadas conversas de cantina e demasiado refugo em crónicas de jornal para se justificar como uma posição pragmática, como se bastasse enumerar vantagens institucionais para ignorar o seu pilar: a identidade. A minha obsessão por esta veio da parte para o todo. A minha conivência em dissociar-me da «classe média» para habitar um novo degrau do elevador social foi, para mim, um reflexo de como conceitos políticos – consciência de classe, federalismo, identidade – são habitáveis no campo do corpo e das emoções. Os meus amigos transnacionais habitam uma pele que não a minha, mas que se oferece como one-size-fits-all. A experiência que engole as outras, a confirmação da classe média como «no man’s land». O vácuo que suga o confronto de ideias em nome de uma ilusão de miscigenação. Sou eu, a prova viva.

1 -  «The trouble with many European intellectuals in this respect is that now the long-wished-for European federation is a definite possibility, new constellations of world powers make it only too easy to apply their former nationalism to a larger structure and become as narrowly and chauvinistically European as they were formerly German, Italian or French.» (Hannah Arendt, originalmente citada por Hans Kundnani, 1948) https://www.theguardian.com/world/2023/aug/17/the-eurocentric-fallacy-the-myths-that-underpin-european-identity 
2 - Regionalismo no sentido atribuído por Hans Kundnani: «Regionalism is similar to nationalism but on a larger, continental scale.»